Muito mais do que música e dança

Livro mostra como clubes carnavalescos foram um espaço de afirmação de identidade para trabalhadores cariocas.

Publicado em uma parceria da Editora da Unicamp com a EdUerj, A cidade que dança – Clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933) é um livro que convida o leitor a conhecer as associações dançantes formadas por trabalhadores cariocas no final do século XIX e início do século XX. A obra busca evidenciar que os bailes foram mais do que apenas um lugar de diversão, eles eram um espaço de expressão dos trabalhadores e de consolidação de suas visões de mundo. O autor explora várias nuances desse assunto que recebeu pouca atenção dos estudiosos sobre/da Primeira República, analisando tópicos como o surgimento e a ascensão dos clubes, a formação étnica e social dos grêmios, a relação entre a imprensa e as diretorias, as disputas internas e com outras associações, a concessão de licenças para o funcionamento das sedes e a importância do fenômeno na formação da musicalidade brasileira.

Confira agora a entrevista feita com o historiador social Leonardo Pereira, autor de A cidade que dança.

Editora da Unicamp: A cidade que dança convida o leitor a adentrar os clubes e bailes dançantes formados no Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XIX e revela que essas associações foram mais do que lugares para homens e mulheres movimentarem seus corpos no ritmo de uma música. Qual era o sentido desses clubes na época?

Leonardo Pereira: A pesquisa que está na base deste livro partiu do meu incômodo com muitas das análises habituais sobre a Primeira República, que costumam defini-la como um período no qual inexistiria qualquer possibilidade de ação para os trabalhadores – em especial para aqueles egressos da experiência da escravidão, que supostamente não teriam condições de afirmar-se como sujeitos relevantes na nova ordem republicana. A partir dessa crença, mesmo historiadores atentos à experiência dos trabalhadores no período costumavam enfatizar apenas as formas de luta por direitos ligadas a ideologias políticas de matriz europeias. Como estas eram muitas vezes associadas aos trabalhadores imigrantes recém-chegados, as concepções e formas de articulação dos trabalhadores escravizados, cuja força foi bem demonstrada pela historiografia sobre a escravidão, acabaram esquecidas nas análises sobre os trabalhadores do período. Foi com essas questões na cabeça que cheguei aos clubes recreativos, em especial aos dançantes. Frente a uma República que tentava tolher as possibilidades de participação e afirmação de cidadania desses trabalhadores negros e pardos, foi em clubes do gênero que eles trataram de afirmar suas redes de solidariedade e diferença, constituindo canais próprios de expressão e participação. No mesmo movimento em que promoviam uma nova musicalidade com forte marca negra e cosmopolita, que ajudava a legitimar seu próprio lazer frente aos impulsos modernizadores de homens de letras e autoridades policiais, os sócios desses grêmios tratavam, assim, de fazer deles um espaço de expressão e valorização de suas próprias experiências frente a uma ordem republicana que tentava controlá-los. Foi como resultado desse processo que os primeiros anos da República marcaram o momento de maior proliferação desse tipo de associação, que se espalhou rapidamente por todos os bairros habitados por trabalhadores.

A cidade que dança – Clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933) : trata das associações dançantes formadas por trabalhadores cariocas no final do século XIX e início do século XX
A cidade que dança – Clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933) : trata das associações dançantes formadas por trabalhadores cariocas no final do século XIX e início do século XX

Editora da Unicamp: A cidade que dança é fruto de uma pesquisa iniciada em 2007, nos Estados Unidos. Como foi o processo de levantamento das fontes e de estabelecimento de um problema de pesquisa? Em que medida suas experiências internacionais influenciaram o desenvolvimento desse trabalho?

Leonardo Pereira: A pesquisa que deu origem ao livro teve como ponto de partida a documentação policial guardada pelo Arquivo Nacional. Em um momento no qual a polícia tentava controlar a atividade dos trabalhadores da cidade, todas as sociedades formadas na capital federal deveriam apresentar ao chefe de polícia seus estatutos e sua relação de sócios, que eram submetidos a uma pequena investigação por parte de delegados e comissários de polícia. Tais documentos apresentavam-se assim como um meio privilegiado de compreensão da lógica de funcionamento desses clubes – em especial daqueles organizados com finalidades carnavalescas e dançantes, que constituíam a maior parte dos grêmios recreativos formados no Rio de Janeiro ao longo daquele período. Foi a partir dessas fontes que iniciei a investigação, que posteriormente se abriu para vários outros tipos de fonte. Àquela altura, no entanto, o apego à dança estava longe de ser uma característica singular dos trabalhadores cariocas – como pude perceber em um período como pesquisador visitante do Latin American and Caribbean Studies Program da Northwestern University, em Chicago. O contato com a produção historiográfica de outros países propiciado por essa experiência deixava claro que a proliferação de ritmos sincopados, como o tango, o fox-trot e o maxixe, alimentava, em diferentes cidades do mundo atlântico, a organização de bailes e clubes do gênero. Para compreender o que acontecia no Rio de Janeiro era fundamental, por isso, pensar esse processo em perspectiva mais ampla, buscando as conexões entre os bailes dos trabalhadores negros da cidade e outras formas de expressão daquela musicalidade atlântica. Foi o que tentei fazer no livro: mesmo focado no caso carioca, tentei compreendê-lo a partir dos fluxos culturais mais amplos que alimentavam o associativismo dançante na cidade. Tal procedimento deixou claro que era nessas redes transnacionais que se apoiavam os membros desses pequenos clubes para construir sua legitimidade, que foi, em grande medida, resultante do caráter moderno e cosmopolita que afirmavam para seus grêmios.

Editora da Unicamp: Vimos, em seu livro, que o fenômeno das associações carnavalescas foi descrito pela imprensa carioca como uma “febre dançante”. O que há por trás do uso dessa metáfora?

Leonardo Pereira: A imagem da febre para caracterizar a proliferação de clubes dançantes no Rio de Janeiro da Primeira República não era casual. No mesmo momento em que esses clubes espalhavam-se por todos os bairros habitados por trabalhadores, as autoridades republicanas promoviam um esforço de intervenção urbana sobre a capital federal que, dentre outros objetivos, visava combater epidemias como as de varíola e febre amarela, que prejudicavam a imagem de modernidade que se tentava afirmar para a cidade. Nesse contexto, conceitos e ideias originariamente ligadas ao pensamento médico passaram a ser utilizadas para pensar diferentes dimensões da vida social, na afirmação de uma ilusão da objetividade por parte do poder público já bem analisada por autores como Sidney Chalhoub. Ao definir a devoção dos trabalhadores cariocas como uma febre, muitos homens de letras tratavam, assim, de apontar não somente para a força do fenômeno, que se espalhava rapidamente como uma epidemia, mas também para seu perigo – dada a força com a qual o entusiasmo pelo associativismo dançante se espalhava entre sujeitos habitualmente definidos no período como as “classes perigosas”.

Editora da Unicamp: O livro também mostra a conquista de espaço das mulheres trabalhadoras dentro dos pequenos grêmios cariocas. Essa conquista foi afetada pelo duplo papel que a imprensa tinha na validação social desses grêmios, pois, ao mesmo tempo que auxiliava no reconhecimento desses grupos, também reproduzia preconceitos. Você pode contar mais sobre a relação entre os pequenos grêmios, a imprensa e o lugar social das mulheres pobres na época?

Leonardo Pereira: Esta foi uma das descobertas mais surpreendentes da pesquisa. No início da investigação, era clara a preponderância masculina nesses grêmios. Suas diretorias costumavam ser exclusivamente masculinas, e mesmo as relações de sócios em geral traziam apenas o nome dos homens, sendo as mulheres admitidas no clube pelas relações familiares com estes. À medida que a investigação avançou, no entanto, ficou claro que esses clubes não eram apenas um espaço de afirmação dos pontos de união entre seus sócios: eles também eram espaço de disputa sobre suas diferenças, inclusive as de gênero. Conforme o século XX avançava, as notas publicadas sobre esses clubes nos jornais passaram a registrar com frequência crescente não apenas o papel central desempenhado pelas mulheres na organização dos bailes e festas, mas também a organização de núcleos femininos formais que tratavam de afirmar sua força em cada sociedade. Em alguns casos, isso resultava na criação de grêmios femininos em diferentes sociedades, que passavam a promover suas próprias atividades. Em outros, a aspiração por participação feminina resultava na definição de duas diretorias paralelas, uma de homens e outra de mulheres, enquanto algumas chegavam a se afirmar como sociedades inteiramente dirigidas por diretorias femininas. Embora se trate aparentemente de mera formalidade, tais mudanças de padrão eram o resultado de um crescente processo de afirmação feminina nesses grêmios, fruto das disputas internas entre seus sócios.

Editora da Unicamp: As sociedades dançantes foram espaços de afirmação das culturas da população afrodescendente. Há relações entre esses ambientes e a prática de religiões como a Umbanda e o Candomblé?

Leonardo Pereira: Ainda que fossem organizados para a promoção de bailes e desfiles, esses pequenos clubes recreativos não deixavam de incorporar a suas atividades muitos outros elementos que faziam parte da experiência dos homens e mulheres negros da cidade. Dentre eles estava a religiosidade de matriz africana, que se fazia presente em muitas dessas sociedades em graus variados. Em alguns casos, os bailes por eles promovidos se faziam acompanhar por celebrações de cunho religioso que ocupavam a parte de trás de suas sedes, como acontecia no Rosa Branca – que tinha dentre seus diretores algumas importantes lideranças da religiosidade negra, como Miguel Pequeno e Tia Ciata. Outras vezes, no entanto, a própria organização do clube se constituía em expressão das redes de solidariedade forjadas em torno de religiões afro-brasileiras. Era o caso do Liga Africana: além de ser presidido por João Alabá, uma importante liderança religiosa da comunidade negra carioca do período, o clube tinha sua sede na mesma casa em que ele promovia seus cultos, e tinha como sócios os mesmos sujeitos que costumavam frequentá-la. Casos como esses deixavam claro que a religiosidade foi fator fundamental no estabelecimento das redes de solidariedade que ajudavam a dar forma ao associativismo dançante da época.

Editora da Unicamp: Um dos capítulos foca na mobilização das diretorias dos clubes para garantir a liberdade de manifestação das práticas recreativas e culturais, em especial por parte da população afrodescendente. Pode-se dizer que ainda hoje perduram a perseguição e a repressão a manifestações culturais periféricas, por exemplo, os bailes funk?

Leonardo Pereira: O paralelo entre os bailes promovidos por esses clubes negros no começo do século e os atuais bailes funk é muito apropriado. Apesar das óbvias diferenças que separam os dois tipos de festa e os momentos de sua disseminação, elas são frequentemente alvos de um mesmo tipo de preconceito, em grande parte decorrente do perfil social e étnico de seus frequentadores. Como acontece atualmente com o funk, os bailes negros do começo do século XX eram criticados por parte da imprensa pela suposta ausência de valor artístico de sua musicalidade sincopada, preconceituosamente associada por muitos críticos do período aos pulos de macacos. Ao mesmo tempo, eles eram associados por muitos jornalistas e pela própria polícia à violência e à promiscuidade, ainda que, na prática, os bailes organizados por esses pequenos clubes fossem muito mais moralizados do que as festas promovidas pelos grêmios carnavalescos de elite. Foi enfrentando esse tipo de objeção que os sócios e frequentadores desses clubes negros conseguiram afirmar sua legitimidade, dando forma a uma musicalidade que, a partir da década de 1930, seria associada à própria nacionalidade. É significativo, por isso, que hoje em dia muitos dos que se dizem admiradores do samba usem esse mesmo tipo de argumento para deslegitimar os bailes funk, nos quais a juventude negra da cidade continua a se divertir.

Serviço

A cidade que dança: clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881-1933)

Autor: Leonardo Affonso de Miranda Pereira

Editora da Unicamp

ISBN: 9786586253515

Ano da Publicação: 2020

Edição: 1

Formato: 23,00 x 16,00 x 2,00 cm.

Nº Páginas: 360 pp

Peso: 300 g.

Imagem de capa JU-online

A obra busca evidenciar que os bailes foram mais do que apenas um lugar de diversão, eles eram um espaço de expressão dos trabalhadores e de consolidação de suas visões de mundo