Edição nº 617

Jornal da Unicamp

Baixar versão em PDF Campinas, 27 de fevereiro de 2015 a 08 de março de 2015 – ANO 2015 – Nº 617

Tudo como antes

Estudo constata que as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pela realização das tarefas domésticas no país

A despeito de terem ampliado a sua participação no mercado de trabalho e de estarem em busca de novos projetos pessoais, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pela realização das tarefas domésticas no Brasil. A constatação é da pesquisa “Trabalho feminino e vida familiar: escolhas e constrangimentos na vida das mulheres no início do século XXI”, desenvolvida no Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo) da Unicamp, sob a coordenação da professora Maria Coleta de Oliveira e da pesquisadora Glaucia dos Santos Marcondes. A principal fonte do estudo são os dados fornecidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) para os anos de 2001 a 2012. Segundo os dados da Pnad, que é feita anualmente, 90% das mulheres entre 16 e 60 anos responderam que realizavam algum trabalho doméstico semanalmente, contra apenas 40% dos homens na mesma faixa etária.

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Mais que apontar que os cuidados com a casa e a família continuam sendo uma responsabilidade predominantemente feminina, a pesquisa mostra que as mulheres, principalmente as que desempenham alguma atividade produtiva, cumprem jornadas extremamente longas, pois somam as horas dedicadas às tarefas domésticas às executadas no trabalho fora da residência. Dependendo das características de trabalho – jornada e se o emprego é formalizado - e da posição das mulheres no domicílio – responsável, cônjuge ou filha -, ocorre uma grande diferenciação na média de tempo que elas e os homens dedicam aos afazeres da casa.

A média de tempo declarada pelos homens ao longo do período tomado para análise, conforme Glaucia, fica em torno de 9 horas semanais. “Isso independe de eles estarem ou não empregados. Os que estão desempregados trabalham um pouquinho a mais dentro de casa, coisa de duas horas por semana, embora a disponibilidade de tempo deles seja maior”, revela a pesquisadora. Um contexto totalmente diferente ocorre em relação às mulheres, segundo a especialista. As que estão no mercado de trabalho declararam dedicar uma média não inferior a 15 horas por semana às tarefas domésticas, a despeito cumprirem jornadas entre 20 e 44 horas semanais fora de casa.

No caso das mulheres trabalhadoras com filhos ou que são consideradas chefes e cônjuges do domicílio, o tempo médio dedicado aos afazeres domésticos aumenta significativamente, chegando ao patamar de 20 ou até de 25 horas por semana. “Um dado interessante é que as mulheres dedicam até 40 horas semanais às atividades domésticas quando estão desempregadas, tempo muito superior ao dos homens na mesma condição”. Glaucia lamenta que a PNAD desse período analisado não seja capaz de identificar quais tarefas são desempenhadas por homens e mulheres no âmbito doméstico-familiar. Entretanto, ela revela que alguns estudos qualitativos de uso do tempo indicam que os homens tendem a se ocupar mais com o cuidado dos filhos que com a limpeza da casa.

Nos últimos anos do período considerado pelo estudo, conforme a pesquisadora do Nepo, foi possível identificar uma ligeira queda no número médio de horas semanais dedicadas pelas mulheres ao trabalho doméstico. Um aspecto que pode ajudar a explicar essa redução é o maior acesso das famílias aos produtos da chamada “linha branca”, como lava-roupas e micro-ondas, equipamentos que facilitam o cumprimento de algumas tarefas. “Ainda assim, é possível afirmar que o maior nível de escolaridade das mulheres e a sua maior inserção e permanência no mercado de trabalho não têm aliviado a carga delas com as tarefas domésticas”, ratifica Glaucia.

Tal contexto decorre, entre outros motivos, dos valores relacionados ao cuidado, que no Brasil ainda estão centrados primordialmente na figura feminina, de acordo com a pesquisadora do Nepo. “Mesmo que não seja a mulher que faça o trabalho, o que se espera é que ela ao menos se responsabilize pela organização dele. Normalmente, é a mulher que contrata a babá e a empregada doméstica ou que escolhe a creche ou a escola dos filhos”.

Glaucia faz questão de assinalar, porém, que não é possível dizer que os homens não estejam dando a sua contribuição para os afazeres domésticos. “Os homens estão mais participativos. Ocorre que essa mudança de mentalidade é muito mais lenta do que gostaríamos que fosse. Se os relacionamentos sofreram uma importante mudança nos últimos anos, visto que as pessoas estão se pautando por relações menos autoritárias, o mesmo ainda não ocorreu com algumas práticas, que são mais difíceis de serem quebradas”, analisa.

Ainda a respeito do tema cuidado, a pesquisadora do Nepo chama a atenção para as transformações demográficas em curso no Brasil. De acordo com ela, a população está envelhecendo e a taxa de fecundidade está caindo. Em outros termos, isso significa que as pessoas estão tendo menos filhos para cuidar, mas que também terão menos filhos com os quais contar na fase da velhice. “Estamos no momento de pensar o que será a nossa sociedade em termos de cuidados nas próximas décadas. Quem vai cuidar de uma população envelhecida e com menos filhos? Se antes as famílias se articulavam para dar suporte uns aos outros, esse contexto tende a mudar numa situação de menos filhos e menos parentes”, pondera.

Diante dessa perspectiva, prossegue Glaucia, a sociedade tem que começar a delinear como será o futuro dos idosos. Uma alternativa é a definição de políticas públicas para dar o suporte que as famílias e os indivíduos precisarão em termos de cuidados. “Talvez tenhamos que pensar na oferta de instituições que possam acolher os idosos, oferecendo os cuidados que eles necessitam. Trata-se de um público que precisa tanto de serviços de saúde quanto de espaços de sociabilidade”, pontua a especialista.

Diferenças regionais

Retomando a questão da dedicação ao trabalho doméstico, a pesquisadora do Nepo destaca que os primeiros resultados do estudo revelam a situação de mulheres e homens em âmbito nacional. Entretanto, os dados fornecidos pela PNAD também permitem descortinar as diferenças regionais em relação ao tema. Esta parte do estudo ainda está em andamento. Todavia, alguns resultados preliminares de uma comparação entre as regiões metropolitanas de São Paulo e Salvador fornecem elementos para reflexão. De acordo com Glaucia, a primeira informação que chama a atenção é que a média de horas que as paulistas dedicam ao trabalho doméstico é superior à das baianas.

O dado surpreendeu as pesquisadoras, dado que o mercado de trabalho nas duas regiões apresenta diferenças expressivas. As mulheres paulistas, explica a especialista, têm mais acesso ao emprego formal, que normalmente exige o cumprimento de jornadas entre 40 e 44 horas semanais. Essas mesmas mulheres estão majoritariamente concentradas no setor de serviços, apresentam rendas domiciliares maiores e um número menor de filhos que as baianas. “Na Região Metropolitana de Salvador a taxa de desocupação das mulheres é mais elevada, com uma parcela maior cumprindo jornadas abaixo das 40 horas semanais. A partir desse quadro, e dos resultados observados para o conjunto do país, seria de se esperar que as baianas cumprissem mais horas de serviços domésticos que as paulistas, o que não foi confirmado pela pesquisa”, diz.

Um fator que poderia explicar esse resultado inesperado, observa a pesquisadora do Nepo, é a diferença do número de mulheres nos domicílios. Na Região Metropolitana de Salvador há mais mulheres adultas vivendo numa mesma casa que na de São Paulo. Assim, ocorre uma distribuição de tarefas entre elas, de modo que a média individual de horas dedicadas ao serviço doméstico caia. Um ponto que precisa ser mais bem investigado, de acordo com Glaucia, é se o aumento da idade dos filhos também concorre para a redução do número de horas que a mulher dedica aos cuidados da casa.

Atualmente, afirma a pesquisadora, os filhos pequenos já não representam uma barreira grande para a inserção e permanência da mulher no mercado de trabalho como fora para outras gerações. “No entanto, precisamos saber se as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentam diferença em relação às regiões Sul e Sudeste, visto que elas têm estruturas de mercado de trabalho bastante diversificadas”. O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em edital específico para as áreas de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas.

 

Publicação

Pesquisa: “Trabalho feminino e vida familiar: escolhas e constrangimentos na vida das mulheres no início do século XXI”

Coordenadoras: Maria Coleta de Oliveira e Glaucia dos Santos Marcondes

Unidade: Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” (Nepo)

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