Unicamp leva saneamento a propriedades rurais

Projeto que une pesquisa e extensão tem implantado tecnologias simples, baratas e eficazes em sítios de Campinas

Projeto que une pesquisa e extensão desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp tem implantado tecnologias simples, baratas e eficazes de saneamento em sítios localizados no Bairro Pedra Branca, zona rural de Campinas. O objetivo da iniciativa, que proporciona importantes ganhos sociais e ambientais, é multiplicar a experiência de modo a beneficiar o maior número possível de pequenas propriedades rurais espalhadas pelo Brasil. O trabalho deu origem a um site, um livro, duas cartilhas e alguns vídeos que trazem detalhes acerca da instalação, funcionamento e manutenção dos sistemas.

Batizado de “Saneamento Rural”, o projeto é conduzido pelo grupo denominado “Tratamento de Efluentes e Recuperação de Recursos”, que é coordenado pelos professores Adriano Luiz Tonetti e Luana Mattos de Oliveira Cruz, ambos da FEC. Ele explica que as pesquisas e ações de extensão transcorreram até aqui no contexto do trabalho de doutoramento da bióloga Isabel Campos Salles Figueiredo. “A Unicamp tem tradição em estudos na área de saneamento, que remonta aos anos 1990. Agora, com a contribuição da Isabel, nós incorporamos um novo olhar. Anteriormente, os estudos eram realizados em escala laboratorial ou piloto, de forma mais controlada. Agora, vamos a campo e implantamos as tecnologias sempre com a participação da comunidade”, detalha.

De acordo com Isabel, o projeto é dividido em três etapas. A primeira corresponde ao diagnóstico. Nesta fase, os pesquisadores estabelecem um diálogo com os proprietários rurais a fim de conhecer a realidade local, identificar as necessidades de cada um e saber quais deles estão dispostos a participar das ações. “Tudo é feito a partir da adesão espontânea da comunidade, pois é ela que vai colocar a mão na massa e ajudar a implantar e manter as tecnologias”, observa a bióloga.

Foto: Scarpa
O professor Adriano Tonetti, coordenador do projeto: “Nosso propósito é divulgar as tecnologias e dar autonomia aos produtores rurais para que tratem com eficiência o próprio esgoto”

A segunda fase envolve justamente a discussão em torno da seleção da tecnologia mais adequada para cada caso. Ao todo, são 15 sistemas de tratamento e três de disposição final do esgoto tratado. Destas, normalmente são selecionadas três ou quatro, levando em conta as características do empreendimento rural. A palavra final sobre qual técnica será efetivamente adotada cabe sempre ao produtor rural. “Ao longo dos primeiros quatro anos do projeto, a Unicamp entrou com os materiais necessários e a comunidade com a mão de obra, na forma de mutirão. Esse sistema funcionou muito bem”, avalia Isabel.

A terceira etapa compreende a aplicação propriamente dita da solução escolhida. “Na sequência, nós ministramos um curso prático e teórico sobre o funcionamento de cada tecnologia, com a participação dos moradores, de alunos da Unicamp e de convidados. Por último, nós monitoramos as tecnologias durante oito meses para avaliar a sua eficiência. O que constatamos é que elas estão funcionando muito bem e que os moradores não estão encontrando dificuldades para fazer a manutenção delas”, assegura a bióloga.

Um ponto salientado pelo professor Tonetti é o aspecto multidisciplinar que envolve o projeto. Segundo ele, além de estudantes da FEC, as atividades contam também com a participação de alunos de outras áreas do conhecimento, como Engenharia Química, Engenharia Ambiental, Biologia, Arquitetura, Farmácia, Ciências Sociais e até Pedagogia. “É preciso lembrar que estamos lidando com um tema que contempla diversos vieses, como o social, o ambiental, o da saúde pública etc. Assim, somente uma área do saber não seria suficiente para dar conta de alcançar todas essas dimensões”, diz.


Tecnologias

As tecnologias empregadas no processo são simples, baratas e, indicam os pesquisadores da FEC, muito eficazes. Elas utilizam materiais encontrados no próprio ambiente rural, como bambus, cascas de coco e palha, que ajudam a tratar o esgoto coletado diretamente do vaso sanitário ou de outras fontes geradoras presentes em uma residência. Algumas soluções empregam materiais comerciais, como caixas d’água, mas nada muito caro. Além disso, alguns modelos associam a plantação de bananeira, taioba e outras culturas nas proximidades dos sistemas, para que estas consumam a água e os nutrientes do esgoto. “Esses alimentos podem ser consumidos normalmente porque não ocorre qualquer tipo de contaminação”, tranquiliza o professor Tonetti.

De acordo com ele, a expectativa do grupo é que o trabalho desenvolvido junto à comunidade do Bairro Pedra Branca possa ser levado ao conhecimento não somente do maior número de pequenos proprietários rurais possível, mas também às autoridades das diferentes esferas de governo, para que o problema da falta de saneamento no âmbito rural seja enfrentado com soluções acessíveis. “Frequentemente, nós vemos publicidades afirmando que este ou aquele município tem uma porcentagem tal de esgoto coletado e ou tratado. Ocorre que esta realidade não alcança o espaço rural, onde água e esgoto são vistos como responsabilidades do proprietário. Como nem sempre este produtor tem condições de implantar soluções técnicas eficazes, normalmente ocorre a contaminação do solo e das águas subterrâneas, que por sua vez são consumidas pelos moradores da propriedade”, assinala o professor Tonetti.

Foto: Scarpa
A bióloga Isabel Figueiredo, autora da tese de doutorado: “Tudo é feito a partir da adesão espontânea da comunidade, pois é ela que vai colocar a mão na massa e ajudar a implantar e manter as tecnologias”

Dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD 2015) indicam que aproximadamente 12,6% dos domicílios rurais pesquisados não possuem qualquer sistema de tratamento de esgoto e que 57,7% adotam soluções consideradas inadequadas para o esgotamento sanitário. Mesmo com a conclusão do doutorado por parte de Isabel, o projeto da FEC terá continuidade, afirma o docente. Além disso, a partir de 2019 será oferecido semestralmente um curso de extensão que abordará todos estes temas, e do qual poderão participar desde proprietários rurais até profissionais que atuam na área de saneamento. O curso será pago, mas os organizadores reservaram cinco vagas gratuitas em cada turma, para contemplar pequenos produtores que não tenham condição de arcar com os custos.

“Nosso propósito é divulgar as tecnologias e dar autonomia aos produtores rurais para que tratem com eficiência o próprio esgoto”, reforça Tonetti. O projeto contou com financiamento da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) da Unicamp e com a colaboração de diversas instituições, como Associação dos Moradores e Produtores Rurais de Pedra Branca, Associação Brasileira de Engenharia Ambiental e Sanitária Seção São Paulo (ABES SP), Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região (ANC), Prefeitura de Campinas, Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), Sindicato Rural de Campinas (SRC), Comitê de Bacia Hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Comitê PCJ), Rede de Agroecologia da Unicamp (RAU). Isabel, por sua vez, teve bolsa de estudo concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência de fomento vinculada ao Ministério da Educação.


Benefícios

Os proprietários rurais e moradores do Bairro Pedra Branca que aderiram ao projeto aprovaram as tecnologias apresentadas pela equipe de pesquisadores da Unicamp. Eles consideraram as soluções práticas e eficientes. “Vários produtores daqui têm a consciência de que é necessário fazer esse tipo de tratamento, para melhoria da qualidade de vida não somente deles, mas da sociedade como um todo. As pessoas contempladas começaram a ver com maior clareza o quanto isso tem sido bom. Outro dia, conversando com um dos produtores contemplados, ele disse que está se sentindo feliz por não estar produzindo tanta coisa que deprede o meio ambiente. Valeu a pena”, analisa Francisco Augusto de Souza, um dos diretores da Associação dos Proprietários Rurais e Moradores do Bairro Pedra Branca e Região, em vídeo produzido pelos pesquisadores.

Fotos: Divulgação
Sistemas desenvolvido pelos pesquisadores da FEC-Unicamp utilizam materiais encontrados no próprio ambiente rural, como bambus, cascas de coco e palha, que ajudam a tratar o esgoto coletado diretamente do vaso sanitário ou de outras fontes geradoras

Noemia Kumagai, também diretora da associação, revela que no início do projeto foi difícil obter a adesão dos proprietários rurais, que demonstraram desconfiança. “Ninguém queria ser o primeiro a aderir. Agora que o projeto começou a dar certo, até os que não queriam estão querendo. Houve um grande avanço”. Nestor Teatin, produtor rural, conta como a situação era anteriormente: “Antigamente era a fossa normal. Um buraco onde eram jogadas as coisas. Dava muito problema. Precisava abrir uma nova a cada três ou quatro anos. Vertia água e dava problema para a terra e a água”.

A tecnologia implantada na propriedade de Teatin foi uma fossa verde ou bacia de evapotranspiração (BET) constituída por um buraco impermeabilizado no qual pneus, entulho, brita, areia grossa e terra contribuem para o tratamento do esgoto. Conforme os pesquisadores da FEC-Unicamp, essa técnica é capaz de eliminar 90% da matéria orgânica. Os 10% restantes e os nutrientes naturalmente presentes no esgoto são utilizados por bananeiras e taiobas plantadas no sistema, permitindo a produção de alimento. A água que sobra evapora ou é transpirada pelas plantas.


Links

http://www.fec.unicamp.br/~saneamentorural/

https://www.facebook.com/saneamentoambiente

 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: Imagem ao ar livre, em perspectiva e de corpo inteiro, grupo de cerca de trinta pessoas, quase todas em pé, agrupadas uma ao lado da outra, sendo que uma parte delas está à esquerda e outra à direita, uma de frente à outra, separadas por cerca de arame farpado. Todos observam a fala de um homem ao centro. Ao redor deles, há árvores. Entre os grupos há duas tubulações cilíndricas de concreto, com cerca de um metro de diâmetro, interligadas por um cano. Há terra ao redor deles. Imagem 1 de 1.