Lançamento narra a descoberta de uma nova ave em serra mineira

Livro descreve como uma espécie de pássaro catalogada em 2012 colabora para a Teoria dos Refúgios

A Editora da Unicamp lançou em janeiro de 2021 o livro Um sabiá sujo: A aventura científica sobre a descoberta de uma ave e de um continente, escrito por Marcos Rodrigues. A obra faz parte da coleção “Meio de Cultura”, que reúne títulos de divulgação científica, voltados para um público mais amplo.

Escrito como um livro de ficção, Um sabiá sujo narra a descoberta de um pássaro chamado pedreiro-do-espinhaço. Fotografada pela primeira vez no ano de 2007 na Serra do Cipó, em Minas Gerais, a ave intrigou biólogos por fazer parte de um grupo natural da cordilheira dos Andes. Estudos feitos na tentativa de explicar a presença do pássaro em terras brasileiras duraram vários anos e só foram possíveis com a colaboração de muitos especialistas. Todo o processo de pesquisa e catalogação do pedreiro-do-espinhaço está presente no livro, que tem por objetivo contar ao grande público essa longa jornada e mostrar qual a importância dessa descoberta.

Nós convidamos o autor, doutor em Zoologia, para falar sobre o livro e a história que ele conta.

Editora da Unicamp: Sua paixão pelas aves é evidente: são três livros dedicados a esses belos animais, além de anos de pesquisa e diversos artigos. Quando teve início essa admiração?

Marcos Rodrigues: Na verdade, começou na graduação do curso de Biologia, na Unicamp, em um estágio voluntário que eu fiz com o professor Wesley Rodrigues, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia. O professor Wesley detém enorme conhecimento sobre as aves, e sua capacidade de distinguir os cantos de cada espécie é notável. Ele tinha um grupo de estagiários que saía pelo campus pelo menos uma vez por semana, de madrugada, catalogando as aves. Naturalmente, era uma experiência fantástica andar por todos os cantos do campus, completamente desabitado àquela hora, em pleno lusco-fusco. Outra pessoa que me influenciou muito foi o José Perez Pombal Jr., que hoje é o curador da coleção de Anfíbios do Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas na época era técnico do Departamento de Zoologia.

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Livro narra a descoberta de um pássaro chamado pedreiro-do-espinhaço, fotografado pela primeira vez no ano de 2007 na Serra do Cipó, em Minas Gerais

Editora da Unicamp: Um sabiá sujo conta sobre a descoberta do pedreiro-do-espinhaço como uma aventura pela História e pela Biologia. Como foi escrever esse livro?

Marcos Rodrigues: O livro é uma síntese de quase dez anos de trabalho. Levei muito tempo escrevendo e mais tempo ainda revisando. Confesso que fui inspirado pelos livros do jornalista norte-americano David Quammen, principalmente O canto do dodô. Logo que publicamos o artigo científico com a descrição da nova espécie de ave, em uma das mais respeitadas revistas do ramo, fui questionado por um jornalista sobre “qual a importância” dela. Na época eu estava muito envolvido com a academia, sem tempo para pensar em muita coisa. Achava que era de conhecimento geral do público a importância das espécies, mas estava enganado, pois aos poucos percebia que, para os não biólogos, era difícil compreender a importância de uma espécie. Eu me propus a responder essa questão a um público maior. Para isso, tive que sair do palavreado acadêmico e comecei a ler muitos livros de divulgação científica. À medida que escrevia, percebia que se tratava mesmo de uma aventura, e comecei a ler também sobre a vida de cada um dos pesquisadores que tiveram participação na descrição das espécies aparentadas ao pedreiro-do-espinhaço. Os personagens James Cook, Humboldt, Wallace, Darwin, o barão de Rothschild e tantos outros que aparecem no livro, foram surgindo nas situações mais arrojadas possíveis, exatamente nos locais mais inóspitos da América do Sul. E todas essas histórias são ligadas, como numa teia. Foi divertido escrever dessa maneira mais solta. Eu mesmo embarquei em uma viagem com cada um deles e suas histórias fascinantes. Senti-me até um pouco órfão depois que fechei a última página.

Editora da Unicamp: O livro faz parte da Coleção Meio de Cultura, que é voltada para a divulgação científica. Logo, o tom da obra é informativo, mas sem soar complicado. Como foi para o cientista encontrar esse tom narrativo e menos formal?

Marcos Rodrigues: Como disse anteriormente, li muitos livros de divulgação científica. Escrever sem os jargões científicos forçou-me a pesquisar ainda mais sobre os conceitos científicos que aprendemos na academia. Não é uma atividade fácil, mas nada que não possa ser aprendido. A divulgação científica é um ramo muito forte nas literaturas norte-americana e britânica. São dezenas de grandes autores, muitos deles jornalistas, mas muitos também são cientistas. Lá há uma forte tradição de o cientista escrever para o público. Na Universidade de Oxford, onde fiz o doutorado, é quase uma obrigação moral que o cientista escreva também para o público. Na verdade, aqueles que se destacam nessa área acabam tendo muito prestígio, viram “estrelas”. Há vários casos dos quais não preciso dar nomes.

Editora da Unicamp: No livro, você apresenta para os leitores alguns cientistas ilustres e outros menos conhecidos, contextualizando a relevância deles para a descoberta da ave em questão. Como foi conectar nomes tão distantes no tempo, como Alexander von Humboldt e o casal Grant, por exemplo?

Marcos Rodrigues: Não foi difícil porque eles estão conectados, inexoravelmente. Na realidade, toda a ciência está conectada. O livro de cabeceira de Darwin durante sua viagem pelo mundo era o de Humboldt. O de Wallace era o de Darwin. O casal Grant foi trabalhar em Galápagos com Darwin na cabeça. As mesmas ligações você vai encontrar se destrinchar a teoria dos refúgios glaciais, peça central do meu livro. Ernst Mayr, Jurgen Haffer e Helmut Sick eram ex-pupilos de Erwin Stresemann, que também tinha estreita colaboração com Ernst Hartert e o barão de Rothschild, colega de Philip Sclater, que recebeu a carta do brasileiro Alípio de Miranda Ribeiro. Tudo está conectado.

Editora da Unicamp: Algumas partes do livro são dedicadas a mostrar como é o trabalho do biólogo em campo. Você poderia falar um pouco dessa experiência? O que ela oferece que o atrai como cientista?

Marcos Rodrigues: Escrevi um parágrafo sobre isso no capítulo 37 no qual descrevo a expedição ao pico da serra do Breu, próximo ao vilarejo da Lapinha da Serra. Vou citá-lo aqui: “Um dos privilégios de ser biólogo é ter a oportunidade do contato direto com a vida na natureza”. Acho que nós, não só biólogos de campo, mas qualquer pessoa com ímpeto outdoor, observadores de aves, naturalistas amadores, montanhistas, surfistas, gostamos de sentir frio ou calor, ou descobrir para que lado o vento sopra, subir montanhas para ver melhor o que tem lá embaixo... ou simplesmente fuçar nas pétalas de uma flor para ver como ela é formada ou o que tem ali dentro. A curiosidade nos move, e ela é o motor da ciência.

Editora da Unicamp: Charles Darwin é um nome incontornável, especialmente quando se fala no estudo das aves da América do Sul. O naturalista permeia a narrativa do livro, como uma presença ou um espírito amigo que guia a história. Como foi estar na Terra do Fogo, um dos locais que Darwin visitou em 1834?

Marcos Rodrigues: Acho que a literatura de divulgação científica deve ter entretenimento, além da informação científica precisa. Foi uma coincidência que Darwin escreveu detalhes importantíssimos sobre o pedreiro-da-patagônia, uma das espécies do mesmo gênero que o pedreiro-do-espinhaço. Eu teria que fazer esse link, descrever o local que foi passagem dos navegadores mais importantes já conhecidos: Fernão de Magalhães, James Cook e tantos outros. Se eu fosse falar sobre a teoria da gravidade e Galileu, não poderia deixar a cidade de Pisa apenas como paisagem; ela deveria ser um personagem, como é a Terra do Fogo e todas as outras localidades que aparecem em meu livro. Para isso, o escritor pode lançar mão das maravilhas da ficção. Tentei escrever o livro nesse formato e meu objetivo era entreter o leitor e provocar a curiosidade que está dentro de cada um de nós.

Editora da Unicamp: Ao longo do livro, fica evidente o quanto uma descoberta científica, em todo o seu processo, é um trabalho coletivo. Você poderia falar um pouco sobre a importância da colaboração, especialmente na sua área?

Marcos Rodrigues: Hoje em dia, na Biologia, somente trabalhos muito teóricos podem ser feitos por um único autor. Os trabalhos teóricos, sabemos, são os mais importantes e geralmente elaborados por pessoas com uma sensibilidade especial. Mas a grande maioria trabalha com a aplicação da teoria. Hoje em dia, é impossível desenvolver um trabalho consistente em Biologia sem a ajuda de colegas e parcerias de especialistas. As pesquisas de Biologia, mais especificamente de Biogeografia, exigem coleta de dados em campo, preparação de material em coleções, análises estatísticas, modelagens matemáticas, análises laboratoriais a nível molecular, entre outras coisas. Uma só pessoa não consegue fazer tudo isso. Cada uma dessas atividades é um campo imenso de informação e técnicas. Por isso, as parcerias e colaborações são essenciais. Espero ter mostrado um pouco disso no livro.

Serviço: 

Título: Um sabiá sujo: A aventura científica sobre a descoberta de uma ave e de um continente

Autor: Marcos Rodrigues

ISBN: 9786586253566

Edição: 1

Ano: 2021

Páginas: 368 p.

Dimensões: 21,00 x 14,00 x 2,00 cm.

Imagem de capa JU-online

passarinho pedreiro-do-espinhaço que foi fotografado na Serra do Cipó