Fotografia: Utopia / Distopia

Para Érico Elias, “torna-se urgente aprender a separar o joio do trigo, a triar, e, sobretudo, saber ler os sinais, os indícios trazidos pelas imagens”

Érico Elias

“Já se disse que 'o analfabeto do futuro não será quem não sabe escrever, e sim quem não sabe fotografar'. Mas um fotógrafo que não sabe ler suas próprias imagens não é pior que um analfabeto?”. Walter Benjamin (Pequena História da Fotografia, 1931).

As fotografias estão normalmente associadas à sua função de documento, dado o seu poder de fixar para sempre em uma imagem os traços de pessoas, objetos e paisagens que em um dado momento estiveram diante de uma objetiva e tiveram suas feições congeladas sobre uma superfície fotossensível. As fotografias são ecos de um passado que assombram o presente, sob o signo do que Roland Barthes nomeou de “isso foi”.

Mas, para além dessa dimensão, as fotografias se prestam ainda a muitas outras funções. Quando utilizadas pela medicina, por exemplo, permitem desenhar diagnósticos e realizar prognósticos. Quando utilizadas pela ciência, elas permitem registrar, decompor e recompor movimentos e dinâmicas de corpos, tirando daí consequências práticas no desenvolvimento de novos inventos. As fotografias também servem de instrumento de controle, estamos cercados de câmeras de vigilância, máquinas de cine-fotografar que monitoram remota e ininterruptamente espaços públicos e privados.

Quando utilizadas para captar e dar publicidade a questões fundamentais para o presente, as fotografias são capazes de projetar um futuro. Tais fotografias se revelam, então, não mais sob o signo do “isso foi” barthesiano, mas de um “O que será?”. Quando as fotografias adentram criticamente no debate público, elas permitem mobilizar em torno de projetos de emancipação, sua função utópica. Quando elas se limitam a reproduzir protocolos ou quando exibem o desenho de um futuro cruel, assumem uma função distópica.

O poder de presságio das fotografias é demonstrado por Chris Marker e Yannick Bellon no filme Lembranças de um Futuro (2002), realizado a partir do fascinante arquivo de imagens construído pela fotojornalista Denise Bellon ao longo dos anos do entre-guerras. Os realizadores captam nas imagens os indícios de um retorno ainda mais avassalador da barbárie, com a Segunda Guerra Mundial. Os homens da época estiveram cegos àqueles sinais e não puderam evitar a catástrofe.

As fotografias podem nos fazer pressentir um futuro por vezes sombrio, com na célebre foto de Robert Capa, do soldado republicano que cai após receber um tiro; outras vezes, positivo, como no assustador retrato da menina nua atingida pelo bombardeio de napalm, uma imagem aterradora, que por seu poder de choque contribuiu para que a Guerra do Vietnã chegasse a um fim.

3 de Maio de 1968, França. Estudantes ocupam universidades e levantam barricadas em levante contra reformas trabalhistas e educacionais propostas pelo general Charles de Gaulle. Gilles Caron retratou como poucos aqueles momentos de tensão, de sublevação, em que as mudanças mais radicais pareceram por alguns instantes possíveis. Jovem fotógrafo, ele logo deu mostras de seu talento para se enfronhar no olho do furacão. Dois anos depois, o ímpeto de fotojornalista acabaria tragado pela carnificina causada pelo regime do Khmer Rouge no Camboja, um perfeito inferno distópico.

28 de Março de 1968, Brasil. A morte do estudante Edson Luís no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, perpetrada por um policial militar, desencadeia uma onda de luto e de manifestações na cidade. Em 26 de junho, ocorre a inesquecível Passeata dos Cem Mil, na Cinelândia. O jovem fotógrafo Evandro Teixeira registra como nenhum outro o momento de comoção e os lances de repressão da polícia. Diversas manifestações subsequentes ocorreram naquele que ficou conhecido nas palavras de Zuenir Ventura como “o ano que nunca terminou”. Pressionado, o regime militar declara no dia 13 de dezembro o AI-5, dando início à sombria desesperança dos “anos de chumbo”.

Nas fotografias de Evandro Teixeira, utopia e distopia entram em choque, em uma intensidade talvez comparável àquela capturada pelas lentes de Josef Koudelka em agosto do mesmo ano, 1968, durante a invasão pelas tropas soviéticas que esmagaram a Primavera de Praga.

Em 1988, Paul Virilio lança o ensaio Máquina de Visão [1], no qual faz um diagnóstico sombrio, tendo como origem o surgimento da fotografia. Para Virilio, as máquinas de visão são próteses que permitem ver mais e melhor, mas que também afastam-nos da experiência sensível e afetam nossa poder de imaginação. Ele evoca as câmeras colocadas na ponta de mísseis durante a Guerra do Golfo, chamando-as de “subjetivas fantasmáticas”. Harun Farocki soube expressar como ninguém, através do cinema, essa crítica radical ao mundo dominado e controlado pelas “imagens operacionais”.

Há 50 anos, há 30 anos, o tempo também é cíclico, as utopias e as distopias retornam e sempre retornarão, pois o futuro é aberto e sempre estará em disputa. Ainda hoje as fotografias estão aí, cada vez mais presentes, até mesmo sufocantemente onipresentes. Torna-se urgente aprender a separar o joio do trigo, a triar, e, sobretudo, de saber ler os sinais, os indícios que as fotografias nos trazem cotidianamente.

Érico Elias é doutor em Artes Visuais pela Unicamp. Atualmente, diretor artístico e curador do festival Paraty em Foco. Autor do livro Fotofilmes Brasileiros (Sesc-SP e a Kinoforum, 2015). 
 



[1 ]VIRILIO, Paul. A máquina de visão. Rio de Janeiro: José Olympio. 1994.

 

Foto: Reprodução
Queda do estudante de Medicina na Cinelândia, Movimento Estudantil. Rio de Janeiro, 1968 | Foto: Evandro Teixeira

 

Evandro Teixeira
26 de junho de 1968, Passeata dos 100 mil no Rio | Foto: Evandro Teixeira

 

Evandro Teixeira
26 de junho de 1968, Passeata dos 100 mil no Rio | Foto: Evandro Teixeira

 

 Foto: Evandro Teixeira
21 de Junho de 1968, Rio de Janeiro, manifestação reprimida de forma violenta, conhecida como Sexta-Feira Sangrenta | Foto: Evandro Teixeira

 

 Evandro Teixeira
Missa de sétimo dia em homenagem a Edson Luís - 04 de abril de 1968 | Foto: Evandro Teixeira

 

Evandro Teixeira
Primeira página do Jornal do Brasil, em 29 de março de 1968, noticia a morte do estudante secundarista Edson Luís | Reprodução

 

Foto: Josef Koudelka, Magnum
Tanques soviéticos esmagam a Primavera de Praga | Foto: Josef Koudelka, Magnum

 

Foto: Gilles Caron
Manifestação na Rue Saint Jacques, em Paris, Maio de 1968 | Foto: Gilles Caron

 

Foto:  Robert Capa
Morte de um Miliciano - foto realizada em 5 de setembro de 1936 por Robert Capa nos campos de batalha da Guerra Civil Espanhola

 

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Tanques soviéticos esmagam a Primavera de Praga | Foto: Josef Koudelka Magnum

 

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Imagem de capa JU-online

21 de Junho de 1968, Rio de Janeiro, manifestação reprimida de forma violenta, conhecida como Sexta-Feira Sangrenta | Foto: Evandro Teixeira