Alunos de Música vencem Concurso Carlos Gomes 2017

Maria Rúbia, Willian Donizetti e  Susana Boccato
Maria Rúbia, Willian Donizetti e  Susana Boccato



“É como se eu tivesse nascido, duas partes tivessem se separado e, quando encontrei a ópera, este encontro aconteceu... Eu não tinha uma vida ruim, longe disso, mas depois que descobri a ópera, parece que a minha vida é completa.” Melhor voz masculina do Concurso Carlos Gomes Estímulo para Jovens Cantores 2017 (realizado na semana passada), Willian Donizetti descreve assim seu encontro com a ópera, no primeiro ano de graduação em música na Unicamp. Hoje, no último ano, ele comemora o resultado do concurso com mais duas alunas do Instituto de Artes da Universidade, a mezzo-soprano Susana Boccato, melhor voz feminina, e a soprano Maria Rúbia, revelação na edição deste ano. Além de comemorar o aniversário de Antônio Carlos Gomes, o evento tem como objetivo estimular cantores líricos e, apesar de acontecer na terra de “Tonico”, atrai pessoas de todo o Brasil, de acordo com Susana.

Como se fosse uníssono, os três cantores declaram ter recebido de Angelo Fernandes, professor do Instituto de Artes da Unicamp, a primeira aula individual de canto lírico. Foi pelas mãos de Fernandes também que Donizetti conheceu a ópera. “No primeiro ano, ele me ofereceu o protagonista de As bodas de Fígaro e foi me falando sobre ópera.” Para ele, o Ópera Studio, coordenado por Fernandes, promove aprendizado profundo tanto na área de ópera quanto em outras disciplinas do curso de música.

Do ciclismo às óperas
Donizetti praticou ciclismo competitivo até os 18 anos de idade, quando descobriu a interpretação do coro Meninos Cantores de Campinas para a música Sanctus, baseada em Canon. “Liguei no Conservatório Carlos Gomes para saber onde se apresentavam e fui assistir a um concerto de natal.” Ao final da apresentação, recebeu convite do então regente Sérgio Akira para um teste. “Passei as férias todas imaginando como seria o teste”. Deve ter sido bom, pois apesar de ter tido pouco contato com a música na infância e no ensino municipal, em Sumaré (SP), a participação no Meca rendeu muitos solos, que o conduziram a Fernandes e à Unicamp.

Jubiabá
Susana Boccato veio passar as férias no Brasil, mas participou do Coro Contemporâneo, se inscreveu e ganhou o Concurso Carlos Gomes e se despediu domingo, no Teatro Municipal de São Paulo, onde compôs o corpo de solistas da obra Jubiabá, de Carlos Alberto Pinto Fonseca, ao lado do tenor Daniel Duarte e outros amigos da Unicamp. Depois da formatura e das óperas em comemoração aos 50 anos da Unicamp, em 2015, ela mudou-se rapidamente para Leipzig para o mestrado, mas as férias no Brasil seriam para descanso se não procurasse uma ou várias oportunidades de cantar com os amigos do canto lírico da Universidade. “Hoje, estou na Universidade de Leipzig, na Escola Superior de Música e Arte Dramática Felix Mendellshon Bartholdy. Gosto muito de estudar lá e quando volto para o Brasil, corro para o Angelo e vejo o que está acontecendo para que eu possa participar.”

Em 2007, impedida de tocar violino, sua primeira formação na Unicamp, Susana decidiu participar da disciplina de canto coral, coordenada pelo professor e maestro Carlos Fiorini. Ao ouvir sua voz, algumas pessoas a orientaram a procurar Fernandes e neste encontro, ela iniciou uma ou novas histórias, inclusive o reingresso no IA como aluna de canto lírico. “Ser aluna do professor Angelo é um privilégio muito grande porque ele é muito dedicado, pega a gente pela mão e vai ensinando desde o zero. Tenho muita gratidão porque minha primeira aula de canto na vida foi com ele; tudo que aprendi foi com ele. É um professor que cobra muito, mas na mesma medida que cobra, ele oferece aulas, condições para aprender, material, enfim, procura instigar nossa curiosidade musical, investe muito na nossa vida de cantor. Sempre que volto ao Brasil, vou direto tomar bênção e fazer uma aulinha pra ver se está tudo bem... Mesmo formada, me sinto totalmente parte da turma da Unicamp, do canto da Unicamp, vou levar a Unicamp para onde eu for.”

Surpresa

Aluna de regência prestes a se formar, Maria Rúbia buscou o canto para aprimorar a atuação com coralistas e olha no que deu: “Eu sou cantora? Agora eu sou uma cantora”, disse a si após o resultado do Concurso Carlos Gomes, em que interpretou Gennariella, da ópera Salvatore Rosa. “Até então, eu me qualificava como uma aluna de canto. Fiz inscrição para ver como seria. Tinha interpretado a Rainha da Noite, da Flauta Mágica, de Mozart, e não esperava ser premiada.” 

Maria Rúbia começou a fazer aulas com alunos de Angelo, entre eles Susana Boccato. “Fui me encantando, pedi ao Angelo que me desse aulas. Ele me acolheu, pegou pra criar, e estar aqui, fazendo parte do Ópera Studio, ser conduzida por ele é um presente”, relata.

Os primeiros contatos com o canto aconteceram aos 6 anos de idade, em Amparo, sua cidade natal, mas antes a música já era presente na vida dela por meio do teclado da avó, do violino do primo, do piano de uma prima. Quando começou a brincar ao teclado, a avó não teve dúvidas, pediu à mãe que a matriculasse em aulas de música. A convivência e o estímulo a levaram para o curso técnico de música em Amparo e, de maneira natural, escolheu o vestibular para regência na Unicamp. “Ter a possibilidade de se desenvolver musicalmente tendo a voz como instrumento é muito enriquecedor para o trabalho de regente. Para lidar com 40, 50 pessoas tenho de conhecer profundamente a minha. É importante para os alunos de regência o interesse pelo canto. Eles precisam ter domínio deste instrumento.”

Para Susana, a oportunidade de permuta entre os cursos ajuda o aluno a tomar decisões por outras áreas da música. Não é a primeira vez que alunos da Unicamp que ingressaram em outros cursos acabam premiados em concursos de canto ou convidados a compor o corpo de solistas de concertos e óperas.  “Se não fosse assim, não sei o que seria de muita gente. A Unicamp dá a possibilidade de prosseguir. Reingressar. Quando não pude mais tocar violino, pude reingressar em canto”, relembra.

Concurso
Para Donizetti, é indispensável a realização de atividades como o Concurso Carlos Gomes. “Este tipo de concurso ajuda a divulgar tanto a obra de Carlos Gomes quanto a música lírica, que sempre encontra dificuldades. Por ser um concurso na terra do Carlos Gomes, divulga várias árias pouco conhecidas.”

Susana comunga da mesma opinião. “Até porque um dos pré-requisitos é que em cada fase tenha pelo menos duas peças do Carlos Gomes. Para isso tem de estudar, olhar partitura, pesquisar sobre o personagem. Tem toda uma preparação antes de cantar. Esta preparação já vale muito a pena porque aprendemos muito”, complementa Susana, satisfeita com a personagem que lhe garantiu o prêmio, a Giovanna da ópera Maria Tudor. Ela enfatiza o comentário do maestro Victor Hugo Toro, no final do concurso: “São 16 cantores que têm de aprender 16 árias de Carlos Gomes. Ao longo dos anos, as pessoas descobrem e levam pra frente.”