Edições Anteriores | Sala de Imprensa | Versão em PDF | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 272 - de 25 a 31 de outubro de 2004
Leia nessa edição
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Vlado e o fim da ditadura
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Morte com naturalidade
Ciência + Paraolimpíadas
 

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A Bartonella henselae, bactéria que pode estar presente
em animais de estimação, é um risco para pacientes com HIV

Pequenas e grandes conseqüências de um
arranhão de gato


LUIZ SUGIMOTO


O professor Paulo Eduardo Ferreira Velho, do Ambulatório de Dermatologia do HC: ainda não se procurou avaliar a real importância da bactéria (Fotos: Antoninho Perri)Quem for doar sangue no Hemocentro da Unicamp poderá ser surpreendido com uma pergunta aparentemente descabida: “Você cria gatos em casa?”. Pergunta básica de uma pesquisa que tentará detectar e dimensionar a presença, na população da região, da bactéria Bartonella henselae, transmitida ao homem principalmente por gatos, através de arranhaduras e mordeduras. “A primeira fase do estudo, que ainda depende de aprovação do Comitê de Ética da Faculdade de Ciências Médicas, pretende englobar doações coletadas em dois ou três meses”, informa o professor Paulo Eduardo Ferreira Velho, do Ambulatório de Dermatologia do Hospital das Clínicas (HC) da Unicamp.

As pessoas que estimam e convivem com os bichanos não precisam se alarmar. A chamada doença da arranhadura do gato (DAG) é velha conhecida, indolor e, apesar do inconveniente de a lesão na pele ser acentuada e perdurar até por meses, ela desaparece naturalmente. “Num ponto da arranhadura ou mordedura surge uma espécie de bolha, mais consistente, que logo some. Dias depois, aparece na região um gânglio aumentado e duradouro, o que chama a atenção para a doença. Pode demorar, mas esse gânglio também desaparece sozinho”, explica Paulo Velho. Segundo o dermatologista, a DAG é freqüentemente diagnosticada quando se procura afastar a hipótese de um câncer. “Muitos casos são identificados no Centro Boldrini, por exemplo, porque os médicos ficam preocupados com a persistência do gânglio em crianças e adolescentes”, observa.

Se a doença é benigna em pessoas saudáveis, há outra motivação para a pesquisa: em doentes com o sistema imunológico comprometido, por HIV ou outros males, a infecção pela bactéria traz conseqüências graves e pode ser fatal. “Nessas pessoas, a Bartonella é uma das causas da angiomatose bacilar, doença sistêmica que provoca lesões por toda a pele e pode atingir fígado, baço ou mesmo o sistema nervoso central; a bactéria também já foi associada a quadros de demência e depressão. Por isso, acho importante estudar o risco de que pacientes imunodeficientes sejam infectados numa transfusão de sangue”, adverte. Na opinião do médico, como a DAG é auto-limitada e a angiomatose bacilar não é freqüente, ainda não se procurou avaliar a real importância da bactéria, mesmo que as formas de manifestação da infecção não sejam todas conhecidas.

Sem sintomas – O temor do pesquisador se justifica, pois o homem, que inevitavelmente manterá contato com gatos em algum momento da vida, é capaz de carregar a Bartonella henselae no sangue sem nunca apresentar sintomas da doença da arranhadura do gato. Testes para detectar a bactéria não fazem parte da rotina dos bancos de sangue . “Estudos de sorologia divulgados no exterior trazem diferenças extremamente discrepantes nos resultados, mas todos confirmam o contato com a bactéria de forma assintomática. Na Alemanha, uma pesquisa apontou resultado positivo em 20% de uma amostra da população. Na Suíça, o índice chegou a 48%. Já nos EUA, o percentual caiu para 2% entre doadores de sangue, enquanto outro estudo registrou 6% – entre drogaditos, 33% eram soropositivos”, afirma Paulo Velho.

O Brasil possui, sim, trabalhos de soroprevalência, mas em gatos. Uma das pesquisas analisadas pelo professor da Unicamp, com animais recolhidos nas ruas de São Paulo, mostrou que 46% deles tinham sorologia positiva e, desses, 33% tinham a bactéria circulando no seu sangue, de forma assintomática. Na realidade a Bartonella henselae encontra-se nas fezes da pulga, sendo então transmitida ao homem através das unhas, dentes ou saliva dos gatos. “Está demonstrado que um gato infectado e outro não infectado podem conviver livremente, desde que não existam as pulgas; caso contrário, a transmissão de um animal para outro ocorre facilmente”, ilustra o médico. Ainda não se sabe a importância da própria pulga como vetor para os humanos.

Quando começou a trabalhar em sua tese de doutorado na FCM, o professor Paulo Velho não estava preocupado exatamente com os gatos. Queria reproduzir em camundongos as lesões causadas pela Bartonella henselae vista em doentes com angiomatose bacilar. Ele introduziu a bactéria num camundongo, recuperando-a para repassá-la a outro camundongo, e assim por diante; no microscópio eletrônico, observou que a bactéria ia se transformando. “Seria impossível afirmar que se tratava da mesma Bartonella, caso eu não tivesse esta informação primária. Meu trabalho, que foi publicado, constata que a bactéria efetivamente se transforma e sugiro que, potencialmente, a virulência também muda, ou seja: uma determinada forma é mais virulenta que a outra”, afirma.

O médico apresenta, então, sua hipótese: “Se a bactéria possui tanta capacidade de mudar o seu exterior, mesmo que se fizesse a sorologia na rotina dos bancos de sangue, ela poderia apontar resultado falso negativo para o contato com a bactéria. É muito provável que não consigamos detectar todos os casos com os exames que temos disponíveis atualmente”, observa.

Teste padrão – Uma das primeiras providências para a pesquisa no Hemocentro, portanto, será a padronização da sorologia, minimizando as discrepâncias observadas nos estudos mencionados anteriormente. De acordo com o dermatologista do HC, a sorologia, apesar dos resultados inconstantes, é o método mais utilizado para o diagnóstico. “Não existe um padrão ouro (gold standard) para a detecção da Bartonella. A cultura seria o melhor critério, mas o crescimento da bactéria demora até 42 dias e exige um ambiente adequado, rico em gás carbônico. O PCR, técnica para detecção de genes, também funcionaria, mas ela é voltada para a pesquisa, não sendo utilizada de rotina”, enumera o pesquisador.

Segundo Paulo Velho, mesmo sob risco de que a sorologia padrão subestime o quadro real, é necessário mensurar quantos doadores de sangue apresentam resultado positivo para a Bartonella henselae. “A priori, o foco do nosso trabalho é despertar a atenção para este risco e confirmar se precisamos nos preocupar com a transmissão da bactéria via transfusão. Temos muita gente estudando a doença em laboratórios, mas não se promove a cooperação da pesquisa básica com a pesquisa clínica. Se demonstrarmos que o risco de infecção de pacientes imunodeficientes é mesmo importante, haverá necessidade de aprimorar ainda mais os meios atuais de diagnóstico”, adverte.

O professor da Unicamp, ao concluir a entrevista, faz uma observação importante: “Sempre é bom lembrar que não existe risco para quem doa seu sangue, e que foi através de pesquisas como esta que tornamos a transfusão sanguínea uma prática tão segura como a de hoje”, finaliza, tranqüilizando os doadores.

Bactéria causa outras doenças

A doença da arranhadura do gato (DGA), descrita em 1950, na França, é apenas a mais conhecida das doenças transmitidas pela Bartonella. A primeira doença do gênero foi descrita no último quarto do século 19, quando a população dos Andes peruanos era acometida pela febre de Oroya e a verruga peruana. Havia dúvida se eram duas doenças independentes ou fases distintas de uma mesma enfermidade. Daniel Carrión, sextoanista de medicina, resolveu inocular o material da verruga no próprio corpo para resolver a questão. Morreu 39 dias depois, aos 26 anos. A “doença de Carrión”, como passou a ser chamada, é causada por uma prima da Bartonella henselae, a Bartonella baciliformis.

O professor Paulo Eduardo Ferreira Velho, do Ambulatório de Dermatologia do HC, menciona ainda a “febre das trincheiras”, que surgiu durante as grandes guerras, transmitida pela Bartonella quintana e que se caracteriza por um quadro febril recorrente, que desaparece e retorna periodicamente, durante anos até. “As péssimas condições de higiene nas trincheiras fizeram do piolho um vetor importante da infecção, que pode provocar endocardite e septicemia. Na França, devido à infecção em indigentes, tem se falado na febre das trincheiras dos dias modernos”, afirma.


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