Questionamentos para uma vida política

Yara Frateschi revisita princípio aristotélico do zoon politikon

Talvez a política atual não estivesse tão caótica se nos perguntássemos uma vez ou outra o que nos leva a viver em sociedade e a nos submetermos às suas leis. Uma coisa é certa: ao menos teríamos mais clareza ao tomar as decisões que nos competem numa democracia. A física da política – Hobbes contra Aristóteles (Editora da Unicamp, 2008), da professora de ética e filosofia política Yara Frateschi, é certamente uma ótima introdução aos questionamentos sobre a natureza humana e sua inclinação a formar comunidades. O livro elucida a tese teleológica aristotélica acerca do assunto e mostra, em seguida, como o inglês Thomas Hobbes contrapõe o filósofo a partir de sua teoria mecanicista da natureza humana. Fruto de sua tese de doutorado, Frateschi faz nessa obra diversas idas e vindas entre os dois pensadores a cada ponto discutido.

Ela revisita, assim, o princípio aristotélico do zoon politikon, segundo o qual o homem é entendido como um animal político. Isso significa que “somente na comunidade política [...] o homem pode encontrar o seu maior bem e ser plenamente homem” (p. 25). Todos nós possuiríamos, assim, uma tendência natural a formar comunidades civis, as cidades, pois apenas dessa maneira atingiríamos a felicidade plena. Hobbes transforma esse ponto no alvo central de sua crítica a Aristóteles, elaborando a partir daí sua filosofia. De fato, o filósofo inglês substitui o zoon politikon pelo princípio do benefício próprio, estabelecendo que “a natureza humana conduz, em primeiro lugar, à procura do que o homem considera bom para si mesmo, sendo todo o resto desejado no interesse desse fim, inclusive a comunidade política” (p. 29). A cidade, então, seria apenas um caminho, entre vários, pelo qual o homem alcançaria o seu maior bem. O medo da morte violenta seria crucial, afirma o inglês, para o desenvolvimento das cidades; buscando a paz, os homens identificariam nas comunidades civis o melhor caminho para seu benefício próprio.

O embate entre os dois princípios representa, no fundo, o confronto entre duas visões de mundo: a teleológica e a mecanicista. A primeira, defendida por Aristóteles, explica a natureza a partir de uma teoria de finalidades. Todas as coisas teriam um fim e caminhariam naturalmente em sua direção. Para ilustrar, o fogo teria como finalidade subir, enquanto uma pedra elevada do chão teria como finalidade cair. No caso do ser humano, o pensador grego entende que temos como finalidade a vida em comunidade. Não se trata de uma aplicação do princípio do benefício próprio. O homem aristotélico tende, por natureza, a se unir a outros homens; ele não opta por isso. A vida em sociedade constituiria o próprio bem absoluto do homem.

Hobbes discorda da concepção teleológica da política e da natureza. Segundo ele, a ignorância do homem quanto às causas da guerra o condena a viver calamidades. Uma filosofia moral que lhe desse discernimento a esse respeito levaria à paz, mas os filósofos antigos teriam falhado em prover tal filosofia. O pensador inglês se propõe, desse modo, a providenciar as bases para o conhecimento político e moral capaz de estabelecer as causas da guerra e da paz. Frateschi explica que “Hobbes reduz a filosofia a relações causais, de modo que conhecer uma coisa é conhecer a sua causa [...]. As coisas universais têm, por sua vez, uma causa única, que é o movimento” (pp. 50-51). A teoria hobbesiana é mecanicista por isso; ela vê absolutamente tudo que acontece como movimento. Os corpos, tudo aquilo que pode se movimentar, seguem a lei inercial: um corpo em repouso permanecerá em repouso até que outro corpo lhe coloque em movimento; um corpo em movimento continuará em movimento até que outro corpo lhe coloque em repouso. Esse raciocínio contraria o pensamento teleológico, pelo qual a finalidade movimenta os corpos e estes repousam ao alcançá-la.

Na teoria mecanicista, o homem é visto como uma máquina em movimento. Como vimos, a lei inercial atribui a todos os corpos a qualidade de persistir: um corpo em repouso permanece em repouso, um corpo em movimento permanece em movimento. Ora, sendo o homem um corpo em movimento, logo, sujeito à lei inercial, conclui-se que seu movimento também tende a persistir, o que se traduz no princípio do benefício próprio. A filosofia moral lidaria, nesse contexto, com os chamados movimentos da mente. São, esses movimentos: as sensações, as paixões, os desejos, as deliberações, cada um deles levando ao movimento seguinte (as sensações levam às paixões, e assim por diante).

Se a única lei natural na teoria hobbesiana é aquela da autopreservação, todos os indivíduos disporiam de justificativa para buscar seu benefício próprio, tornando-se necessário o estabelecimento de um padrão externo que distinga o certo e o errado. No entanto, o mero estabelecimento desse parâmetro moral não garante seu cumprimento. De fato, Hobbes demonstra a necessidade da aplicação de punições e recompensas, dirigindo o desejo individual de acordo com as leis. Limitados pelo princípio da autopreservação, o homem e seu desejo, nesse caso, seriam conduzidos a cumprir a lei instituída.

Aí residiria mais um ponto de conflito entre Hobbes e a tradição aristotélica.  O filósofo grego acreditava no poder da razão para governar os desejos, e defendia a educação como a maneira de levar o homem a praticar o bem. Já Hobbes enxergava a razão como uma propriedade meramente calculadora por meio da qual processaríamos o que mais nos beneficiasse. Assim, no âmbito da filosofia hobbesiana, a razão não possuiria poder algum sobre o que desejássemos.

Nesse contexto, sem orientação natural para a vida em sociedade e condução por um princípio moral absoluto, os indivíduos só aceitariam as regras da vida em sociedade a partir da fundação de um pacto social. Este seria, de fato, a solução encontrada para estabelecer a paz em um cenário no qual vigoraria o princípio do benefício próprio. Por meio desse pacto, portanto, seriam estabelecidos a cidade e o seu soberano, responsável pelas leis e pelo seu cumprimento, por meio de punições e recompensas.

Ao demonstrar as conexões entre a teoria mecanicista e a filosofia política de Hobbes, fundamentais para a compreensão do princípio do benefício próprio e para a elaboração da noção de pacto social, a autora se distancia de determinadas interpretações sobre a obra do filósofo inglês. Essas interpretações, com efeito, colocariam em campos distintos a filosofia natural e aquela política de Thomas Hobbes.  Eliminando essa separação, considerada por ela um equívoco interpretativo, Frateschi acabou construindo um estudo primoroso. Com uma escrita atenta e clara, a obra disponibiliza ao leitor, desde o mais leigo até o mais versado no tema, um questionamento profundo e enriquecedor sobre a natureza humana a partir de duas das principais tradições filosóficas sobre o assunto.

 

Reprodução: Editora UnicampSERVIÇO

Título: A física da política - Hobbes contra Aristóteles

Autora: Yara Frateschi

ISBN: 978-85-268-0808-9

Reimpressão: 1ª - 2014

Edição: 1ª

Ano: 2008

Páginas: 176

Dimensões: 14 x 21 cm

R$ 46,00

 

 

 

 

 

 

 

Imagem de capa JU-online

Reprodução: Editora Unicamp