Diária vida ordinária

Ele acordou às 5h da manhã, como de costume, com o canto do galo. Havia levantado cedo porque seu ônibus partiria em algumas horas e, como em toda cidade avantajada, tinha um longo percurso para chegar até a rodoviária, afastada da casa de seus pais. Na verdade não se sabe dizer se era o terminal rodoviário distante da moradia deles ou o contrário. Quando chegou à cozinha, seus pais tinham estampados nos olhos palavras irreconhecíveis. Para sempre se lembrará daqueles olhares. Pupilas dilatadas como se fosse noite e pálpebras inconstantes cuja função era cortar gotas. Ainda sem entender, sentou-se à mesa de madeira escura, esculpida à facão pela avó materna. A madeira trazia em seus relevos disformes a marca da memória daquela família; do trabalho; de suas alegrias; de suas dores. A emoção cheirava como o odor do café recém-passado no coador. Durante cinco intermináveis minutos eles se entreolharam, sem palavras, ouvindo exclusivamente os ruídos corporais uns dos outros.

Iniciaram o desjejum embebidos pela emoção inominável de um fato jamais mencionado. Ele estava ali, presente em carne, osso e pescoço, mas seu espírito tinha se descolado e retrocedido até a porta da cozinha com o quintal, donde fotografava as pessoas e seus pertences – tanto os carregáveis quanto os invisíveis. Era um contracampo. Era algo transformador. “As emoções, uma vez que são moções, movimentos, comoções, são também transformações daqueles e daquelas que se emocionam, [...], é por meio das emoções que podemos, eventualmente, transformar nosso mundo, desde que, é claro, elas mesmas se transformem em pensamentos e ações” (DIDI-HUBERMAN, Georges. Que emoção! Que emoção?. Trad. Cecilia Ciscato. São Paulo: Ed. 34, 2016 p.38). Assim como o entalhe grosseiro do facão concedeu à madeira uma transformação específica, as fotografias produzidas por Adriano Machado procuram propor, a nós e a ele mesmo, pensar e agir sobre a diária vida ordinária.

Levantou-se e seguiu em direção à área externa da casa. Ao passar pela porta incorporou seu próprio espírito e, no terceiro passo, avistou uma cobra. Ela era verde. Intensamente cromática. Diziam em sua família que sonhar com o verde era algo benéfico. Ele ainda não conseguia distinguir a emoção daquela refeição inaugural; não entendia se era ruína ou bênção. Tomou a câmera nas mãos e seguiu a cobra, agora sua guia. O que ele viu, ao longo dos anos por ele não vividos, foi a reconstrução transformadora das histórias de seus familiares. Para além da tentativa de recuperar suas memórias, batida como aquele chão de terra, suas fotografias agem sobre o passado convertendo-os – a ele mesmo e ao passado – em um documento de uma realidade mista, com o qual verdade e ilusão invadem a percepção por meio de um convite sutil, porém profundo, sobre a história da fundação e desenvolvimento desta genealogia. O prosaico cotidiano da experiência de vida nos invade pelo particular de sua linhagem e se amplia no universal agrupamento familiar comum a todos nós.

Cobra verde expõe as fraturas da família, exibe a crueza difícil das relações, a necessidade da fé, o lado árduo do trabalho doméstico e do comércio na feira livre, e a força da casa como sede dos fatos. A partir dos depoimentos das matriarcas, Adriano Machado [1] explora uma geografia do vigor feminino, no seio da Princesa do Sertão da Bahia, ao apresentar a possibilidade de extrair da dor o substrato para semear o júbilo. As reminiscências oralizadas, ora com facilidade e ora interrompidas pela dureza em enfrentá-las, são reconstituídas fotograficamente como peças de um quebra-cabeças incompleto. Antes que ele pudesse fotografar a cobra, ela desapareceu no matagal. As andanças no terreiro com aquela guia serviram para evidenciar a vida, para saudar a esperança e, acima de tudo, para amar mais profundamente.

Fábio Gatti é doutor em Artes pela Unicamp (2013). Atualmente realiza pós-doutorado (Capes) e é professor colaborador no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (Escola de Belas Artes - Universidade Federal da Bahia). Editor do livro A operação artística: filosofia, desenho, fotografia e processos de criação (Salvador: Edufba, 2017).


[1] - Natural de Feira de Santana, conhecida como Princesa do Sertão. Vive e trabalha entre Alagoinhas, Salvador e sua cidade natal. Nasceu em 1986. Mais trabalhos de Adriano disponíveis em http://cargocollective.com/adrianomachado.

 

Cobra verde, Dores, Amores e Resiliência, 2014. Fotografia Digital. 0,50x0,70cm | Adriano Machado

Adriano Machado
Fonte: http://cargocollective.com/adrianomachado/Cobra-Verde

Cobra verde, A lavadeira derrama sua fé, 2014. Fotografia Digital. 0,50x0,70cm. | Adriano Machado

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Fonte: http://cargocollective.com/adrianomachado/Cobra-Verde

Cobra verde, Fé e Mistério, 2014. Fotografia Digital. 0,50x0,70cm. Adriano Machado

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Fonte: http://cargocollective.com/adrianomachado/Cobra-Verde

Cobra verde, Fé e Mistério, 2014. 0,50x0,70cm. Adriano Machado

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Fonte: http://cargocollective.com/adrianomachado/Cobra-Verde

Cobra verde, Dores, Amores e Resiliência, 2014. 0,50x0,70cm. Adriano Machado

Adriano Machado
Fonte: http://cargocollective.com/adrianomachado/Cobra-Verde

Cobra verde, Dores, Amores e Resiliência, 2014. 0,50x0,70cm.. Adriano Machado

Adriano Machado
Fonte: http://cargocollective.com/adrianomachado/Cobra-Verde

 

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Fé e Mistério, 2014 | Adriano Machado