Edição nº 668

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Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 09 de setembro de 2016 a 18 de setembro de 2016 – ANO 2016 – Nº 668

Uma lógica para o próximo século


A lógica paraconsistente vai centralizar as discussões do congresso internacional Trends in Logic XVI, que depois de 15 edições acontece pela primeira vez no Brasil, na Unicamp, em homenagem aos 40 anos do Centro de Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) e no âmbito das comemorações dos 50 Anos da Universidade. O tema deste ano, “Consistência, contradição, paraconsistência e razão”, é também sobre o que trata o livro Paraconsistent Logic: Consistency, Contradiction and Negation, de autoria dos professores Walter Carnielli e Marcelo Coniglio, que acaba de ser lançado pela Editora Springer de Amsterdam. O congresso acontece de 12 a 15 de setembro, na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC).

Walter Carnielli explica que a lógica paraconsistente oferece uma base mais ampla e flexível para o raciocínio do que a lógica tradicional, chamada de clássica. “Ela permite que, em presença de contradições em um raciocínio, busquem-se as causas destas contradições ao invés de se cair no desespero que a lógica clássica nos obriga. Pensada desde 1910 por visionários de vários países e tendências, a partir de 1963 a lógica paraconsistente tornou-se um tema brasileiro, com base nas publicações do matemático e lógico curitibano Newton da Costa, que inclusive foi professor visitante na Unicamp e um dos fundadores do CLE.”

O Jornal da Unicamp publicou o perfil do professor Newton da Costa em 2003, quando ele explicou que a lógica paraconsistente trata de sistemas de informação onde pode haver contradições.  “Por exemplo: ao organizar um banco de dados de medicina, você entrevista muitos especialistas e reúne milhares de informações. Evidentemente, vão aparecer informações contraditórias, pois para um médico certo sintoma pode representar uma doença e, para um segundo médico, outra – e você tem que manipular isto. Se utilizar a lógica clássica, que não consegue tratar de informações contraditórias de modo cômodo, o sistema explode.”

Na época, o mentor da lógica paraconsistente comemorava 40 anos de publicação de um conceito absolutamente teórico, sem dúvida com aplicações na filosofia, mas que já estava disseminado por toda a área tecnológica, da computação e robótica à engenharia de produção, extrapolando para a medicina. Newton da Costa teve muitos seguidores que ajudaram a desenvolver a respeitada escola brasileira, quase todos na USP e Unicamp, como Andrea Loparic, Itala D’Ottaviano, Ayda Arruda, Antonio Mario Sette, Luiz Paulo de Alcântara, Walter Carnielli, Elias Alves, Andrés Raggio, Marcelo Coniglio e João Marcos, entre outros. “Eu, que comecei tudo isso, já não consigo acompanhar a literatura mundial”, dizia.

A partir de 2001, o grupo de Campinas, situado no CLE e liderado pelo professor Walter Carnielli, iniciou uma nova linha de pesquisa chamada de lógicas da inconsistência formal, que causou uma verdadeira revolução no paradigma paraconsistente e o levou a uma nova gama de aplicações mundo afora. Hoje o tema é estudado em diversos países, tais como Alemanha, Áustria, Argentina, Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Israel, Rússia, Índia, Austrália, Nova Zelândia, China e Japão, entre outros. As aplicações estão em áreas como computação teórica, engenharia, inteligência artificial, física quântica, linguística, matemática, novas teorias da probabilidade e filosofia da ciência. Há inclusive empresas de alta tecnologia da região de Campinas com interesse em lógica difusa paraconsistente e probabilidade paraconsistente para uso em sistemas mais leves e flexíveis para fabricação de filtros de SAW, aprendizado de máquina e processamento da informação.

O livro recém-lançado toca em diversas destas áreas, apresenta o estado da arte da lógica paraconsistente na sua forma mais atuante e, segundo Carnielli, já está sendo uma referência internacional. “A ideia de inconsistência formal nasceu aqui no CLE, com a proposta de tentar abarcar vários sistemas de lógica paraconsistente existentes no mundo (como em televisão ou telefonia, há diversos tipos de sistemas). Procuramos trabalhar com as noções de consistência e de inconsistência como elementos primitivos, ou seja, como algo que não se explica, como por exemplo, na geometria: a noção de ponto é indefinida (ou a priori, como chamamos), mas aceitando-o como é, conseguimos esclarecer as noções de reta, círculo, plano, distância, área, etc. Trata-se de uma noção primitiva que propõe que algumas coisas, e os juízos sobre elas, são coerentes (tecnicamente consistentes) por si próprias e outras menos. Aquelas que são menos, ou nada consistentes, podem suportar a força de um raciocínio contraditório sem “explodir”. As outras, não. Esta é a ideia de consistência e inconsistência formal, e de como a contradição opera com tais noções”.

O professor da Unicamp acrescenta que o livro faz parte da série “Lógica, Epistemologia e a Unidade da Ciência” e que não teria sido capaz de escrevê-lo sozinho, sem o apoio do coautor Marcelo Coniglio, atual diretor do CLE, e sem o aporte de diversos orientandos, entre eles João Marcos, agora professor na UFRN. “Procuramos trazer não apenas o material técnico, matemático, mas também material filosófico, mostrando aspectos bastante fundamentais. Por exemplo, como a teoria dos conjuntos poderia ser repensada a partir da ideia de inconsistência formal e, a partir daí, formular grande parte da matemática e depois de quase todas as ciências, inclusive as humanas – sai daí uma linha de trabalho para o próximo século.”

Em relação ao congresso internacional Trends in Logic XVI, Walter Carnielli informa que o evento é organizado pelo CLE e pela tradicional revista polonesa Studia Logica, com apoio da Fapesp e CNPq. Entre os convidados estão Jacek Malinowski, editor da Studia Logica; Daniele Mundici, lógico italiano e membro do CLE; Marco Panza, especialista em filosofia e história da ciência, professor em Paris e nos EUA; Dov Gabbay, do Imperial College de Londres; Marcelo Finger, professor do Instituto de Computação da USP; Wagner Sanz, do Departamento de Filosofia da UFG e Marco Ruffino, do Departamento de Filosofia da Unicamp, entre outros palestrantes que também passaram pelo CLE. Informações mais detalhadas estão na página do evento: https://www.cle.unicamp.br/trendsxvi/index.html