Covid-19 aproxima cientistas da mídia de maneira inédita

Se até 2019 a ciência tinha um espaço tímido no noticiário, com a pandemia do novo coronavírus ela se tornou protagonista. Geneticistas, pneumologistas, infectologistas, historiadores e outros especialistas estão todos os dias no noticiário e passam a planejar na rotina de trabalho as entrevistas com jornalistas do país todo. O avanço da Covid-19 diminuiu o distanciamento entre cientistas e imprensa, pois traz a necessidade de falar sobre ciência com quem a produz, em busca de informações confiáveis e atualizadas para o público.

Boa parte desses pesquisadores, no entanto, não está acostumada a lidar com a mídia e tampouco recebeu treinamento para falar com jornalistas. A nova demanda aproxima cientistas da mídia e sociedade e pressiona para treinamentos futuros que possam melhorar as competências para falar com a mídia.

"Estamos muito acostumados a falar de ciência, dar palestra, a falar para quem entende do assunto, mas falar com quem não entende do assunto é uma barreira que temos que ultrapassar”, admite o biólogo Alessandro Farias, pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Alessandro, que também coordena a Frente de Diagnósticos da Força-Tarefa da Unicamp contra a Covid-19, criada no início da pandemia, relata que a demanda por entrevistas tem crescido exponencialmente. Para se ter uma ideia, ele havia tido um único contato com a imprensa antes da pandemia. Agora, chega a dar mais de oito entrevista semanais.

Outra cientista que tem aparecido diariamente em veículos de comunicação do Brasil e do exterior é a pneumologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Dalcolmo.  Ela conta ter concedido apenas duas entrevistas no último ano. Em tempos de Covid-19, ela passou a ter presença frequente no telejornalismo da rede Globo -- o que a torna, praticamente, uma comentarista.

“Hoje, em meio à emergência sanitária existente, fui atingida por uma avalanche de entrevistas. Raro o dia que não tenha entrevista [agendada]”, descreve a historiadora das doenças, Dilene do Nascimento da Fiocruz que participou de reportagem sobre a gripe espanhola de 1918 do programa Fantástico, da rede Globo, no último dia 29 de março.

Para atender a imprensa, Dilene conta que precisa de uma preparação para responder as pautas propostas e ainda teve que lidar com tecnologias que não dominava, o que impacta diretamente seu trabalho. “Está difícil me concentrar para escrever artigos ou mesmo os dois livros que eu estou escrevendo, um deles, inclusive, sobre a história da peste”, afirma.

Alessandro Farias, coordenador da Frente de Diagnósticos da  Força-Tarefa da Unicamp para a Covid-19, em entrevista ao SBT | Foto: Acervo Pessoal Henrique Soares
Alessandro Farias, coordenador da Frente de Diagnósticos da  Força-Tarefa da Unicamp para a Covid-19, em entrevista ao SBT | Foto: Acervo Pessoal Henrique Soares

Sair na capa de um dos maiores jornais do país por um feito científico também traduz a relevância que Ester Sabino, imunologista do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT/USP), adquiriu durante a pandemia. Ester, que coordena a equipe de pesquisadoras responsável pelo sequenciamento em tempo recorde do genoma do novo coronavírus, afirma que a preocupação com a mídia é anterior à pandemia, mas o foco se intensificou a partir de 19 de março quando o feito foi divulgado. "Na primeira semana, paramos o laboratório para responder à mídia. Levamos isso como um trabalho de divulgação que faz parte do meu trabalho científico", afirma a pesquisadora.

Treinamento

Ester já trabalhou com um jornalista no IMT para divulgar trabalhos de pesquisa na mídia, experiência avaliada positivamente por ela e pelo grupo. "Talvez devêssemos pensar em um curso de pós-graduação para treinar os estudantes a falar com a mídia", sugere.

Dilene do Nascimento (esq.) e Margareth Dalcolmo, ambas da Fiocruz, concedem entrevista à TV Globo. Elas passaram a incluir o atendimento à mídia em suas rotinas de trabalho em meio à pandemia. Crédito: Divulgação Fantástico e Globo News
Dilene do Nascimento (esq.) e Margareth Dalcolmo, ambas da Fiocruz, concedem entrevista à TV Globo. Elas passaram a incluir o atendimento à mídia em suas rotinas de trabalho em meio à pandemia. | Crédito: Divulgação Fantástico e Globo News

Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista da prefeitura de São Paulo e comissionada no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, também já mantinha uma relação constante com a mídia mesmo antes da chegada da Covid-19 ao Brasil, sobretudo no período entre 2007 e 2014, quando foi diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Através da Secretaria, a pesquisadora realizou um treinamento que a ajudou a lidar com a mídia. “Nos ensinavam até maneiras de como olhar para as câmeras”, conta.

Recentemente a médica foi fonte de matéria internacional sobre a situação da pandemia no Brasil para o jornal inglês The Guardian. O veículo acionou a profissional por intermédio de Dom Phillips, repórter britânico, radicado no Brasil, que já havia entrevistado Ana para matérias sobre o recente surto de febre amarela (do fim de 2016 ao início de 2018). Desde então, os dois mantiveram o contato, sendo que Ana se tornou uma espécie de consultora em questões de saúde pública para Phillips.

Cursos de Media Training, ou treinamento para lidar com a mídia, trabalham estratégias que ajudam os pesquisadores no trato com a imprensa, como técnicas de impostação de voz e comportamento diante da câmera. Entretanto, esse treinamento ainda não faz parte da rotina da maioria das universidades e institutos de pesquisa no Brasil. Com isso a mídia costuma contar, com frequência, com os mesmos pesquisadores, aqueles que se expressam bem e que estão disponíveis.

Laura Gallagher, diretoria de comunicação do Imperial College of London (Reino Unido), instituição referência na divulgação de modelos que prevêem a disseminação do novo coronavírus pelo mundo, afirmou, em artigo de Amber Dance para o site da revista Nature, que cientistas entrevistados recebem mais citações de seus artigos, contatos de possíveis colaboradores e convites para conferências.

Um estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz com cientistas brasileiros avaliou suas percepções sobre a cobertura de ciência pela mídia e sua relação com jornalistas. A análise, publicada em junho de 2016 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, mostrou que para 67% dos participantes a divulgação de suas pesquisas teve impacto positivo na carreira do cientista, sobretudo na hora de conseguir financiamento para pesquisas e ter seus trabalhos aceitos para publicação em periódicos científicos.  

Ana Ribeiro diz que o Instituto Emílio Ribas também conta com o intermédio de assessores, porém, com a atual alta demanda, a comunicação com os pesquisadores e outros profissionais tem sido feita de maneira informal, diretamente entre pesquisadores e jornalistas. A epidemiologista ressalta a importância do trabalho dos assessores de imprensa que fazem toda a diferença na experiência de intermediação entre cientistas e mídia faz. “Algumas orientações são essenciais, mas, ao mesmo tempo, quando há assessoria, há um certo controle do que será falado, diferente do que está acontecendo agora por causa da demanda da pandemia”, pontua.

Perspectiva das assessorias de comunicação

A rotina dos profissionais que trabalham com comunicação da ciência também mudou drasticamente com a alta demanda da mídia decorrente da pandemia do novo coronavírus.

Rita Vasconcelos, integrante da assessoria de imprensa da Fiocruz de Pernambuco, conta que no início da crise a assessoria era acionada para pautas gerais que poderiam ser respondidas por qualquer profissional da saúde, como modos de lavar as mãos, por exemplo. Na medida em que a situação foi evoluindo, a equipe passou a evitar este tipo de pauta para focar nas mais específicas.

Trabalhando há mais de 30 anos no campo da comunicação em saúde, Rita vivenciou a crise epidemiológica da Aids e o caso recente das toxinas em Caruaru. Ela afirma que o trabalho durante a pandemia da Covid-19 tem sido estafante e solitário, mas que nada se compara ao que aconteceu durante a epidemia do vírus da Zika em 2016. “Ficamos no olho do furacão, atendendo a imprensa mundial”, relata.

Segundo Rita, a assessoria da Fiocruz de Pernambuco oferece media training para os pesquisadores e técnicos da instituição, inclusive com produção própria de material didático relacionado, com o apoio em diversos manuais da Coordenadoria de Comunicação Social.

Sobre as dificuldades no relacionamento entre cientistas e a mídia, a assessora acredita que  é necessário que o corpo científico entenda a importância de divulgar seus trabalhos, mesmo que fora do contexto de uma epidemia, e que, nesse processo, devem respeitar a assessoria de comunicação. Para os jornalistas o recado é “entenderem o tempo da ciência e também verem a assessoria como aliada ao seu trabalho e não como obstáculo”.

10 Dicas para se comunicar melhor com a mídia

Antes da entrevista

  1. Esteja à disposição de jornalistas para responder perguntas e tirar dúvidas;
  2. Tente responder demandas de jornalistas rapidamente por e-mail ou por telefone celular, preferencialmente;
  3. Tente atender ao deadline do jornalista;
  4. Verifique se sua instituição possui uma assessoria ou guia para falar com a mídia. Se possível, pratique as dicas;

Durante a entrevista

  1. (Video) Filme sempre na horizontal quando usar o celular;
  2. (Áudio) Grave sempre em locais sem ruído, de preferência usando microfone;
  3. Utilize uma linguagem simples, seja conciso e diga o essencial para ser compreendido;
  4. Use analogias ou metáforas que aproximem sua pesquisa ao cotidiano do público;

Depois da entrevista

  1. Confie no trabalho do jornalista, não peça para ler a matéria antes que seja publicada. Você pode rever citações caso ache que foi mal entendido;
  2. Engaje-se. Sempre que possível, escreva para público não especializado: nas redes sociais, veículos de sua instituição, jornais locais e nacionais. 

 

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Pandemia reduz distância entre ciência e imprensa
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