Pequenos produtores do semiárido têm programa de assistência avaliado na Unicamp

Professores do IE medem o impacto do programa MAIS, que adotou estratégias adaptativas às mudanças climáticas no Semiárido do Brasil

Pesquisadores do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, em projeto que contou com a participação da  Universidade da Califórnia - San Diego, avaliaram o impacto de um programa de assistência técnica desenvolvido no Semiárido brasileiro, conhecido como Programa Mais. Neste programa, foram difundidos apoio e orientações sobre técnicas básicas a pequenos produtores agrícolas da região, como organizar e planejar atividades, armazenamento de água e alimentos, rotação e recuperação de pastagens, mecanização e manejo de animais, entre outros. O Mais - Módulo Agroclimático Inteligente e Sustentável - foi criado em 2014, com financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), para aumentar a produtividade e eficiência da pecuária leiteira (e também de corte) utilizando estratégias adaptativas à mudança climática.

Alexandre Gori Maia, professor associado do IE e pesquisador do Núcleo de Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente (NEA+), um dos autores de artigo publicado pela Climate and Development no final de abril, conta que uma das principais estratégias envolveu o cultivo da palma (cacto Opuntia-Ficus), usada para alimentar o rebanho. "Há palma nas fazendas, mas ela não resiste a secas prolongadas se não cultivada adequadamente. O projeto difundiu uma técnica de plantio adensado, para que a planta possa resistir durante dois ou três anos de seca", explica o docente.

Os autores avaliaram os retornos econômicos mensais de 43 produtores de leite assistidos pelo programa entre 2016 e 2018
Professores Alexandre Gori e Rodrigo Lanna, do Instituto de Economia: autores avaliaram os retornos econômicos mensais de 43 produtores de leite assistidos pelo programa entre 2016 e 2018

O programa foi desenvolvido entre 2016 e 2018, com base em pesquisa aplicada pelo Projeto Adapta Sertão na Bacia do Jacuípe, semiárido da Bahia. "A proposta inicial era desenvolver módulos de produção que gerassem uma renda de dois salários mínimos por mês ao produtor. O programa não financiou o produtor, mas ofereceu orientação técnica regular. Quatro técnicos visitavam mensalmente os produtores (25 propriedades cada um), supervisionados por agrônomos. Eram passadas orientações básicas, como de rotação de pastagem e atividades agrícolas mais adaptadas à região, além de orientações financeiras, tais como obter fontes de financiamento público ou privado para a produção", diz Gori. 

Rodrigo Lanna, também professor associado do IE e pesquisador do NEA+, afirma que o Mais implementou ações específicas na região para melhorar os resultados econômicos dos produtores. "Esta área do sertão da Bahia se caracteriza por um PIB que fica 75% abaixo da média brasileira, com uma população em condição socioeconômica bastante ruim e 80% dela apenas com ensino básico primário. O programa veio trazer treinamento e apontar tecnologias bem básicas para aumentar a produção de leite. "

Os autores avaliaram os retornos econômicos mensais de 43 produtores de leite assistidos pelo programa entre 2016 e 2018. "Nós conseguimos identificar algumas variáveis que comprovaram um aumento considerável na produção de leite na região. O auxílio para implementação de práticas de produção climáticas inteligentes, além do acesso a tecnologias básicas, aumentou a eficiência técnica dos produtores - a capacidade de produzir o máximo possível com os escassos recursos disponíveis."

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Produtores manejam a terra: Programa foi desenvolvido entre 2016 e 2018, com base em pesquisa aplicada pelo Projeto Adapta Sertão na Bacia do Jacuípe, semiárido da Bahia

O estudo também apontou o impacto do clima na eficiência técnica, com base nos dados de estações meteorológicas convencionais do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). De 1961 a 2018, a temperatura média mensal aumentou 0,4% por década, com precipitação média diminuindo 10 milímetros por década no período. "Os tradicionais tanques e açudes construídos na região não resistiam às secas prolongadas e rápida evaporação da água. A recomendação era construir cisternas com elevada capacidade de armazenamento de água, capaz de suprir a produção por pelo menos dois anos de seca", recorda Alexandre Gori.

Os autores mostram, enfim, como assistência e orientação técnica para implementação de práticas que levem à resiliência climática são fundamentais para elevar a produção agropecuária nestas áreas. Os resultados do estudo apontam, assim, para a importância do desenho e da execução de estratégias adaptativas para reduzir a vulnerabilidade dos agricultores familiares residentes em uma região caracterizada por eventos climáticos extremos e uma significativa pobreza.

Leia o artigo na íntegra

Além de Alexandre Gori e Rodrigo Lanna Franco da Silveira, assinam o artigo na Climate and Development:  Camila Veneo Campos Fonseca, professora auxiliar das Faculdades de Campinas (Facamp) e pesquisadora do Núcleo de Economia e Tecnologia Industrial (Neit) da Unicamp; Jennifer Burney, professora associada da Universidade da Califórnia, San Diego; e Daniele Cesano, engenheiro ambiental com mestrado e doutorado no Royal Institute of Technology em Estocolmo, Suécia. A pesquisa contou com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Imagem de capa JU-online

Professores do IE medem o impacto do programa MAIS, que adotou estratégias adaptativas às mudanças climáticas no Semiárido do Brasil