Sappe comemora 30 anos de cuidados à saúde do estudante da Unicamp

Abertura do II Simpósio Saúde Mental, em comemoração aos 30 anos do Sappe
Abertura do II Simpósio Saúde Mental ao Estudante Universitário, em comemoração aos 30 anos do Sappe

Quando o aluno ingressa na universidade, ele é rodeado de grandes expectativas. Mesmo que esse momento seja particularmente muito bom [afinal ele conseguiu vencer uma estreita seleção no vestibular], esse aluno sente muitas pressões e, se não tiver um encaminhamento adequado, o desfecho dessa situação nem sempre será positivo. É nessa hora que ter um apoio institucional é fundamental. A Unicamp oferece aos estudantes, desde 1987, o Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica (Sappe), órgão ligado à Pró-Reitoria de Graduação (PRG).

Esse trabalho vem, portanto, sendo oferecido há exatos 30 anos e, para comemorar a data, foi realizado, na manhã desta segunda-feira (13), o II Simpósio Saúde Mental do Estudante Universitário no Centro de Convenções da Universidade. Compareceram ao evento a equipe do Sappe, docentes, funcionários e alunos. O reitor da Unicamp participou da mesa de abertura.

A atual coordenadora do Sappe, a psiquiatra Tania Maron Vichi Freire de Mello, disse na cerimônia que é grande o impacto da intervenção desse serviço na vida acadêmica, visto que o aluno que chega à Unicamp realiza a escolha do seu curso sem ter muita clareza acerca dessa opção. Muitos alunos deixam as suas casas e o seu círculo de amizades para iniciar uma nova vida numa cidade às vezes desconhecida.

A coordenadora do Sappe, a psiquiatra Tania Maron
A coordenadora do Sappe, a psiquiatra Tania Maron
Público no Centro de Convenções da Unicamp
Público no Centro de Convenções da Unicamp

"Mudam seus hábitos de sono e de alimentação. Eles têm que gerir sua própria casa e a sua própria vida. Na graduação, eles podem enfrentar muitas dificuldades de adaptação, por conta dessas mudanças. Na pós-graduação, eles têm que lidar com suas pesquisas dentro de um prazo limitado de tempo, têm que estabelecer relação com o seu orientador e nem sempre essa relação alavanca o seu percurso. Outro grande obstáculo é escrever de modo autoral, atividade à qual não estavam habituados”, problematizou Tania.

Segundo ela, para lidar com essas questões, hoje o Sappe conta com uma equipe de dez psicólogas, dois psiquiatras e 24 "treinandos" de formação psicanalítica que realizam um curso de extensão de excelência desde 1991. “Temos a responsabilidade de lhes apresentar a saúde mental e zelar que o percurso deles seja o melhor possível”, ressaltou.

O pró-reitor de Pós-Graduação, André Tosi Furtado, afirmou que entende que a pós-graduação é um novo estágio na vida do aluno que exige autonomia dele e atenção da Universidade. “Nem sempre o aluno está preparado para isso e então ele necessita de ajuda. Esse investimento é essencial e inclusivo para o desenvolvimento do aluno", enfatizou. A pró-reitora de Graduação, Eliana Amaral, comentou que a Unicamp valoriza muito o Sappe, pela sua dimensão relevante perante a comunidade interna e como referência externa a outros serviços. Na sua opinião, esse atendimento sempre deve olhar para a prevenção. “A inter-relação dos profissionais com esse aluno pode amenizar muito as suas angústias. E nós, da PRG, buscamos que ele faça uma boa passagem pela Universidade e saia daqui feliz.”

O pró-reitor de pós-graduação da Unicamp, André Tosi Furtado
O pró-reitor de pós-graduação da Unicamp, André Tosi Furtado

O reitor parabenizou a equipe do Sappe pelas três décadas de existência. Disse que essa atividade é contínua e que tem se pautado em rediscutir como trabalhar com as diferentes questões emergentes no atendimento. “Esse é um excelente trabalho que vocês fazem pela Unicamp”, qualificou.

Ele lembrou que algumas experiências na vida acadêmica, como ter um baixo rendimento, por exemplo, desestruturam o aluno, uma vez que leva um certo tempo para que tenha uma completa adaptação na vida estudantil e na vida pessoal. Knobel recordou que cada vez mais esses jovens estão chegando precocemente à instituição. "Todos esses elementos podem levar a alguma disfunção e, neste caso, além dos professores, que podem ser um importante referencial, o Sappe pode auxiliar muito nessa nova trajetória", salientou. 

Knobel ainda pontuou que muitas decisões são difíceis no âmbito acadêmico, muito por conta da pressão exercida socialmente. Citou também que o perfil de alunos não é homogêneo. "Mas hoje a Unicamp está implantando cotas étnico-raciais e acabamos de criar a Cátedra de Refugiados. Esses novos perfis exigirão de nós outros cuidados. Daí a importância de darmos uma importante sustentação às ações que o Sappe faz com tanta satisfação internamente. Desejamos que esse trabalho também seja difundido a outras universidades brasileiras", destacou.

A pró-reitora de graduação, Eliana Amaral
A pró-reitora de Graduação da Unicamp, Eliana Amaral


Origem
Convidada a abordar a origem e a evolução desse serviço, Ruth Mattos de Cerqueira Leite, psicanalista e fundadora do Sappe, ressaltou que essa foi uma das suas experiências mais fecundas profissionalmente. Elogiou o engajamento e o entusiasmo do grupo. Revelou que, ao chegar à Unicamp, chegou com a ideia de uma universidade idealizada, fantasmática. Viu que a Universidade deveria ser um novo espaço de acolhimento dos alunos, que perdem parte de sua identidade ao deixarem suas famílias. "Os alunos mais sensíveis podem enfrentar problemas e isso pode atrapalhar o seu desempenho acadêmico", ressaltou.

Ruth acha muito prematuro para o estudante ter que escolher um curso para prestar o vestibular no momento em que está consolidando a sua identidade. Ela recorda de uma pesquisa em que os alunos diziam que não sabiam quem eles eram. Segundo ela, é por essa razão que o Sappe é um serviço essencial, por procurar dar resposta a inquietações.

O reitor da Unicamp, Marcelo Knobel
O reitor da Unicamp, Marcelo Knobel

O Sappe surgiu por uma sugestão do professor José Carlos Valadão, então pró-reitor de extensão da Unicamp, na gestão Paulo Renato. O serviço começou com três salas e com três psicólogos. O chefe do Departamento de Psiquiatria era o psiquiatra Maurício Knobel, já falecido e pai do reitor Marcelo Knobel. “Muitos alunos davam entrada na Psiquiatria, embora o que na verdade precisavam era de atendimento psicológico. Como não tínhamos um serviço de referência, nos embrenhamos nessa proposta", relatou.

No primeiro ano, o atendimento aumentou muito. O professor Maurício Knobel então trouxe à Unicamp a técnica de psicoterapia breve. Mas a lista de espera crescia, pois também os alunos não tinham muita disponibilidade, e a grade curricular de cada um era diferente. Então o atendimento se prolongava muito.

Um dos desafios impostos no período foi a criação de um curso de aprimoramento profissional com experiência em psicoterapia. "Esse programa foi e é bem-sucedido. Consolidamos a psicoterapia breve. Inicialmente, eram cinco alunos selecionados por ano para participar desse curso. Atualmente, são 24", recordou ela.

Outro desafio foi fazer valer a filosofia do Sappe, "dado que chegou um momento em que a Universidade passou a pedir um laudo dos alunos. Isso trouxe algum constrangimento, por se tratar de assuntos sigilosos. Como resultado, ficou um tempo sem teto e sem atendimento fixo. Depois, conseguiu o espaço no Ciclo Básico, onde até hoje funciona o Sappe", descreveu.

A psicanalista Ruth Cerqueira Leite, fundadora do Sappe
A psicanalista Ruth Cerqueira Leite, fundadora do Sappe

Hoje, o serviço continua crescendo e desenvolvendo outras modalidades de atendimento, como o 4S (que é o atendimento em quatro sessões) e o pronto socorro em atendimento emergencial. "As filas de espera prosseguem desafiadoras, contudo esse trabalho não pode parar", incentivou a fundadora do Sappe.