Marcados para morrer?

Exposição no Instituto Moreira Salles de São Paulo é ocasião para entrar em contato com a obra de Claudia Andujar e com a cultura e a luta dos Yanomami

Veio na hora certa, no grave momento histórico em que as demarcações de terras indígenas voltam a ser colocadas em questão e o sinal verde parece ter acendido novamente para a ação violenta de garimpeiros, madeireiros e grileiros. A exposição “Claudia Andujar: a luta Yanomami”, em cartaz no Instituto Moreira Salles em São Paulo, condensa a trajetória da fotógrafa em sua batalha pela causa indígena.

Claudia Andujar tem uma história marcada pelo exílio. Nascida na Suíça em 1931, cresceu na cidade de Oradea, na Romênia. De origem judia, perdeu grande parte de sua família nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, incluso seu pai. Conseguiu escapar em companhia da mãe para a Suíça, em 1944. Dali foi para Nova York, onde morou com um tio. Em 1955, aportava no Brasil, para onde veio se reencontrar com a mãe.

A dificuldade para se expressar em português a levou à fotografia, na qual encontrou uma ferramenta privilegiada de expressão pessoal e de aproximação com a cultura brasileira. A carreira bem sucedida como freelancer levou a fotógrafa a compor o talentoso time de profissionais que criaram a revista Realidade, em 1966. Foi durante uma das muitas viagens realizadas pelo Brasil que Andujar entrou pela primeira vez em contato com os índios Yanomami, em 1971. O encontro a transformou.

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No mesmo ano, a fotógrafa obteve bolsa da Fundação John Simon Guggenheim e foi, segundo uma expressão que gosta de usar, se enfronhar na vida dos índios. De 1971 a 1977 foram muitas idas e vindas e longos períodos de permanência na floresta, na região da bacia do rio Catrimani, em Roraima. Esse é o principal período coberto pela exposição.

A curadoria, realizada por Thyago Nogueira, nos permite uma espécie de mergulho antropológico em sua primeira parte. Descobrimos por meio do olhar e das imagens da fotógrafa como é vida dos índios na floresta. Iniciamos por suas feições e seus corpos e pelos aspectos materiais de sua vida na maloca. Logo evoluímos para os rituais de xamanismo, que estão no cerne da espiritualidade Yanomami e da produção realizada por Claudia Andujar.

As fotografias são reunidas em grupos de três ou mais imagens, compondo conjuntos agenciados entre si ao longo do espaço da galeria. Os conjuntos misturam imagens p&b e coloridas. Ora combinam imagens distintas entre si e por vezes combinam variações de uma mesma cena. Os conjuntos de imagens são acompanhados de textos que contextualizam os temas e rituais fotografados, a extensão e a localização do território Yanomami.


Técnicas do êxtase

Claudia Andujar experimentou com uma série de técnicas para dar conta dos fenômenos e expressões do êxtase vividos ao longo dos rituais, em que os xamãs, por meio de substâncias alucinógenas, estabelecem contato com os espíritos de seus antepassados. Ela tirou proveito da dramática luz filtrada pelas folhagens e pelas tramas do telhado da maloca, lançou mão de flashes e outras luzes artificiais, utilizou vaselina nos cantos do filtro da lente, realizou múltiplas exposições, baixas velocidades de obturação, sobreposições, refotografou imagens p&b iluminadas por luzes coloridas, utilizou filme infravermelho. Todos esses recursos acabam por acentuar a sensação de êxtase, um movimento que extrapola todos os limites físicos da existência rumo a um dom mediúnico.

A segunda parte da exposição, montada no andar abaixo da primeira, desdobra a dimensão de ativista. Ao longo da década de 1970, o regime militar realiza esforços de povoamento e ocupação da Amazônia. A construção da rodovia Perimetral Norte e a descoberta de minérios em área indígena desencadeiam uma série de invasões e extermínios. Em 1977, Claudia é retirada do território Yanomami e impedida de retornar. A interdição está na origem da criação da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY).

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Diversas ações realizadas nos anos seguintes pela CCPY, muitas delas com apoio financeiro de entidades não governamentais, culminaram com a conquista da demarcação da Reserva Yanomami em 1992, às vésperas da ECO-92, conferência realizada no Rio de Janeiro. Nesse período, a fotografia de Claudia Andujar se transforma em instrumento de denúncia e apoio logístico à ação prática de recenseamento e levantamento das situações de saúde dos indígenas.

É nesse contexto, por exemplo, que surge a série de fotografias de Marcados, retratos de índios que portam seus números de cadastramento pendurados ao pescoço – a maioria deles já aculturados, com vestimentas e destituídos de pinturas corporais. As fotografias, feitas para controle e tratamento nos programas de saúde, são completamente ressignificadas quando trazidas ao contexto da exposição. Funcionam com cruéis registros do genocídio.

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As doenças e as destruições trazidas pelo garimpo e pela cobiça estão estampadas nos rostos dos índios. O contraste com a primeira parte da exposição é gritante. O percurso termina com uma instalação, que funciona como síntese de todo o percurso. Intitulada “Genocídio do Yanomami: morte do Brasil”, a instalação foi concebida originalmente em 1989, como um manifesto contrário à decisão do governo de José Sarney de demarcar a Reserva Yanomami dividida em 19 “ilhas”, porções de terra separadas entre si. Caso isso viesse a ocorrer logo  levaria à completa asfixia do povo Yanomami.


Re-instalar

A partir das informações e dos documentos acerca da instalação, foi possível reconstituir a proposta original, baseada na utilização de quatro projetores de slides e um sistema de espelhos que permitia a multiplicação da imagem. As imagens foram digitalizadas e a sequência retrabalhada a partir da trilha sonora original, composta por Marlui Miranda.

A projeção tem duração total de 24 minutos, ao longo dos quais imergimos na cultura Yanomami e no seu processo de violenta aculturação. Dezesseis telas verticais estão dispostas ao longo de um semicírculo. A obra se inicia com imagens aéreas, realiza uma imersão no ambiente da floresta e da maloca, nos introduz nos rituais.

A imersão propiciada pelo ambiente reverbera a sensação do êxtase. As imagens saltam de uma tela a outra, uma mesma imagem se multiplica e ecoa em repetições e espelhamentos. A trilha sonora acompanha o caráter fragmentário e heterogêneo das imagens. Mistura cantos Yanomami e sons da floresta com músicas de origens diversas.

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As danças e rituais dão lugar aos indícios de aculturação, o índio aparece associado a objetos do homem branco: arma, capacete, maço de cigarros, roupas. Os rostos expressam doenças, miséria, sofrimento. Placas de garimpo e notícias de jornal se sobrepõem às imagens, dando conta de assassinatos e conflitos. Como palavras rasgadas de manchetes de jornal, em letras garrafais, se impõem os dizeres: “Marcados para morrer”.

Na época em que foi montada pela primeira vez, a instalação se inseria na luta pela demarcação do território indígena. Hoje, 26 anos após a conquista da demarcação, ela retorna com sua potente mensagem. A saúde e o futuro da cultura Yanomami não estão garantidos. A demarcação de nada vale se os órgãos encarregados da fiscalização estiverem de mãos atadas, com recursos extremamente escassos e, eles também, sob a mira dos invasores. Muito longe de resolvida, a questão retorna com urgência.

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Outro detalhe a se apontar na exposição é a utilização de desenhos feitos pelos Yanomami, a partir de uma iniciativa de Andujar em parceria com o missionário Carlo Zacquini. Em 1974, ela começou a levar papel e canetas aos índios. A experiência transformou-se em pesquisa financiada pela Fapesp, em 1976, que permitiu a criação de mais de uma centena de desenhos. Os traços e as formas remetem diretamente à cosmologia e à visão de mundo dos Yanomami.

Os desenhos entram em consonância com as fotografias no espaço da mostra, são expressões desse contato afetivo, de um polo a outro, do ponto de vista da fotógrafa, branca, europeia, imigrante, ao ponto de vista do indígena que vive nos confins da mata, o nativo amazônico. Esse contato, que é contagioso na maior parte das vezes, se revela potente, uma arma na luta pelo direito de existir e pela autodeterminação dos povos Yanomami.


Etnografia, ativismo e poesia

O trabalho de Claudia Andujar tem o poder de atuar em três frentes ao mesmo tempo. É um registro etnológico, resultado do contato entre duas culturas distintas, fruto de uma aproximação e um reconhecimento mútuos. É um instrumento de denúncia, que deu visibilidade à causa Yanomami e permitiu conquistas importantes. É também, e talvez acima de tudo, uma expressão poética, que resulta em imagens que testemunham a doçura do contato, o olhar sensível e engajado.

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A mostra “Claudia Andujar: a luta Yanomami”, segue aberta até o dia 7 de abril de 2019, no Instituto Moreira Salles de São Paulo. No segundo semestre, será montada no IMS do Rio de Janeiro. Claudia Andujar também é a homenageada do ano no 15o Festival Paraty em Foco, que irá ocorrer de 18 a 22 de setembro. Ocasiões para entrar em contato ao mesmo tempo com a sensibilidade da artista, com a riqueza do patrimônio cultural Yanomami e com sua luta pela sobrevivência e a autodeterminação.   

Érico Elias é doutor em Artes Visuais pela Unicamp. Atualmente, diretor artístico e curador do festival Paraty em Foco. Autor do livro Fotofilmes Brasileiros (Sesc-SP e a Kinoforum, 2015). 

Imagem de capa JU-online

Foto que integra exposição de Cláudia Andujar no Instituto Moreira Salles, em São Paulo | Foto: Divulgação