O olhar plural de Joaquim Paiva

A coleção do fotógrafo e diplomata Joaquim Paiva é tema de artigo de Andreas Valentin 

Domingo, final de uma tarde no início do inverno carioca. A luz dourada ilumina o Pão de Açúcar, enquadrado pela janela do apartamento de Joaquim Paiva. Pensativo, contempla a paisagem da cidade onde reside desde pequeno e por ele escolhida para abrigar sua coleção de fotografias. Desde 2005, vem entregando em comodato ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro peças de seu acervo. Hoje, lá estão abrigadas 1.961 imagens em suportes diversos, realizadas por 193 fotógrafos e fotógrafas do Brasil e por 123 artistas de todos os continentes do planeta. Até o final de 2019 outras 1.300 terão o mesmo nobre destino.

Foto: Andreas Valentin
Da janela de seu apartamento, Joaquim Paiva contempla a paisagem do Rio de Janeiro

A Coleção Joaquim Paiva é hoje uma das mais completas do Brasil. Conhecida aqui e no exterior, ela se destaca por sua grande representatividade e por sua diversidade autoral e temática. Reflete, assim, o olhar do colecionador e, principalmente, aquele do fotógrafo, artista e diplomata. Joaquim começou a fotografar em 1970 quando se mudou para Brasília para iniciar sua carreira no Itamaraty. Nessa época, a capital federal era uma cidade ainda por se fazer. Seus contrastes, suas cores e formas, como aquelas da cidade-satélite do Núcleo Bandeirantes, cativaram o jovem fotógrafo que ali treinava seu olhar para o apuro dos trabalhos futuros.

Em 1978, servindo como diplomata em Caracas, adquiriu as primeiras fotografias de sua coleção – duas de Diane Arbus. Desde então, não parou mais de colecionar e, claro, de fotografar. Serviu ainda em Ottawa, Lisboa, Buenos Aires, Lima, Madrid e San Francisco. E, como fotógrafo e colecionador, percorreu também as Américas e a Europa, participando de festivais, feiras e exposições. Por onde passou, aliou seus próprios registros àqueles realizados pelas lentes dos fotógrafos e das fotógrafas hoje abrigadas em seu acervo. Desde o início priorizou a produção brasileira contemporânea, procurando nomes que despontavam nos anos 1970, 1980, 1990 e 2000. 61% dos artistas presentes em sua coleção são brasileiros.

“Para o colecionador o mundo está presente em cada um de seus objetos e, ademais, de modo organizado. Organizado, porém, segundo um arranjo surpreendente, incompreensível para uma mente profana”, escreveu Walter Benjamin em seu texto “O Colecionador”. Joaquim mantém seu acervo conforme uma lógica própria e, assim, autoral. As mais de mil e quinhentas obras que ainda permanecem com ele ocupam vários aposentos de seu amplo apartamento. Há fotografias em grandes formatos nas paredes da sala, no corredor e no escritório. Outras tantas já estão embrulhadas aguardando o envio para o MAM. Na reserva técnica, caixas de papelão museológico e mapotecas abrigam fotografias impressas, tanto originais em gelatina de prata como aquelas realizadas a partir de arquivos digitais e reproduzidas por jato de tinta. Na mesma sala, uma estante guarda sua produção autoral, cerca de 25.000 a 30.000 negativos em cores e em preto e branco. Nas paredes, “clássicos”, como a icônica imagem de Che Guevara, de Alberto Korda, assinada e dedicada a Paiva, e duas vistas do Parque Nacional de Yosemite, California, de Ansel Adams.

Ao entrar na sua casa, chama a atenção também a grande quantidade de cadernos abertos por cima das mesas e sofás. Há 21 anos, Joaquim vem registrando seu cotidiano em palavras e fotografias. Já preencheu alguns milhares de páginas em 153 cadernos. Em 2017 fez uma seleção que publicou em um livro de artista de grande formato (59 x 52 cm, 72 páginas), intitulado “128 diários”. Produzidos de forma artesanal, já conseguiu imprimir cinco de uma tiragem prevista para 18 exemplares. Os dois primeiros estão na Biblioteca Nacional e na biblioteca da Universidade de Stanford, EUA. Os diários mostram o cotidiano, sua visão de mundo, tratam de sua vida e do destino de sua grande paixão – a fotografia. São diários autobiográficos e particularmente visuais, cada vez mais com fotografias do trabalho pessoal do artista. “Com os diários, estou sintonizado com meu tempo de vida”, diz ele. “Obsessão?”, pergunto. “Sem dúvida! Artistas e colecionadores são obsessivos. É uma coisa meio patológica. Há muito tempo venho dizendo que vou parar de colecionar, mas ainda não consegui!”

Foto: Andreas Valentin 
Cadernos de Joaquim Paiva sobre a mesa e o sofá. Ao fundo, uma de suas séries de Brasília

Desde 2017 vem incluindo um novo suporte para a fotografia em seu acervo: fotolivros de autores brasileiros e estrangeiros. Como as imagens – individuais ou seriadas – guardadas em seus suportes impressos, fotolivros também reforçam a materialidade própria do objeto fotográfico. Ademais, constroem narrativas e, portanto, sentidos. Paiva acrescenta que, “a imagem passa a ser a verdade, ela passa em grande parte a substituir a palavra; o fotolivro dá ao artista uma liberdade de criação ainda maior”. Livros de e sobre fotografia também fazem parte de seu acervo. Aliás, foi pioneiro nesse campo. Em 1981 traduziu a obra de Susan Sontag, On Photography, para o português que, nessa primeira edição teve o título “Ensaios sobre Fotografia”. Sua grande biblioteca de livros de fotografia e fotolivros terá também o MAM como destino.

Não pretende tampouco parar de fotografar, de escrever e continuar a mostrar sua produção fotográfica. Em 2019 exibiu no Ateliê da Imagem, Rio de Janeiro, uma seleção de fotografias que realizou nas décadas de 2000 e 2010 em quartos de hotel onde se hospedara. Esses lugares, “colecionados” em suas inúmeras viagens, expõem uma familiaridade – camas desfeitas, comida do serviço de quarto, mesas de cabeceira, cortinas e vistas das janelas – enquanto mostram também uma intrusão quase que voyeurística na privacidade e na intimidade da pessoa naquele lar passageiro. Mais do que mera documentação desses espaços, as imagens revelam sensações e provocam devaneios. Como a coleção do artista-fotógrafo, que revela não somente seus gostos e as tendências do nosso tempo, mas também – e principalmente - constrói sentidos e memórias.

Foto: Andreas Valentin 
Joaquim Paiva, cercado por fotografias

 

Andreas Valentin é professor de fotografia e artes (UERJ), pesquisador e fotógrafo. Doutor em História Social (UFRJ), com pós-doutorado na Freie Universität, Berlim. Em 2015 foi vencedor do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da Funarte. www.andreasvalentin.com

 

 

Imagem de capa JU-online

Em sua reserva técnica, Joaquim Paiva mostra um trabalho de José Guerrero; ao fundo, Che Guevara, de Alberto Korda