A voz da divulgação científica na tragédia de Mariana

Veículos investiram na diversidade de conteúdos, ampliando o espaço de reflexão

Como um campo de trabalho em amadurecimento no Brasil, a divulgação científica tem assumido formatos muito diferentes entre si, e também objetivos variados. Ainda assim, é possível localizar um papel comum aos veículos que possuem esse enfoque, que é o da formação cidadã: ser um suporte para que o leitor, a partir de suas próprias percepções e contextos, tenha novos elementos para interpretar o mundo ao redor e formar sua leitura das variadas situações, inclusive contextualizando o processo de produção de conhecimento ou de acesso à ciência.

Dessa forma, sem desconsiderar que todo leitor já carrega consigo um conjunto relevante de conhecimentos, podemos esperar que a divulgação científica some a ele novas perspectivas e amplie as possibilidades de se apropriar das informações, consequentemente de se posicionar sobre os variados acontecimentos cotidianos. Tendo em mente esta função, podemos tentar saber em que medida as situações noticiosas que não são prioritariamente científicas podem também nos indicar algo sobre o papel do jornalismo científico. Ou seja, como ele pode se valer de abordagens e dados da ciência para agregar ao fato outras perspectivas e vozes. O caso do desastre ambiental em Mariana (MG) oferece enorme potencial para essa análise.

Neste tópico observamos a mídia impressa (com seus correspondentes em versão digital), tendo os veículos ComCiência, Revista Pesquisa Fapesp, Galileu e Superinteressante como representativos do contexto de divulgação científica. Para viabilizar a análise parcialmente comparativa, observaremos também a revista Veja e o jornal Folha de S.Paulo como representativos da divulgação tradicional de grandes mídias. Esses dois veículos não esgotam, é claro, o âmbito da cobertura nacional sobre a tragédia, e seria possível encontrar novos resultados se incluíssemos outros meios. Portanto, este é um exercício não exaustivo, realizado a título de indicar possíveis leituras sobre a especificidade da divulgação científica.

As matérias analisadas foram publicadas entre 5 de novembro de 2015, dia do desastre no reservatório do Fundão, até a primeira semana de junho de 2016. No grupo das plataformas de divulgação científica todos os 30 textos publicados foram lidos, enquanto no grupo de veículos tradicionais a busca teve resultados filtrados: com os termos “Samarco” e “distrito de Mariana”.

Nestes foram lidas apenas as matérias que tivessem potencial de incluir informações relevantes para o comparativo, ou seja, notícias em que pudesse constar o depoimento de algum pesquisador ou um dado que também tenha sido tratado pelo primeiro grupo de jornais (como o impacto ambiental causado pelo desastre). Dessa forma, não foram considerados os textos mais voltados para as questões de processo judicial, investigação policial e multa à empresa. Com esta seleção, chegamos a um conjunto de 34 reportagens no segundo grupo de veículos.

O conjunto de notícias foi analisado de acordo com três perspectivas: de que forma os temas foram abordados para gerar maior compreensão sobre o desastre; quais as principais fontes consultadas e a quem se deu voz na notícia; que papel os textos podem ter para a compreensão do processo científico, de maneira ampliada. A seguir, serão detalhados alguns dos resultados.


Diversidade para provocar reflexão

Nos veículos de divulgação científica, houve grande diversidade de temas abordados, tanto para informar sobre o acontecimento e tentar explicar seus efeitos, quanto para ampliar o espaço de reflexão e levantar questões que vão além do fato em si, relacionando conhecimentos de diversas áreas de pesquisa.

Embora menos detalhadamente do que os veículos da grande imprensa, as publicações de comunicação científica também abordaram informações essenciais sobre o caso: o parecer de 2013 do Ministério Público Federal que alertava para riscos na barragem do Fundão; o relatório do Centro de Sismologia da USP sobre abalos de baixa magnitude em Mariana no dia do acidente (pontuando que não seriam suficientes para culminar no desastre) o fato de que a bacia do Rio Doce já vinha sofrendo impactos ambientais por receber esgoto não tratado e a informação de que os custos para aquisição de água potável nas cidades em que o abastecimento foi interrompido estavam sendo repassados à população. A ComCiência trouxe reportagem explicando o conceito de “desastre ambiental tecnológico” e os motivos que levavam o caso da Samarco se enquadrar nesta categoria, tema que nenhuma das publicações dos jornais tradicionais abordou.

A dependência da economia local em relação à atividade de mineração e questionamentos sobre a ausência de um plano emergencial ou alarme, bem como sobre a insuficiência de medidas tomadas pela Samarco (como o uso de boias para conter os resíduos) foram mencionados pelos dois grupos de publicações analisadas. Também incluíram relatos sobre a situação no local após o acidente, com depoimentos sobre os prejuízos dos moradores. Várias das notícias publicadas discutiram as falhas de fiscalização sobre áreas de risco no Brasil e levantaram discussões sobre a legislação ambiental.

Apenas nos veículos de divulgação científica foi aprofundado o conhecimento sobre como são executados os estudos de impacto ambiental (EIA), o envolvimento de equipes multidisciplinares nesse processo e as deficiências que têm sido observadas por especialistas: diagnósticos incompletos, análise insuficiente de alternativas ao impacto e problemas de envolvimento das comunidades afetadas. Um importante diferencial pôde ser observado em uma das reportagens da ComCiência: o registro de um relatório do grupo PoEMAS (Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade), que mostra problemas técnicos no EIA/Rima da barragem do Fundão, especialmente na ausência de alternativas, já que a Samarco escolheu o local da barragem apesar de ser a única opção que teria efeitos cumulativos e geraria impacto em comunidades em caso de desastre, priorizando questões econômicas nessa escolha.

Nos impactos gerados pelo desastre, todas as matérias analisadas deixaram claro que ainda não havia consenso sobre as consequências que a tragédia iria acarretar para as populações e o meio ambiente das regiões atingidas. Os dois grupos citam desde estudos que não indicam alteração significativa na composição da água do Rio Doce, até análises de que a recuperação pode levar mais de 100 anos. As publicações de divulgação científica, no entanto, mostraram maior tendência de não serem taxativos. “Dizer que não tem contaminação com base em poucos pontos de análise é tão temerário quanto dizer que há”, diz uma das reportagens. “A presença de materiais tóxicos não significa que a água está automaticamente imprópria para consumo”, explica outra.

A exceção a esta constatação foi a revista Galileu, que publicou em destaque que “quantidades insanas de manganês, mercúrio e alumínio despontam como os principais riscos de contaminação no desastre de Mariana” (grifo do autor) e, em outro texto, afirmou sobre o Rio Doce que “especialistas já declaram que ele está oficialmente morto”.

Em geral, as notícias publicadas por esse grupo de veículos também foram mais informativas sobre a variação de microorganismos (fito e zooplâncton) e seu efeito na cadeia alimentar. Na revista Pesquisa Fapesp, por exemplo, consta que “colônias de algas e fitoplânctons estavam se multiplicando de forma acelerada”, chegando a extensões maiores do que as observadas em anos anteriores provavelmente em decorrência do excesso de ferro, mas morrendo em poucos dias, em decomposição que também consome oxigênio e altera o equilíbrio marinho (segundo as matérias, pesquisadores se espantaram com a água completamente turva e mais quente).

Por conta das alterações ambientais, um documento do Ibama fez com que um juiz proibisse a pesca na região da foz do Rio Doce e um mapa com a delimitação da área de proibição foi aberto na internet, possibilitando o acompanhamento do movimento das manchas de resíduos em alguns sites – informação que também não foi noticiada pelos jornais tradicionais analisados neste trabalho.

As publicações do grupo de veículos especializados em divulgação científica trouxeram mais informações sobre a possível dizimação de espécies raras, pouco estudadas ou ainda desconhecidas e que podem ter existido apenas naquela região. Um exemplo trazido pela Agência Fapesp é um tipo de água viva cuja única população estabelecida no Brasil ocorria numa região do Atlântico atingida pela lama. Segundo reportagem da agência havia particularidades no organismo delas que poderiam gerar informações importantes sobre a morfologia e o contexto ecológico de todo o grupo, além de aumentar compreensão sobre efeitos de mudanças climáticas.

A revista Pesquisa Fapesp foi a única a debater de forma aprofundada o início do trabalho de recuperação ambiental, ouvindo pesquisadores que questionaram o plantio de grama nas margens do Rio Doce (abordavam que seria importante identificar espécies de plantas mais capazes de crescer nesse tipo de solo) e que defendem a criação de canais paralelos ao rio principal para distribuição de água dos rios não degradados, além de controle de erosão com soluções específicas para cada trecho do rio, como barreiras e patamares. A revista também informou que o antigo campo de futebol do vilarejo foi transformado em represa de rejeitos pela mineradora mas a medida foi criticada por técnicos do Ibama e do Ministério Público.

A atuação do Ibama foi detalhada com mais informações em uma entrevista da ComCiência com a atual presidente do órgão, Marilene Ramos, que abordou o papel das medidas compensatórias exigidas à Samarco, o cálculo da multa, a necessidade de mais estudo para indicar melhores tecnologias reparatórias e a discussão de criação de um fundo de reparação ambiental para custear ações de recuperação. A baixa capacidade de recolher valores de multas aplicadas pelo Ibama também foi tratada pela Galileu. Quase ignorada nas matérias dos jornais tradicionais, a criação do Grupo Independente de Avaliação do Impacto Ambiental (GIAIA) foi destacada tanto na revista Pesquisa Fapesp (mais detalhes sobre essa cobertura estão no último tópico desta análise) quanto na Galileu, que relatou que o grupo começou com dez pesquisadores e hoje tem quatro mil apoiadores, entre cientistas e voluntários. Segundo a revista, o grupo se define como um “coletivo cidadão científico” que acredita que a ciência e os estudos devem ser transparentes. Por isso, os relatórios do GIAIA são disponibilizados na íntegra em seu site – apenas a Galileu incluiu essa informação e o link para um dos relatórios.

Sobre outras reflexões trazidas pelas matérias do grupo de revistas especializadas em divulgação científica, é possível destacar o questionamento das avaliações de risco de barragens no Brasil, publicadas tanto na Superinteressante quanto na ComCiência, e sobre a necessidade de rever o processo de licenciamento ambiental e a legislação ambiental. A ComCiência, por exemplo, mostra um relatório de 2004 do Ministério Público Federal sobre falhas de 12 EIAs de usinas hidrelétricas que resultaram em impactos ambientais e sociais não previstos, e destaca a importância da mobilização social por licenciamentos mais comprometidos com o desenvolvimento sustentável, feitos com participação popular e sem conflitos de interesse (quando a equipe que fará o estudo de impacto ambiental é paga pelo próprio empreendedor, por exemplo). O jornal também traz reportagem sobre possíveis mudanças no zoneamento ambiental do Estado de São Paulo que irão reduzir drasticamente a exigência da apresentação de EIA/Rima aos empreendimentos de mineração – o que não vimos ser discutido na mídia tradicional.

Outros temas que ganharam destaque nos veículos: notícia sobre a importância dos oceanos para a sociedade atual e do índice de Saúde do Oceano baseado em dez variáveis que é usado em todo o mundo para apoiar ações de educação ambiental ou indicar necessidade de implementação de programas de desenvolvimento sustentável; um artigo debatendo o conceito de desastre na perspectiva das ciências sociais e a necessidade de compreender que os desastres estão embutidos nas formas capitalistas de organização econômica e política (e que poderíamos aprender com as comunidades tradicionais, como indígenas), além da discussão sobre as consequências sociais e culturais de retirar das populações ribeirinhas sua condição de subsistência.

Reportagem da revista Pesquisa Fapesp mostrou também pesquisadores que já desenvolveram (antes do desastre) uma forma de aproveitar rejeitos da mineração na construção de casas – o que tornaria desnecessárias as grandes barragens.

Novamente destoando do grupo, a revista Galileu demonstrou uma tendência ao exagero, ao relacionar o desastre da Samarco a formas de exploração ilegal da natureza. Segundo a revista, a criminalidade ambiental é o quarto maior mercado ilícito do planeta e inclui caça, pesca, desmatamento, mineração e descarte ilegal de substâncias na natureza. Apesar de a revista discutir pontos importantes como a falta de fiscalização que resulta em desastres como o de Mariana e o desmatamento, ela localiza essas questões ao lado de contrabando de chifres de rinocerontes na África e recursos que financiam atividades terroristas.

Por outro lado, foi possível identificar abordagens em que o grupo de publicações da mídia tradicional avançou mais do que o de divulgação científica. Por exemplo, o relato sobre o desastre na revista Veja e no jornal Folha de S. Paulo incluiu dados sobre o tempo que a lama levou para chegar ao distrito de Bento Rodrigues, os outros distritos, rios e praias que foram afetados, a quantidade de peixes mortos (onze toneladas) e informações mais completas sobre como funciona o tipo de barragem que existia no Fundão (inclusive mostrando que o mesmo conta com ação da gravidade e pode ter passado por processo de liquefação), informações que poderiam ter sido abordadas por cientistas. A Veja, por exemplo, situa: “apesar da importância desses rios – o Rio Doce é a quinta maior bacia hidrográfica brasileira – não havia uma relação das espécies que habitavam o rio. Por isso, não será possível saber quais delas deixaram de existir”.

A repercussão do desastre em declarações de membros da Organização das Nações Unidas, assim como a atuação de ONGs internacionais como Greenpeace e WWF (que, segundo a Folha, apenas apoiaram grupos que estão no local do desastre, ao invés de irem eles mesmos a campo), foram mais abordadas em veículos tradicionais. Este grupo analisado também foi mais completo em situar a atuação da Samarco como joint venture da Vale e da BHP Billiton, dizendo que estava no topo de rankings brasileiros que avaliam lucros, margem e receita líquida de empresas, e buscando seu posicionamento sobre diversas consequências do desastre. Em entrevista à Folha, por exemplo, o presidente da Samarco conta que o novo plano de emergência apresentado pela empresa passou a incluir instalação de sirenes nas comunidades e realização de simulações de situação de emergência. A informação de que o primeiro plano de recuperação ambiental apresentado pela empresa foi rejeitado pelo Ibama por ser considerado genérico e superficial só foi localizada no jornal.

Este mesmo grupo da mídia tradicional publicou um maior volume de notícias que mostram o acompanhamento do desastre ao longo do tempo: a Veja apontou que, cinco meses após o rompimento, ainda havia vazamento de lama e quase dez milhões de m³ de rejeitos ainda se encontravam na barragem. A Folha noticiou problemas enfrentados por moradores de Barra Longa (MG) gerado pela poeira dos rejeitos da Samarco, indicando que a empresa instalou aparelhos para identificar potenciais alterações na qualidade do ar.

O jornal também divulgou escutas telefônicas de ligação entre funcionários da empresa, que revelaram que o sistema de diques construído para interromper o vazamento não estava operando satisfatoriamente, apesar de a empresa ter afirmado ao jornal que “a tecnologia empregada pela Samarco é a mais moderna disponível no mercado” (uma afirmação que poderia ser analisada por pesquisadores de várias especialidades). A criação de uma fundação responsável pela recuperação do Rio Doce, com orçamento de R$ 20 bilhões e conselhos administrativo, fiscal e consultivo (incluindo especialistas e representantes da sociedade civil), também não foi tratada pelos veículos especializados em divulgação científica, apesar de representar um contexto de potencial interesse para pesquisadores.

Um destaque importante no comparativo entre os dois grupos de publicações sobre o acidente é a forma como foi tratada a elaboração do novo Código da Mineração. Apesar de ter sido mencionado nos jornais do primeiro grupo, apenas a Folha (tendo como fonte a BBC Brasil) noticiou que um escritório de advocacia que atende mineradoras como Vale e BHP realizou alterações no documento oficial apresentado pelo deputado Leonardo Quintão (PMDB). Embora nada na lei impeça que advogados participem voluntariamente no processo de elaboração de um texto que ainda ainda passaria por votação, o jornal ouviu as críticas de ambientalistas, que afirmaram não terem sido convidados a discutir o novo código e que também teriam pesquisadores com condições de redigir propostas para o texto. Essa discussão, no entanto, não chegou às matérias de divulgação científica consideradas para esta análise.


Vozes ouvidas

Os dois grupos de mídia observados ofereceram considerável espaço para a participação de ambientalistas e pesquisadores de áreas biológicas, especialmente quando se trata da avaliação de impactos do desastre. Os veículos tradicionais, no entanto, ouviram uma diversidade bem menor de profissionais e utilizaram majoritariamente o “dizer” e “afirmar” como verbo declaratório (“diz”, “disse”, “afirmou”), em contraste com os de divulgação científica, que apresentaram os depoimentos de pesquisadores com uma grande variação de verbos declaratórios (“observa”, “dimensiona”, “sintetiza”, “elenca”, “enfatiza”, “evidencia”, “reflete”, “questiona”, “alerta”, “cita”, “prevê”, “explica”, “identifica”, “argumenta”, “compara”, “lamenta”), o que oferece ao leitor outras percepções sobre a reflexão e pode ser objeto de futuros estudos.

Demonstrando a pluralidade de vozes que podem contribuir com a compreensão do tema a partir do desastre, a ComCiência entrevistou 13 pesquisadores para quatro reportagens. Entre os entrevistados, estão representantes de diferentes áreas: além de biólogos, cientistas do Núcleo de Estudos de População da Unicamp, do Instituto de Economia da Unicamp, do departamento de Geologia Aplicada da Unesp, de semiótica da PUC-Campinas, da engenharia mineral da USP, do Instituto Oceanográfico da USP, do Laboratório de Hidroquímica do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e também um engenheiro e a gestora de uma organização de vítimas de impactos. Nos três artigos científicos que entraram nesta análise, ainda foram contemplados geólogos, um jornalista e um antropólogo.

A revista Pesquisa Fapesp foi a que conseguiu oferecer espaço ao maior número de pesquisadores.

Em seis reportagens analisadas, foram 25 fontes (três delas aparecem mais de uma vez, em diferentes matérias). A surpreendente quantidade de cientistas ouvidos inclui, por exemplo, biólogos da USP, UFSCar e Unifesp, professora de restauração florestal da Universidade Federal de Lavras (Ufla), do Laboratório de restauração florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq da USP), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o Instituto de Pesca, professores do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo, do Instituto Oceanográfico da USP e do Laboratório de Geotecnologias do Centro de Produção Sustentável da Universidade Federal de Minas Gerais, além de formados em farmácia, química, engenharia e um ornitólogo.

Mais do que apenas se referir às falas destes pesquisadores, a Pesquisa Fapesp fez bom uso do recurso de podcast, para também dar voz a quem esteve no local e, assim, possibilitar ao leitor uma visão mais humana do cientista. Por exemplo, em um podcast uma das pesquisadoras conta como foi o trabalho para avaliar microorganismos no fundo do Rio Doce e relata sensações que teve, indo além do mero registro “frio” de relatórios.


Superinteressante

Apesar de ter dado espaço a um número bem menor de pesquisadores (em sete matérias, foram ouvidos somente três biólogos diferentes, o chefe da reserva de Comboios e uma ex-moradora de Bento), a Superinteressante utilizou bem o recurso de vídeo para também buscar dar voz a eles: três deles têm um vídeo inteiro para relatar um depoimento.

A revista Galileu foi a única do grupo de divulgação científica que registrou o fato de que nenhum porta-voz da Samarco havia falado com a imprensa nas primeiras semanas após o desastre, informando que a empresa divulgou um laudo sobre a qualidade da água, sem mostrar a íntegra do material aos jornalistas. Por outro lado, a revista foi a que menos ouviu pesquisadores: nas cinco matérias analisadas, há menção apenas a um artigo produzido por cientistas do Centro de Biologia Marinha da USP (mas utilizando o conteúdo da Agência Fapesp), uma fala do membro do GIAIA doutorando em Ecologia, citação ao diretor do Serviço de Água e Esgoto de Baixo Guando e uma menção à Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), com um depoimento da porta-voz da campanha do Greenpeace sobre a Amazônia.


Veja

Já na revista Veja, em 11 matérias analisadas, foram ouvidos: além de um professor de Geologia de Engenharia da USP, um geotécnico, um biólogo, um professor de Oceanografia

da Uerj, o coordenador do Projeto Manuelzão da UFMG, pesquisador da Universidade Federal da Paraíba que monitora Abrolhos, o chefe da reserva de Comboios, promotores de Justiça de Mariana, o presidente da comissão de Meio Ambiente da OAB de Minas Gerais, o secretário estadual de Meio Ambiente da Bahia e uma declaração do presidente do ICMBio, da presidente do Ibama e do ex-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi.


Folha

O jornal Folha de S. Paulo teve 23 matérias analisadas, nas quais há depoimentos de 36 pessoas, entre ex-moradores dos distritos, pescadores de áreas afetadas, representantes de diversos órgãos e também pesquisadores. Desta área, além de biólogos foram ouvidos o Coordenador do Núcleo de Estudos sobre Poluição Aquática da Unesp, a professora de planejamento energético e ambiental da Coppe-UFRJ especialista em cálculo de prejuízos ambientais, um professor de geotecnia da mesma organização, um professor de engenharia costeira também da Coppe-UFRJ, um ecólogo da UFMG, a coordenadora do projeto Tamar, a coordenadora do programa de ciências da ONG WWF, o secretário geral do WWF, o diretor-presidente do IBIO, o ambientalista e advogado do Instituto Socioambiental (ISA), bem como um geólogo que estuda o impacto da indústria da mineração no mundo.


Ciência como processo

Um dos principais diferenciais nas matérias dos veículos especializados em divulgação científica foi a contribuição para uma percepção de que a ciência está sempre em processo de construção, e que os conhecimentos são produzidos de forma colaborativa, demandando uma série de habilidades dos pesquisadores - que raras vezes são retratadas nos veículos tradicionais, onde a ciência é apresentada mais comumente como detentora de certezas irrefutáveis.

Podemos constatar essa visão especialmente na leitura das matérias da revista ComCiência

e da revista Pesquisa Fapesp. Na edição sobre o desastre da Samarco, por exemplo, lemos que “o esforço para explicar causas, conhecer consequências, adotar ações e divulgar a militância da defesa da preservação da vida e do meio ambiente é parte da tarefa cidadã que temos”, o que demonstra ao leitor que as pesquisas apresentadas na edição estão inseridas em uma missão mais ampla, que não se resume ao fato em si, mas às reflexões suscitadas por ele.


ComCiência

Em uma das reportagens da ComCiência, um pesquisador destaca que faltam investimentos

em projetos de pesquisa e desenvolvimento para que novas soluções tecnológicas sejam encontradas.

Este trecho permite que o leitor questione as atuais soluções tecnológicas e também compreenda que a busca por alternativas demanda uma escolha de governos e empresas, ou seja, que o desenvolvimento de pesquisas com potencial para evitar novos desastres como este só acontece quando há opção por investir nisso, o que situa a ciência dentro do contexto social em que ela é produzida.

Em um dos artigos, houve destaque para um fato relevante: nossa base científica de monitoramento dos ecossistemas e da atmosfera começou a operar efetivamente, segundo o jornal, na década de 1960, o que fornece uma base limitada de dados históricos. Neste contexto, o artigo valoriza o conhecimento que populações tradicionais (indígenas, ribeirinhos, caboclos, caiçaras) reúnem há muitas gerações, mas lamenta que “a forma de codificação e transmissão de conhecimento de tais populações é ativamente desvalorizada como superstição e atraso, frente aos poderes do conhecimento científico” e poucas iniciativas buscam engajar o conhecimento tradicional às discussões técnicas a respeito do meio ambiente. “A pesquisa científica sobre ambiente e desastres deve estar aberta para o diálogo com outras formas de conhecimento e ação no mundo”, diz o artigo, com uma contribuição nitidamente relevante para que o leitor repense sua própria concepção de ciência e desenvolva um pensamento crítico capaz de desconstruir um conceito estático do conhecimento.


Fapesp

No mesmo caminho, a Pesquisa Fapesp partiu da experiência dos próprios cientistas envolvidos com as análises do desastre da Samarco para propiciar reflexões sobre o mundo acadêmico.

A revista não apenas informou a criação do GIAIA (grupo independente de pesquisadores), mas foi além ao relatar que os envolvidos “fizeram algo incomum em expedições científicas”, ao se referir ao fato de que o material reunido em campo não seria usado só pelos pesquisadores no local, mas também distribuído a outras equipes multidisciplinares de diversas organizações diferentes, e também que o grupo pretendia disponibilizar seus dados por meio do site e da página no Facebook. Além de oferecer um serviço ao leitor, indicando que ele pode ter acesso a essas informações, esse trecho também cumpre um papel de valorizar cientistas que rompem padrões, indicando que o modus operandi da ciência não tem que, necessariamente, ser sempre limitado a um cientista em um laboratório, registrando seu trabalho em relatórios inacessíveis.


Reflexão

A revista Pesquisa Fapesp trouxe ainda matérias que relatam hipóteses de pesquisadores para mudanças observadas na vida marinha próxima à Foz do Rio Doce (poderia já ter ocorrido uma seleção de variedades mais adaptadas ao excesso de ferro), e que defendem que a ciência reveja alguns conceitos sobre a distribuição de materiais pesados (como chumbo, cobre e zinco) em áreas marítimas.

Um cientista comenta “precisamos lançar um outro olhar para o potencial de acumulação de

material no meio marinho” e defende que políticas públicas e as leis reconsiderem a área de influência dos impactos, ou seja, que os atuais conhecimentos reunidos pela ciência sobre o tema podem não ser os mais precisos para fundamentar a regulamentação de setores como o da mineração.

O único texto com esse caminho de reflexão nos jornais tradicionais foi produzido pela BBC

Brasil e publicado na Folha de S.Paulo, com o depoimento de Paulo Rosman, professor de engenharia costeira da COPPE-UFRJ e autor de um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente para avaliar os impactos e a extensão da chegada da lama ao mar. Segundo ele, embora o Rio Doce tenha sido considerado “morto”, iria ressuscitar em até cinco meses porque os registros de resíduos são insignificantes e “desprezíveis” para serem considerados um risco ambiental, uma visão otimista não compartilhada pelo botânico da Unicamp Carlos Joly.

“Digo isso baseado em quantidades de sedimentos, em conhecimentos de processos sedimentológicos (...). Não tem como limpar a lama do mar. Ela se dilui naturalmente, sozinha”, afirmou na entrevista. “Há a visão quantitativa e fria do pesquisador, do cientista, e a visão emocional e por vezes desesperada do morador, do pescador e do índio. Os dois estão expressando suas razões. Nenhum dos dois está certo ou errado”, defendeu, completando ainda que ouviu pessoas que não são da área darem prognóstico devastadores quanto à toxicidade do material e pessoas que são especializadas, da área de geologia, dizerem que se trata de material de baixa toxidade, mas que, para ele, as pessoas podem “tirar da cabeça de que se trata de algo radioativo, um veneno ambiental que vai matar tudo”.

Ainda que não se concorde com a tese apresentada por Rosman, reconhecemos na divulgação desta entrevista um potencial igualmente forte para gerar no leitor a curiosidade para conhecer outras visões sobre o assunto e a percepção de que não há apenas uma verdade científica, mas existem interpretações possíveis e muitas vezes contraditórias.


Formação cidadã

Como mencionamos inicialmente, o exercício de analisar alguns materiais representativos da divulgação científica no Brasil, tomando como base as notícias relativas ao desastre da barragem da Samarco, não esgota o tema e pode ser aprimorado com a ampliação dos veículos analisados e dos tópicos de análise. Ainda assim, o conjunto discutido neste estudo possibilita algumas considerações sobre a importância do jornalismo científico e o potencial de seu fortalecimento para cumprir o papel de formação cidadã.

A partir de sua própria formação e contexto, o leitor dos veículos de divulgação científica teria nesse conjunto amplas possibilidades de se apropriar do conhecimento sobre a tragédia em si e também de desenvolver habilidades como pensamento crítico, abertura ao novo, curiosidade e autonomia na construção de sua percepção sobre a ciência e a construção do conhecimento acadêmico. E isso pode ser identificado com muito mais força nos veículos especializados do que nas publicações dos veículos de jornalismo tradicional, ainda que com diferenças entre cada veículo quanto a esse aspecto, como notamos nas análises apresentadas.

Da mesma forma, ficou claro que apenas a leitura de veículos especializados em divulgação

científica não seria suficiente para a compreensão de toda a história do caso de Mariana, já que os jornais tradicionais apresentaram também boa cobertura de outros aspectos da tragédia, foram mais eficientes em manter o acompanhamento do assunto ao longo do período de seis meses, procuraram dar espaço para o “lado” da empresa com mais abertura e relacionaram a tragédia ao cenário político brasileiro. Além disso, algumas matérias com alto potencial para reflexões sobre a ciência também foram localizadas nos jornais tradicionais.

Dessa forma, em geral, a leitura de veículos de divulgação científica contribui para ampliar o

escopo de reflexões do leitor e sua formação cidadã, que parte do conhecimento sobre a ciência para uma atuação mais autônoma frente às diversas situações do cotidiano. Mas ainda há desafios que podem ser superados para a realização de um jornalismo científico efetivo em sua missão e com enfoque ampliado, como propõe Carlos Fioravanti: “Enquanto o enfoque clássico privilegia o episódico sobre qualquer possibilidade de debate sobre as implicações das descobertas científicas, o enfoque ampliado valoriza a possibilidade de promover debates e partir de notícias do momento” (FIORAVANTI, 2013, p.321).
 

REFERÊNCIA

FIORAVANTI, Carlos Henrique. Um enfoque mais amplo para o Jornalismo Científico. Intercom, Rev. Bras. Ciênc. Comun. São Paulo, v. 36, p. 315-338, 2013.
 

Marília Pinto de Moura da Rocha - Jornalista graduada pela PUC-Campinas, também graduada em Ciências Sociais pela Unicamp. Trabalha como editora de conteúdo do Instituto Ayrton Senna em projetos de Educação. Foi repórter e coordenadora de equipe no jornal Bom Dia Campinas, repórter correspondente da Folha de S.Paulo em Campinas, repórter da Folha de S.Paulo em São Paulo. Foi repórter do Jornal TodoDia nas redações de Americana e Campinas, assessora de imprensa em diferentes setores pela Alfapress, e integrou a equipe de apuração da EPTV Campinas. 

 

Imagem de capa JU-online

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