A mídia internacional na cobertura da tragédia

Rompimento da barragem foi notícia, em menos de 48 horas, em mais de mil reportagens publicadas em veículos de todas as partes do mundo

Se é verdade que a maior parte das informações que temos sobre outros países chega até nós pela imprensa, como foi abordada para o restante do mundo a tragédia ocorrida em Mariana? A amostragem deste ensaio intenta mostrar a repercussão inicial na mídia internacional sobre a tragédia mineira.

O rompimento da barragem da Samarco figura entre os cinco piores escândalos empresariais de 2015. A lista divulgada pelo jornal britânico The Guardian em dezembro de 2015 mostra sinais de como a imagem do desastre foi (re)construída no imaginário internacional. Em menos de 48 horas o vazamento da barragem de Mariana era notícia em mais de mil reportagens publicadas em veículos de todas as partes do planeta, segundo o jornalista do site UOL Daniel Buarque.

No site do diário francês Le Monde, a reportagem sobre Mariana era a quarta mais compartilhada de acordo com notícia publicada no jornal O Globo. Nesse processo de dispersão da informação, é inegável a relevância das agências de notícias internacionais, já que, por diversas questões, em especial por impossibilidades financeiras, nem todos os veículos têm a possibilidade de enviar seus próprios repórteres ao local.

Para construir esta análise de como a mídia internacional repercutiu o desastre ambiental brasileiro, foram avaliadas 19 notícias publicadas entre os dias 5 e 6 de novembro de 2015 em dez sites de notícias que figuram entre os mais acessados do mundo: The Guardian, El País España, Le Monde, Reuters, ABC News, BBC News, Clarín, NY Times, The Wall Street e Financial Times.

No artigo A construção da imagem do Brasil no exterior: Um estudo sobre as rotinas profissionais dos correspondentes internacionais, o professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Antonio Brasil, aponta que estes profissionais tendem a um olhar ampliado para os acontecimentos aos quais já nos acostumamos. É a partir desta observação que as imagens transformam-se em estereótipos no exterior – o Brasil com Z – e acabam por criar um processo de autorreferencialidade que se confunde com a própria identidade nacional.

A primeira observação a destacar é que, nesse caso em especial, as agências Reuters, France Presse e Associated Press, foram as que mais tiveram seus conteúdos replicados. Por conta disso, muitas notícias publicadas em diferentes veículos foram engessadas e padronizadas, sem informações complementares e com pouca pluralidade em relação às fontes – a maioria dita oficial ou com informações da imprensa nacional. A especialista em Jornalismo Internacional, Fhoutine Souto, assinala essa como uma característica desse tipo de cobertura onde fica fácil identificar os discursos institucionais.


A pauta é a economia mundial

O vazamento em Mariana foi divulgado pela imprensa internacional como o ápice da crise econômica que o setor da mineração atravessava desde 2014, a partir do declínio dos preços das commodities e diminuição da demanda chinesa, maior consumidora mundial de minério.

O fato se refletiu de forma imediata no mercado financeiro, com a queda das ações da brasileira Vale e da australiana BHP Billinton nas Bolsas de Valores internacionais. As empresas, gigantes do setor, como destacado pelos jornalistas, são co-proprietárias da mineradora Samarco, que ficou em segundo plano na cobertura internacional, sendo referida sempre pelos termos joint venture ou subsidiária.

Na busca por quem seria o responsável pelo desastre, o foco das notícias pousou principalmente sobre a BHP Billinton, que tomou a forma humana de seu porta voz, Andrew Mackenzie, CEO da empresa. A rápida resposta da BHP, que realizou uma coletiva de imprensa em Melbourne (AUT) um dia após o rompimento, garantiu sua imagem de empresa que assume seus atos, enquanto o retalhamento de informações da Samarco, de acordo com Eleonora Gosman do argentino Clarín, só fez crescer a angústia daqueles que só tiveram 25 minutos para salvar suas vidas.

Em uma reportagem publicada no dia 6 de novembro, os repórteres John Lyons e Paul Kiernan, do The Wall Street Journal, relatam que a Samarco não permitiu que os jornalistas entrevistassem funcionários para informações adicionais. Autoridades como bombeiros também impediram que a imprensa chegasse a Bento Rodrigues, engolido pela lama. Isso pode justificar o uso massivo e a pouca variação de imagens aéreas – a maioria fornecida pela Rede Globo – das quais os correspondentes internacionais valeram-se para descrever o cenário aterrador.

Em relação à Vale, a percepção que fica é de omissão, uma vez que ela redirecionou as questões dos jornalistas para a Samarco, mostrando inabilidade das empresas diante de situações de crise.


Perdas materiais e imateriais

O perfil histórico de Bento Rodrigues chegou a ser mencionado em algumas reportagens dos veículos internacionais, mostrando as perdas culturais para a população. A perda não foi só material, de casas, pertences pessoais e meios de subsistências, mas de identidade e modos de vida. A preocupação com as vítimas, os sobreviventes e buscas pelos desaparecidos foi o elemento que povoou a maior parte das publicações aqui analisadas. Os jornalistas questionaram os números divulgados por órgãos oficiais contrapondo ao que era divulgado pela imprensa local e mesmo com o que os sobreviventes relatavam. Números que, aliás, eram bem divergentes.

Poucas foram, no entanto, as reportagens que se aprofundaram no que aconteceu, de fato com os sobreviventes. Muitas apenas citavam que essas pessoas haviam sido encaminhadas para um ginásio poliesportivo em Mariana. Mas é justamente nas falas destes personagens que fica evidente a ausência de um sistema de alerta avisando sobre a catástrofe iminente. A sirene só viria a ser instalada dois dias depois.


A mobilização da comunidade

A própria comunidade do povoado se mobilizou avisando uns aos outros. As pessoas fizeram por elas mesmas o primeiro trabalho de resgate. Poucas reportagens deram voz aos sobreviventes e voluntários. O que transparece novamente é a dependência de fontes oficiais. Já as dificuldades dos bombeiros e da defesa civil em chegar até o local foi bastante abordada, ainda que de forma superficial. Era impossível chegar de carro ou a pé por conta da espessura da lama e o resgate era feito via helicópteros.


A dependência custou caro

O estereótipo de um país de economia primarizada também pode ser encontrado na relação de dependência que as matérias descrevem entre barragens - tanto de mineração quanto de hidrelétricas - e o Brasil. O The Wall Street Journal enfatiza isso, por exemplo, ao explicar aos seus leitores que a própria origem do nome Minas Gerais vem das extrações de minério que acontecem desde o período do Brasil Colônia. Além disso, o jornal cita que, em Mariana, a maior parte da receita fiscal e dos empregos está associada a essa atividade.

Isso leva a outro ponto crucial da cobertura pelos veículos internacionais, o questionamento do porquê de tantos acidentes com barragens no país. A afirmação de que este seria o pior desastre ambiental de Minas Gerais - e que pouco depois acabou sendo considerado o pior do Brasil – já pressupõe a ocorrência de acidentes anteriores. Os correspondentes, em várias partes do mundo, resgataram diversos acidentes e os prejuízos ambientais que causaram, salientando a fragilidade desses empreendimentos, além de alertarem para a falta de fiscalização e controle pelos órgãos competentes.


Olhar ampliado

Pouco se falou sobre os prejuízos ao meio ambiente nesse período inicial, após a tragédia. O que mais se aproximou da discussão foi o medo de contaminação da água pela lama que a cobertura internacional caracterizou como tóxica, mesmo após declarações da Samarco afirmando que não. A cobertura mais detalhada, publicada pelo The Wall Street Journal, chegou a explicar que, mesmo não sendo a mais grave em termos de toxicidade, essa lama poderia ser pior na medida da demora de sua drenagem.

Pode-se reconhecer que mesmo de forma pouco clara no início, a imprensa internacional questionou os antecedentes de um desastre que não aconteceu devido a uma fatalidade. Nesse sentido, a diferença nos termos adotados pela imprensa internacional foi um dos aspectos que chamou a atenção durante esta análise. O uso do termo ‘explosão’ (burst) remeteria à leitura de que algo foi sendo acumulado até o momento em que o sistema ficou sobrecarregado e entrou em colapso.

Já o verbo romper, usado pela imprensa nacional, levaria muito mais à ideia de um acidente que pudesse ter acontecido por uma fatalidade. O que as matérias contestam mesmo sob as alegações iniciais de que tremores de terra teriam acontecido poucas horas antes. Em entrevista à rede ABC News, o gestor de fundos Roger Montgomery analisa este como um dos grandes riscos que qualquer empresa deve considerar ao aprovar um empreendimento desta natureza, e que isso deveria estar sempre em mente.

Essa temeridade não esteve nas preocupações da Samarco, mas era vivida pelos moradores da vila de Bento Rodrigues. Ainda na matéria do The Wall Street Journal, Filomeno da Silva, um ex-presidente do Conselho da cidade relatou que ele e outros moradores chegaram a levar até a Samarco informações sobre a água penetrando nas paredes da barragem quando passavam nas suas proximidades e questionavam o trabalho constante que os funcionários faziam para consertar aquilo. Mas sempre recebiam como resposta que não havia motivo para preocupações.

Ao trazer à tona a culpabilidade não apenas da Samarco, mas também da Vale e da BHP, as empresas acionistas majoritárias, que são as maiores do setor de mineração do planeta, os veículos internacionais chamaram a atenção em suas coberturas jornalísticas da tragédia ambiental para que as três empresas se responsabilizem de fato pelo enorme prejuízo que causaram não só pelo rompimento da barragem, mas por anos de exploração que não visava outra coisa além do próprio lucro em detrimento da segurança.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Antonio. A construção da imagem do Brasil no exterior: um estudo sobre as rotinas profissionais dos correspondentes internacionais. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 19, n. 3, pp. 775-794, set. / dez. 2012.

BUARQUE, Daniel. Mídia estrangeira destaca desastre ambiental em MG e busca responsáveis. Blog do Brasilianismo, São Paulo. 12 nov. 2015. Acesso em: 25 Jun. 2016.

SOUTO, Fhoutine Marie Reis. Desafios para a análise do jornalismo internacional. Revista Aurora, São Paulo. Edição 7, jan. 2010. Acesso em: 25 jun. 2016.
 

TRAGÉDIA em Mariana (MG) ganha destaque no mundo. O GLOBO, Rio de Janeiro. 06 nov. 2015.Acesso em: 25 jun. 2016.

 

Luana Rodrigues Campos - Jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Mestranda em Divulgação Científica e Cultural no Labjor/IEL/Unicamp. Em sua pesquisa trata de como as universidades e instituições de pesquisas públicas colaboram para a divulgação do conhecimento científico voltado ao meio ambiente, em especial o Pantanal. Tem experiência como repórter em sites de notícias, assessorias e ONGs. e-mail: luana123campos@gmail.com

Imagem de capa JU-online

Mariana | Foto: Renan Possari