O aprendizado com a pandemia e a ciência no pós-Covid19

A Covid-19 trouxe mazelas incalculáveis, muitas irreparáveis. Como é comum em crises humanitárias, revelou o que há de melhor e pior nas pessoas. Embora o sofrimento com a pandemia não possa ser ignorado, é preciso entender o que de bom podemos tirar da crise. Nesse aspecto, há de se destacar o papel da ciência e a organização de cientistas no enfrentamento da doença.

Enquanto o mundo observa a devastação causada pela Covid-19, cientistas se organizam, montam forças-tarefas, mobilizam recursos, desenvolvem protocolos, geram conhecimento, compartilham dados e servem de bastiões de esperança diante do caos anunciado.

Caos que, de acordo com princípios físicos básicos, é tendência espontânea no Universo, somente antagonizado pela injeção constante de energia na forma de trabalho. Sabendo disso, a academia se organizou.

Um exemplo é a Rede Vírus, criada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para integrar iniciativas de combate a viroses. A mobilização no enfrentamento da Covid-19 vem demandando trabalho e organização, catalisada pela massa crítica e infraestrutura formadas por décadas de financiamento em educação e ciência.

Cinco meses depois da doença chegar ao Brasil, enquanto em algumas regiões o vírus avança sem muita resistência, em outras o nível de resposta chega ao patamar adequado. O grau de resposta se confunde com a capacidade de organização das instituições acadêmicas locais. Assim, a pandemia expôs de forma óbvia a necessidade de reforçarmos nosso arcabouço de ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

Mas como mobilizar cientistas e instituições no Brasil para trabalhar de maneira integrada? Como manter a estrutura para nos preparar para o advento de outras pandemias? A resposta para a primeira pergunta passa por conciliar realidades locais distintas. Por sorte, a Covid-19 nos ensinou os valores da empatia. O simples reconhecimento de que isolamento social e uso de máscara pode proteger vidas alheias já serve como exemplo da força que o cooperativismo encontra na sociedade.

Cientistas perceberam que trabalhos em parceria alcançam maior impacto. Estreitar relações com parceiros, derrubando fronteiras ou desigualdades, é o caminho natural a ser seguido. É necessária a formação de uma rede nacional integrada de enfrentamento a doenças, com profissionais de diferentes áreas do conhecimento e instituições de várias regiões do Brasil, usando a infraestrutura instalada e as qualidades locais para cooperar e prover soluções para crises de saúde pública.

A manutenção dessa rede se daria pela estruturação de polos regionais, que coordenariam iniciativas locais e trabalhariam de forma integrada para ampliar suas capacidades. Esses polos seriam centros de natureza interdisciplinar, com foco no estudo e controle de doenças com impacto socioeconômico significativo e cujas prevalências vêm aumentando. O financiamento da rede, sua estruturação e iniciativas poderiam vir de agências governamentais e empresas sensibilizadas com a necessidade de investimento em CT&I.

Dengue, chikungunya e zika incentivaram, mas não foram suficientes para construirmos uma rede permanente de prevenção e controle de doenças no Brasil. Organizamo-nos e nos desestruturamos. Criamos nichos de excelência, mas não os integramos. Fizemos grandes descobertas, mas nosso sistema nacional de CT&I não estava suficientemente maduro para transformá-las em ações concretas de longo prazo de forma a colocar o Brasil numa posição de prontidão para futuros desafios.

É necessário fortalecer o sistema de CT&I brasileiro para que todo o esforço coletivo realizado até agora não se dissipe e que, quando vierem novas pandemias, a resposta de cientistas seja ainda mais ágil e acolhida de maneira inequívoca, num reconhecimento de que ciência não é gasto, e sim investimento num futuro melhor para todos.

Marcelo A. Mori Professor do Instituto de Biologia da Unicamp e secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Marimelia Porcionatto Professora da Escola Paulista de Medicina e coordenadora de pesquisa da Unifesp, é secretária regional da SBPC

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Cientista trabalha em laboratório do Instituto Butantan, em São Paulo | Divulgação
Cientista trabalha em laboratório do Instituto Butantan, em São Paulo | Divulgação