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Temperatura em elevação
Em seu novo livro, O Continente do Labor, o sociólogo
Ricardo Antunes faz uma profunda reflexão sobre
o mundo do trabalho na América Latina e alerta:
mesmo dividida, a classe trabalhadora tem reagido
ao processo de eliminação de seus direitos


MANUEL ALVES FILHO

O professor Ricardo Antunes, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, lançará no próximo dia 31 de outubro, na Livraria Cortez, em São Paulo, o livro O Continente do Labor, no qual promove uma profunda reflexão sobre o mundo do trabalho na América Latina. A obra, que se “impôs naturalmente” a ele, reúne textos inéditos e já publicados, produzidos ao longo dos últimos seis anos, alguns em coautoria com outros estudiosos. “Era o momento de fazer anotações sobre o passado, o presente e o futuro do trabalho no continente”, explica o sociólogo, que aborda o tema com a criticidade que caracteriza o seu pensamento.

Na entrevista que segue, concedida em sua casa, entre um gole e outro de limonada, numa tarde quente de Primavera, o intelectual falou sobre o movimento global de precarização do trabalho, sobre as reações dos movimentos sociais e sindicais a esse processo e alertou, com a autoridade de quem acompanha de perto o assunto há quase 40 anos: a temperatura está esquentando. “A classe trabalhadora, mesmo dividida, tem reagido. Os jovens trabalhadores espanhóis, italianos, portugueses, ingleses e noruegueses não vão ver passivamente o desmoronamento dos direitos que conquistaram com tanto sacrifício. As janelas estão abertas e podem ser aproveitadas tanto por movimentos sociais anticapitalistas quanto por movimentos contrarrevolucionários nazifascistas. Tudo isso é, para nós estudiosos, um profundo laboratório das lutas sociais. Eu digo no livro que, dentro desse laboratório, a Ásia e a América Latina são dois exemplos excepcionais para análise”.

Jornal da Unicamp – O que motivou o senhor a escrever O Continente do Labor?

Ricardo Antunes – Este livro nasceu espontaneamente. Não foi um projeto, como o livro Sentidos do Trabalho, que foi resultado do meu pós-doutorado na Inglaterra e que apresentei como trabalho para o concurso de professor titular na Unicamp. Ele nasceu espontaneamente. A partir da primeira edição em espanhol do meu livro Adeus ao Trabalho, publicado na Venezuelana, e depois Argentina, Colômbia e México, e depois com a publicação de Os Sentidos do Trabalho, eu passei a ir muito aos países da América Latina para debater. No segundo semestre do ano passado, quando estava em Mendoza, no Norte da Argentina, aproveitei uma tarde livre para voltar aos Andes. Foi naquele momento que bateu forte um pensamento que também era uma pergunta. O que é o trabalho na América Latina?

Eu que já havia estudado o Brasil e vinha estudando o cenário dos países capitalistas avançados – do Japão aos Estados Unidos, passando pela Europa – me dei conta de que deveria fazer algo sobre o nosso continente. E me dei conta também de que tinha um conjunto de textos sobre a América Latina e o Brasil. Especialmente um texto que escrevi para a Enciclopédia Latinoamericana, publicada pela Boitempo, que saiu em português e em espanhol. Originalmente, ele era longuíssimo e teve que ser cortado para ser incluído na obra. Eu guardei esse texto, que foi produzido em 2005. Na minha cabeça, ele tinha o título de O Continente do Labor, embora esse título não fosse possível no verbete da enciclopédia. Pois bem, eu peguei esse texto, que em boa parte estava inédito, e o utilizei para publicá-lo com outros artigos que foram escritos ao longo das minhas viagens pelo continente. Era o momento de fazer anotações sobre o passado, o presente e o futuro do trabalho na América Latina.

JU – Há textos inteiramente inéditos no livro?

Ricardo Antunes – Alguns dos textos foram publicados em revistas do exterior. Uma revista francesa me pediu, há dois anos, um balanço sobre o sindicalismo brasileiro, que eu incluí no livro. Há também uma análise do governo Lula, mas que eu nunca tinha publicado. Escrevi a pedido de uma publicação que seria feita no Canadá, em inglês. Assim como este, há alguns outros que não foram publicados e a há os que foram publicados em revistas no Brasil e exterior. A terceira parte do livro chama-se Panorama do Sindicalismo na América Latina, na qual há anotações sobre as principais centrais sindicais do continente, feitas por meu grupo de pesquisa. Isso acabou por dar um desenho interessante ao livro. E têm alguns artigos que foram escritos em coautoria com amigos que autorizaram a publicação. Nenhum deles, porém, é responsável pelas teses que estão no livro, que são minhas obviamente.

JU – Qual a particularidade do trabalho na América Latina?

Ricardo Antunes – O trabalho na América Latina tem, sim, uma particularidade. O mundo do trabalho tem tendências globais. A precarização é um exemplo disso. Acabo de chegar de Veneza, onde dou aulas em um curso de mestrado anual na Universidade Ca’ Foscari. A questão mais explosiva na Europa, hoje, é a precarização do trabalho.

Ocorre que nós, latino-americanos, sempre convivemos com essa realidade, que os italianos chamam de trabalho atípico. Eu começo o ensaio lembrando que o trabalho antes da colonização hispânica ou portuguesa era realizado pelos indígenas. Os portugueses, no Brasil, e os espanhóis, no restante da América Latina, introduziram o trabalho escravo africano e indígena, com base na violência. Nós nascemos com o trabalho escravo, enquanto a Europa já fazia o trânsito do trabalho servil para o assalariado.

JU – Em dada altura do seu livro, o senhor chama a atenção para a necessidade de ficarmos atentos aos dilemas do trabalho no continente. Que dilemas são esses? Em que medida eles se diferem dos dilemas de outros períodos históricos?

Ricardo Antunes – Sempre houve na história do capitalismo, especialmente no latino-americano, fases de desemprego intenso. Em momentos de expansão econômica, o índice é menor; nos de recessão, é maior. O Brasil viveu o vilipêndio da alta taxa de desemprego a partir da década de 90. Ampliamos o emprego nos últimos quatro ou cinco anos porque a economia entrou numa fase de ascensão. Entretanto, agora há claros sinais de perigo por causa da nova fase da crise global. Como enfrentar um dilema crucial como esse? Por um lado, os jovens que concluem a fase escolar têm que trabalhar para sobreviver. Por outro, cresce a ausência de trabalho.

Na Espanha, por exemplo, o jovem entre 17 e 24 anos tem uma taxa de desemprego oficial de 47%. Então, o jovem espanhol tem a seguinte certeza: fazendo universidade, tendo curso superior, ele é candidato número um ao desemprego e candidato número dois a um trabalho precarizado. No Chile, há atualmente um majestoso movimento estudantil e popular. Lá, tanto as universidades públicas, que a ditadura Pinochet destruiu o mais que pôde, quanto as instituições privadas são caríssimas. Uma família chilena de classe média baixa ou da classe trabalhadora muitas vezes tem que vender a casa, que conquistou com muito sacrifício, para financiar o estudo de um filho, para que ele possa ter um futuro melhor. É um quadro social trágico, e é por isso que o Chile está hoje paralisado, com uma série de greves que mostram a vitalidade dessas lutas. O Chile é emblemático do que estamos falando da América Latina.

Se olharmos a imprensa brasileira e a internacional, vão dizer que o Chile é um dos países que mais crescem na América Latina. Cresce, mas também cresce o fosso social entre os setores dominantes da sociedade enriquecidos e a massa que reúne a classe trabalhadora urbana, os campesinos, os mineiros etc, todos bastante empobrecidos e pauperizados.

JU – Há saída para esse dilema?

Ricardo Antunes – Hoje nós temos um desemprego brutal. A OIT [Organização Internacional do Trabalho] fala em mais de 200 milhões de desempregados no mundo. É muito mais do que isso. Ninguém sabe o desemprego real na China. Há cinco anos, o país crescia a 12% ao ano. Agora, baixou para 7%. Para a China essa diferença representa uma hecatombe. Várias fábricas foram fechadas. A China compensa pelo crescimento enorme em outras áreas e em outros países.

Onde pode estar a saída? Se há pouca gente com trabalho em condições estáveis, mas que cumpre longas jornadas, e se tem muita gente com trabalho precarizado ou desempregada, uma primeira alternativa seria reduzir de forma significativa a jornada ou o tempo de trabalho em escala global, sem reduzir salários. Assim, todos poderiam ter emprego. Por que isso não é feito? Porque isso toca no sistema de metabolismo social do capital.

A França tentou, no final da década de 90, reduzir a carga horária de trabalho para 35 horas. O governo aprovou a medida, mas depois de poucos anos ela esmoreceu e foi eliminada. Na Alemanha, no Japão, na França e em quase todos os países não se fala em outra coisa hoje: se o trabalhador quiser preservar os empregos, tem que trabalhar mais.

A lógica das corporações transnacionais – e que atinge o microcosmo da produção da pequena, média e grande empresa – está baseada na liofilização toyotizada e flexibilizada. A liofilização, termo que vem da Química, é um processo de desidratação que elimina as substâncias vivas. O que é liofilizar a empresa flexível? É eliminar as substâncias vivas dentro dela. Em outros termos, é eliminar o trabalho vivo. Quando o trabalho vivo é eliminado, o trabalhador se precariza, vira camelô, faz bico etc. Desde a revolução industrial os trabalhadores lutam por direitos sociais, e muitos foram conquistados.

O que nós vimos nos últimos 30 anos foi um monumental desmonte desses direitos. Reduzir a jornada de trabalho, discutir o que produzir, para quem produzir e como produzir são ações prementes. Ao fazermos isso, estamos começando a discutir os elementos fundantes do sistema de metabolismo social do capital que é profundamente destrutivo. Não é por outro motivo, senão contestar essa lógica destrutiva, tanto em relação ao trabalho, ao meio ambiente, às formas complexas da dominação, que o tema do socialismo, no redesenho do século XXI, ressurge. E a América Latina tem peso neste embate.

JU – Olhando para o interior da América Latina, o que aproxima e o que distancia os países do continente?

Ricardo Antunes – Quando saímos do Brasil, temos em todos os outros países um idioma diferente. Isso, sem dúvida, distancia o Brasil dos demais. Em vários países da América Latina, temos uma mescla muito rica de cultura pré-hispânica e indígena. No Brasil, a colonização portuguesa nos deu outra língua. Mas Caio Prado Júnior mostrou que a colonização espanhola e portuguesa da América Latina foi estruturada através das colônias de exploração, enquanto que a colonização inglesa nos Estados Unidos foi na base do povoamento. Aqui, predominaram o saque e o vilipêndio.

Por isso chamei o livro de Continente do Labor, sendo o termo labor uma expressão do trabalho árduo. Em termos de organização sindical e política, o anarcossindicalismo teve maior expressão em alguns países, o Brasil entre eles, e menor importância em outros. Em alguns países, o chamado socialismo reformista pré-comunista teve importância, como na Argentina. No Brasil, foi pouca e incipiente. Em alguns países, o sindicalismo ainda é forte.

No Brasil, o sindicalismo continua sendo forte, independentemente da coloração das entidades. Na Argentina e no México também. Em vários países, como na Bolívia, avançam as lutas populares: no presente inclusive ocorre uma pressão justa de populações campesinas e indígenas contra uma estrada que está sendo construída com capital brasileiro. Há países em que ocorreram revoluções, como no México, Bolívia e Cuba, e outros em que ocorrem contrarrevoluções, como no Brasil – o Golpe de 64 e em tantos golpes militares nas últimas décadas, como no Chile, Argentina, Uruguai etc.

Nos planos sindical e partidário há, portanto, várias singularidades e particularidades; há muitas diferenças. No universo dos governos, temos hoje pelo menos três grandes vertentes importantes. Tem a direita tradicional (México, Colômbia, Chile e Honduras), tem um desenho que esboça uma alternativa crítica com traços de esquerda, mas com tensões (Venezuela e Bolívia e em menor escala Equador), e tem um “pólo de centro”, onde o Lula é a grande liderança. Também fazem parte dessa última corrente o ex e o atual presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez e José Mujica, além da ex-presidente chilena Michelle Bachelet.

Esses são alguns exemplos do que nos aproxima e nos distancia. Mas uma tese que o livro explora é a de que avançam de modo expressivo as lutas sociais e políticas, conectadas direta ou indiretamente com o trabalho, a precarização, o desemprego, contra a mercadorização dos bens como água e recursos energéticos, contra a exploração desertificada e bárbara das siderurgias e suas crateras que avassalam povos e populações, contra a opressão de gênero, etnias, gerações etc. Denomino essa processualidade, no livro, como a busca das questões vitais, que movem o cotidiano das maiorias trabalhadoras.

JU – E em relação aos países de fora do bloco?

Ricardo Antunes – Hoje temos uma nova divisão internacional do trabalho e do capital, redesenhada a partir dos anos 70, na qual países como Índia, China, Brasil, Rússia alcançaram posição de destaque. Em 1970, se você pegar a impressa brasileira, a China era citada pelo seu isolamento. Ninguém falava da China, mas dos Tigres Asiáticos, como Coréia. Hoje, quando você compra em Veneza aquelas máscaras que tipificam um traço da cultura da cidade, basta olhar que verá nelas a inscrição “Made in China”. Qual é a força da China? A China tem atualmente um contingente de força de trabalho que está próximo de um bilhão de pessoas e assimila celeremente tecnologias de ponta em vários setores da produção.

Na Índia, há uma imensa população que vive com menos de 2 dólares por dia. Trata-se de um país onde a pobreza e a riqueza convivem atadas. Há vários setores da sociedade indiana que se apoderaram do arsenal tecnológico-informacional. Avanço tecno-informacional-digital e vilipêndio do trabalho e sua superexploração. No Brasil também ocorreu isso, ainda que em menor medida. Tanto Brasil quanto China e Índia têm um mercado interno forte. Quando a crise global atinge as economias centrais e há uma retração das importações dos nossos produtos, as commodities, a alternativa é estimular o mercado interno. Foi esse o lance de Lula. Incentivou a indústria automobilística, a de construção civil, linha branca e outros setores com a oferta de incentivos fiscais. O Lula dizia desde os anos 70 que o Brasil deveria incentivar o mercado interno. Naquele momento, porém, ele pensava nisso para melhorar a condição da população trabalhadora. Hoje, é para melhorar a condição da população trabalhadora, mas também fortalecer o capitalismo brasileiro. Socialismo para ele, como respondeu em uma antiga entrevista que nos foi dada, é para “todos terem direito à propriedade privada”.

Lula é uma expressão excepcional do migrante rural que entrou no setor de ponta da indústria brasileira, o automotivo. Foi o mais importante líder sindical brasileiro da era republicana. Mas, como foi galgando espaço e poder, a cada degrau dessa longa caminhada, ele deixou um valor seu para trás. E foi adquirindo outros. Não é de assustar que seu cachê em palestras para transnacionais (aquelas mesmas que praticam a superexploração do trabalho) sejam hoje três vezes mais caras que aquelas ofertadas por Fernando Henrique Cardoso, para triste surpresa deste e regozijo do outro.

JU – O senhor também afirma no livro que o Brasil sempre esteve com as costas voltadas para a América Latina. Pode explicar melhor isso?

Ricardo Antunes – O nosso processo de colonização foi baseado no seguinte princípio: produzir para a metrópole, pelo sistema de monopólio, comandado pela metrópole. As nossas costas sempre estiveram voltadas para a América Latina. A nossa universidade tem como modelo as universidades da França, Inglaterra ou Estados Unidos. A nossa classe dominante senhorial desprezava internamente os trabalhadores escravos negros e também desprezava os negócios com as classes dominantes coloniais no mundo américo-hispânico. Nossa relação era com Portugal, Holanda ou Inglaterra. Depois, com os Estados Unidos. Por isso faço uma provocação no livro. O Brasil não pode imaginar que é o máximo na América Latina. O máximo é a América Latina como um todo. A América Latina hispânica é poderosa. O México vive uma situação de crise profunda, mas é um país e uma cultura pujantes.

O Brasil, então, sempre teve as costas voltadas para o continente. Só que hoje esse processo sofre algumas mutações por causa do movimento que o Brasil faz de se integrar ao rol dos países avançados – o G20, G7 etc – e porque o país tem uma economia forte que colhe resultados no momento de crise. A globalização, entretanto, hoje significa que o Sul do mundo está também dentro dos países centrais. Atualmente, não existe uma capital na Europa Ocidental que não tenha bolsões de pobreza e mesmo miséria. Ao mesmo tempo, você tem uma europeização ou uma norte-americanização das classes dominantes brasileiras, que vivem nos seus guetos. Elas não andam mais de carro, mas de helicópteros. E vivem em condomínios “indevassáveis”. Esta é mais uma forma de voltar as costas para o continente. É sempre bom lembrar que somos mais latino-americanos que europeus, embora tenhamos tido uma colonização europeia. Também tivemos uma industrialização baseada no american way of life. A cultura do automóvel é um exemplo disso. O carro tornou-se, no século XX, sinal do status e do poder de um indivíduo.

JU – Como os trabalhadores vêm reagindo ao quadro de precarização do trabalho em escala global?

Ricardo Antunes – Hoje posso dizer com mais tranquilidade ainda o que já afirmava em meados da década de 90. O que vemos hoje na Grécia? Os trabalhadores, a sociedade como um todo, não aceitam pagar a conta da crise atual. O FMI e o Banco Mundial estão impondo aos países europeus a mesma cartilha que impuseram à América Latina e que nos devastou. Os jovens na Espanha estão se rebelando. A nova geração portuguesa é chamada de “à rasca”, expressão que designa uma juventude enrascada, encalacrada, sem saída. Recentemente, vi manifestações em Portugal dessa jovem geração, dos precári@s inflexíveis, como se denomina um desses novos movimentos contra a precarização, desemprego, opressão etc.

Neste cenário, tem uma nova morfologia do mundo do trabalho que oferece, ao contrário do que diziam alguns autores, segundo os quais a classe trabalhadora não tinha mais nenhuma importância, uma nova morfologia das lutas sociais. Então, você vê protestos em vários pontos. Recentemente, houve protestos violentos na Inglaterra. Os jovens, imigrantes, precarizad@s, veem que o trabalho está diminuindo e a conta da crise é apresentada aos trabalhadores. É aí que se rebelam. Há uma rica clivagem de classe, gênero, geração, etnia, que aflora intensamente nestas lutas.

Dizem que são rebeliões sem projeto. Mas e daí? Qual a novidade? A contrarrevolução burguesa dos últimos 40 anos procurou destruir impiedosamente todos os projetos alternativos, inclusive socialistas, para que não ficasse pedra sobre pedra. Seria um milagre “divino” que esses movimentos tivessem projetos claros. Esses projetos vão nascer de novas lutas sociais, dessa nova morfologia.

Veja a rebelião árabe. Os árabes da Tunísia e Egito lutam contra o binômio ditadura-pauperização. Lutam contra a riqueza petrolífera que gera uma riqueza diamantífera, por um lado, e uma massa de miseráveis, de outro. Tem gente que diz que o sindicato não tem mais importância. Besteira. Na Tunísia os sindicatos tiveram papel importante nas rebeliões. No Egito, tivemos assembleias em praça pública com a participação também, ainda que em menor escala, dos sindicatos. Temos também as rebeliões na América Latina. O exemplo local mais recente é o da Bolívia, acima referido. Então, essa novamorfologia repõe, na concretude do século XXI, o tema do socialismo.

Mas é preciso também lembrar que se este cenário abre possibilidades para as lutas sociais, abre também para movimentos de extrema direita. Na Europa, hoje, a extrema direita faz campanha aberta. Antes, o movimento não se expunha tão abertamente, salvo nas ditaduras. Agora, ele se apresenta com todas as letras. Na Itália, anos atrás, vi um cartaz de um dos partidos que disputavam a eleição que dizia: “nós somos a verdadeira direita”. O segredo da dominação num passado recente era a direita nunca dizer que era direita. Eram “democratas” ou “liberais”, no máximo. Hoje são fascistas, nazistas. Essa é uma tendência que você vê na Europa claramente.

JU – No livro, o senhor lança um olhar em perspectiva sobre essas tensões? Paraonde elas caminham?

Ricardo Antunes – No início do século XX as “placas tectônicas”, que na verdade são uma metáfora em relação às placas sociais, se mexeram. Tivemos nas primeiras décadas: Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa, Revolução Húngara e Revolução Alemã. Se adentrarmos mais um pouco, tivemos o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha e Segunda Guerra. No início do século XXI, as “placas tectônicas” estão se mexendo novamente. Tenho dito há algum tempo que a temperatura das lutas sociais na Europa e nos EUA, sem falar na América Latina e Ásia, está aumentando. A China é o país onde tem mais greve no mundo. Tem empresa na China na qual os empresários obrigam os trabalhadores a assinar um termo afirmando que não vão praticar suicídio. Se praticarem,as famílias deixam de receber o que as empresas devem pagar pelas mortes no trabalho.

As janelas estão abertas para a reposição de um modo de vida no qual o sistema de metabolismo humano-societal seja verdadeiramente voltado para uma produção de bens socialmente úteis e que não sejam destrutivos. Para que a preservação da humanidade, da natureza e da emancipação seja um valor forte e permanente. Todavia, como vimos, há janelas do outro lado, que abrem para o fascismo e nazismo.

Mas, a classe trabalhadora, mesmo dividida e com suas dificuldades, tem reagido. Os trabalhadores espanhóis, italianos, portugueses, ingleses e noruegueses não vão ver passivamente o desmoronamento dos direitos que conquistaram com tanto sacrifício. Jürgen Habermas [filósofo e sociólogo alemão] cometeu um grave erro em seu livroTeoria da Ação Comunicativa. Ele disse que o proletariado europeu tinha se pacificado. Ele não percebia que o bem-estar social começava a desmoronar. E que isso geraria o esquentamento das lutas sociais que estamos vendo. Isso recoloca a questão de qual sociedade queremos.

Quem diria há pouco tempo que o mundo árabe iria se convulsionar, a não ser os estudiosos mais atentos do tema? O mundo árabe vive um processo de revoluções democráticas e sociais. Esse é o cenário. Insisto: as janelas estão abertas e podem ser aproveitadas tanto por movimentos sociais anticapitalistas quanto por movimentos contrarrevolucionários nazifascistas. Tudo isso é, para nós estudiosos, um profundo laboratório das lutas sociais. Eu digo no livro que, dentro desse laboratório, a Ásia e a América Latina são dois exemplos excepcionais para análise.

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■ Serviço

Título: O continente do labor
Autor: Ricardo Antunes
Editora: Boitempo
Páginas: 176
Preço sugerido: R$ 35,00

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