Exploração de tensões sonoras marca violão de Lula Galvão, aponta estudo

Obra do instrumentista brasiliense é tema de dissertação desenvolvida no Instituto de Artes

Quando toca o clássico Carinhoso, de Pixinguinha, o violonista brasiliense Lula Galvão adiciona o inesperado. Já começa de uma maneira muito diferente da tradicional e, depois, passeando por acordes diversos, dá a impressão de que não irá nunca encontrar a melodia. E, então, ela irrompe, cristalina. Tecnicamente, o que o músico faz no violão – e na guitarra – é privilegiar sonoridades de tensão, que enriquecem a harmonia. Isso faz parte da performance do instrumentista, estudada na dissertação de mestrado do também violonista Victor Polo.

Lula Galvão é referência na música brasileira, acompanhando grandes artistas e também atuando como arranjador. As sonoridades de tensão descritas na pesquisa são, em grande medida, influências da estética jazzística. Além disso, o músico se aproxima tecnicamente do universo erudito, por meio do estudo do repertório clássico de guitarra. “O violão popular brasileiro tem ampla relação de proximidade estética e técnica com a ‘escola’ do violão erudito”, complementa o pesquisador.

Para estudar a performance do violonista, Victor avaliou não apenas as músicas tocadas por Galvão, mas também sua sonoridade, postura física em relação ao violão e à guitarra, e rotina de estudos. O pesquisador ainda relacionou o trabalho do músico a uma vertente ou “escola” de violão brasileiro, reconhecida internacionalmente por ter nomes como Baden Powell, Marco Pereira e Yamandu Costa, destacando, ainda, a influência do violonista Hélio Delmiro no trabalho de Galvão.

“Lula encontrou em Hélio um modelo estético a seguir. Tal como Delmiro, ele transita com grande competência entre o violão e a guitarra, empregando muitas vezes os dedos em vez da palheta na versão elétrica, sendo esta uma das principais particularidades técnicas de Hélio Delmiro. No entanto, Lula também utiliza a palheta na versão clássica, algo que se distancia do universo tradicional do violão brasileiro”, descreve Victor.

Segundo apurou o pesquisador, ainda não havia um trabalho acadêmico de pós-graduação que focasse em diferentes aspectos sua performance musical. “A performance é o ato de pôr em prática a música. Eu analisei como Lula Galvão toca sozinho ou participando de diferentes formações instrumentais. Sendo um músico muito requisitado como acompanhador, a intenção foi observar como ele transita nessas formações em diferentes gêneros musicais”, explica Victor.

Orientado pelo professor Hermilson Garcia do Nascimento, do Instituto de Artes (IA) da Unicamp, Victor, como parte da defesa, também apresentou um recital com composições que fez durante o período da pesquisa, inspiradas na obra de Lula Galvão. No palco da sala de cinema do espaço cultural Casa do Lago, na Unicamp, ele recebeu vários outros músicos, com a intenção de replicar o universo das práticas do instrumentista.

Foto: Scarpa
Victor Polo, autor da dissertação de mestrado, durante recital: “Lula Galvão tende, em linhas gerais, para a modernidade”

Na dissertação, Victor transcreveu as performances escolhidas para a partitura, entre elas Carinhoso, que Lula Galvão toca sozinho. Ele selecionou os fonogramas de modo a abranger diferentes formações e gêneros. Outra preocupação foi separar faixas em que o instrumentista tocasse tanto violão como guitarra.

“Até hoje o violão carregou a simbologia de ser um instrumento tipicamente brasileiro, enquanto a guitarra esteve associada ao elemento estrangeiro, ao rock, a uma possível ‘ameaça’ às tradições musicais brasileiros. A pesquisa procurou refletir acerca dos elementos técnicos e estéticos associados a ambos instrumentos nas versões clássica e elétrica. Um dos objetivos foi propor uma discussão que atenuasse a dicotomia que muitas vezes se considera haver entre esses dois instrumentos”, salientou.

Para Victor, os elementos empregados na performance musical revelam o posicionamento estético do músico. “O que o músico toca tem sempre a ver com um debate e uma proposta estilística de um grupo ao qual ele quer pertencer. Lula Galvão quer imprimir a marca dele. Propõe elementos que, diversas vezes, são muito distantes do contexto tradicional da obra interpretada”, afirma Victor.

A metodologia principal adotada para as análises foi o procedimento proposto pelo musicólogo britânico Philip Tagg. Requer a comparação entre objetos por meio de unidades mínimas de expressão musical em qualquer estilo musical. “Foi o que permitiu a identificação de vários elementos adotados por Lula Galvão. Eles remetem a outros músicos e universos estéticos, especialmente a músicos brasileiros e jazzistas norte-americanos”. O principal intuito foi “explicar música através de música”, nas palavras de Tagg, emprestadas pelo pesquisador. 

A ampla exploração de tensões, em todos os contextos analisados por Victor, revelou uma preferência por um tipo de sonoridade e também um posicionamento estético do músico, “que tende, em linhas gerais, para a modernidade em oposição à tradição, como mostra o exemplo de Carinhoso”.

Veja o recital

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: Em área interna, imagem em perspectiva e em plano médio, homem sentado, com olhar voltado para a direita, sorri tendo apoiado no colo um violão. Ele segura o braço do violão com a mão direita e mantém o esquerdo levantado e projetado para frente, com a palma da mão aberta. Ele veste camisa com riscos formando xadrez em tom claro sobre fundo preto. Imagem 1 de 1.