Cinco visões sobre o jornalismo científico no país

Profissionais da área debatem principais desafios e apontam caminhos para potencializar a cobertura de ciência

Que reportar a ciência é importante, já se sabe. Para além dos noticiários, o jornalismo científico está presente também em workshops e cursos de especialização espalhados pelo Brasil. Apesar disso, ainda são vários os desafios para se comunicar processos e resultados de pesquisas científicas de maneira eficaz. Algumas dessas dificuldades são novas, como o combate à disseminação de notícias falsas nas redes sociais. Outras são mais recorrentes, como a conquista de grandes públicos num país em que 29% da população é considerada analfabeta funcional –, mas ideias e soluções podem surgir quando o jornalismo científico é a pauta. Afinal, como pavimentar caminhos para uma cobertura de ciência com maior qualidade, alcance e senso crítico?

Na última semana, jornalistas de ciência de diferentes veículos estiveram na Unicamp para participar do debate Diálogos entre Ciência Ecológica e Mídia – em busca de novas interfaces, ocorrido durante a programação da 2ª Rabeco (Reunião da Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação) & 6º SET (Simpósios de Ecologia Teórica). O debate, mesmo que direcionado à cobertura de meio ambiente, levantou questões e propostas relacionadas ao jornalismo científico como um todo.

Entre divergências e concordâncias, o debate passou por tópicos como: a necessidade de estreitar os laços entre cientistas e jornalistas; modos para tornar a ciência mais interessante e atraente para o público; potenciais canais que podem ser explorados para a distribuição da informação; e a possibilidade de provocar transformações em termos de políticas públicas e engajamento por meio do jornalismo científico.

O Jornal da Unicamp selecionou trechos relevantes do debate e entrevistou cinco dos jornalistas presentes para entender quais são os possíveis caminhos de crescimento para o jornalismo científico e as principais barreiras que ainda precisam ser rompidas. Os entrevistados são Bernardo Esteves, da revista Piauí; Daniele Bragança, do site O Eco; Marcelo Leite, da Folha de S.Paulo, Maria Guimarães, da revista Pesquisa FAPESP, e Maurício Tuffani, do site Direto da Ciência.

Foto: DivulgaçãoBernardo Esteves: “Somos porta-vozes dos leitores, e não dos cientistas”

“Às vezes a pessoa compra a revista para ver o perfil do presidenciável que está em destaque na capa. E eu digo a ela: me dá 40 minutos do seu tempo e, em vez de ver uma série, me dá sua a mão que vou te contar uma história de ciência”. É assim que Bernardo Esteves vê seu trabalho como repórter da revista Piauí, dedicada ao jornalismo narrativo. “Gosto de contar histórias em que eu possa retratar os cientistas em ação. A oportunidade de acompanhá-los em campo é um fator que levo em conta na hora de selecionar uma pauta, além do interesse público e da relevância da história”, conta.

Para Esteves, estreitar a relação entre jornalistas e cientistas também pode ser proveitoso na tarefa de acompanhar a agenda das esferas de poder, antecipar questões relevantes e entender como o conhecimento vindo da academia pode informar a formulação e implementação de políticas. Ele destaca, porém, que essa parceria deve respeitar o senso crítico do jornalismo. “No fundo, agimos como porta-vozes dos leitores para quem escrevemos, e não dos cientistas. Haverá situações em que os jornalistas estarão na posição de cobrar e criticar os pesquisadores, e isso é muito importante”, afirma.

Ao comentar sobre a possibilidade de alcance do jornalismo científico e a cobrança para que jornalistas usem termos cientificamente corretos – como “mudanças climáticas” – em vez de alternativas mais populares – como “aquecimento global” –, Esteves diz enxergar a situação como se fosse um cabo de guerra: de um lado está a precisão e, do outro, o alcance. “Quando ganhamos no lado da precisão, perdemos no alcance, e vice-versa. Podemos falar muito especificamente para pouca gente, ou muito genericamente para muita gente. Temos que pensar caso a caso”, explica.
 

Foto: DivulgaçãoDaniele Bragança: “Faltam jornalistas para cobrir meio ambiente nas mídias de massa”

Única dos entrevistados com atuação específica no jornalismo ambiental – este conectado ao jornalismo científico de diferentes maneiras –, Daniele Bragança é editora assistente do site O Eco, onde também cobre legislação e política ambiental. Vinda de um veículo especializado, ela comenta que faltam, na grande imprensa, jornalistas capacitados para tratar de temas relacionados à ciência ecológica, sendo esse um dos empecilhos para que o meio ambiente entre em pauta com a frequência que deveria.

Para Bragança, outro grande desafio do jornalismo ambiental, que se estende ao jornalismo científico, é como “furar a bolha” e atingir pessoas que não costumam acompanhar o tema. Um dos caminhos, segundo ela, é explorar o potencial de documentários e vídeos curtos. Por exemplo, neste ano O Eco lançou o documentário Sob a pata do boi, que reúne reportagens investigativas, produzidas ao longo de dois anos, sobre a expansão da pecuária na Amazônia. O filme acabou entrando na programação oficial de festivais de cinema dentro e fora do Brasil. Mas, apesar do sucesso alcançado, Bragança ressalta que esse tipo de iniciativa requer investimento de tempo e dinheiro, bens escassos em grande parte dos veículos de comunicação do país.
 

Foto: DivulgaçãoMarcelo Leite: “Precisamos encontrar as boas histórias”

Marcelo Leite, repórter especial de Ciência e Ambiente na Folha de S.Paulo, acredita que o caminho para conquistar públicos não familiarizados com ciência é contar boas histórias, com processos, descobertas e personagens. “O trabalho de campo, em geral, pode ter um apelo muito grande para reportagens de cunho narrativo. É preciso contar como ele é feito, quem são as pessoas que o fazem, quais métodos usam, os percalços e as coisas que acontecem no dia a dia do trabalho”, explica.

A partir dessas narrativas, leitores e espectadores podem conhecer as perguntas e respostas que constroem a ciência e não apenas os resultados finais, que costumam ser o foco de jornalistas. Ainda que o impacto e a relevância sejam palavras de ordem tanto na ciência como no jornalismo, Leite ressalta que é preciso evitar que essa noção acabe por marginalizar a ciência básica. Para ele, o jornalismo científico muitas vezes se direciona a pesquisas cujo resultado é mais evidente e palpável, deixando de lado estudos e abordagens que não possuem aplicação clara ou direta, mas que igualmente necessitam de divulgação. 

Além disso, Leite defende que os cientistas devem agir com maior proatividade, inclusive procurando a imprensa para mostrar estudos interessantes e indicar assuntos que “deveriam estar na mídia, mas ainda não estão”. Isso porque, para ele, é fundamental que cientistas e jornalistas possam, juntos, antecipar pautas do debate público e contribuir para a sedimentação da informação científica no cotidiano das sociedades.
 

Foto: DivulgaçãoMaria Guimarães: “É possível juntar forças entre cientistas e jornalistas”

Entre os jornalistas presentes no debate, Maria Guimarães é a única que não tem suas origens na comunicação. Graduada em Biologia e doutora em Comportamento Animal, ela mais tarde se especializou em Jornalismo Científico e hoje é editora do site e repórter da revista Pesquisa FAPESP. “Parti para a comunicação porque nunca gostei de ficar em um assunto só”, conta. Para ela, um dos grandes desafios da mudança de área foi aprender a construir raciocínios e elaborar narrativas em que os pontos mais interessantes são colocados no início e não no fim, ao inverso do que comumente se faz num texto acadêmico.  

Guimarães destaca a importância de oferecer reportagens complexas para mostrar ao público de que maneira a ciência está presente naquela determinada pauta, a seriedade dos pesquisadores envolvidos e os fundamentos existentes por trás do assunto. Segundo ela, “O que se sabe?, Qual é o problema? Como isso se relaciona com o que está sendo feito em termos de políticas públicas? Isso é importante por quê?” são perguntas essenciais de se fazer e responder numa matéria.

Ao falar dos processos de produção da revista em que trabalha, a jornalista também comentou o potencial dos vídeos para atrair a atenção do público, especialmente quando se aposta numa veiculação via redes sociais. Entretanto, ressalta que produções audiovisuais trazem desafios: “Ir a campo é muito caro e o ritmo de trabalho da equipe de vídeo muitas vezes não coincide com a pesquisa que está sendo feita”. Uma possível solução, segundo ela, é juntar forças entre cientistas e jornalistas. “Muitas vezes o próprio cientista produz um vídeo em campo e não tem como dar visibilidade a ele. Nas mãos do jornalista, isso ganha público”, completa. 
 

Foto: DivulgaçãoMaurício Tuffani: “Os cientistas precisam se expor mais”

Para Maurício Tuffani, editor do site Direto da Ciência, uma das principais urgências do jornalismo científico não está sob responsabilidade dos repórteres e editores, e sim nas mãos dos cientistas. Ele afirma que, numa era marcada pelo dilúvio de informações, é importante que os pesquisadores estejam presentes nos meios de comunicação e nas mídias sociais, especialmente para ajudar a valorizar os conteúdos de qualidade e a denunciar os conteúdos falsos. “O interesse em obscurecer a informação científica é muito grande e existe um engajamento muito grande para isso. Precisamos nos engajar do lado de cá também”, comenta.

Com mais de 30 anos de carreira, tendo passado por veículos como Scientific American Brasil, Galileu e Folha de S.Paulo, Tuffani lembra que a popularização da internet fez parecer que estavam derrubadas todas as barreiras da comunicação. Mas não demorou até que surgissem novos desafios a serem enfrentados no ambiente digital. “Estamos numa época muito ruim para os meios de comunicação. Hoje, nós disputamos a atenção do público não só com outros veículos de informação, mas também de entretenimento”, diz. Para ele, apesar dos esforços para aumentar o alcance de notícias e reportagens, o jornalismo de ciência ainda está “preso numa bolha”.

Segundo Tuffani, outro ponto que deve ser trabalhado por jornalistas e assessorias de imprensa, nesta era das redes sociais, é a qualidade e a precisão dos títulos. “O título tem que ser chamativo, com mensagens curtas e claras”, defende. Ele justifica a afirmação contando que uma de suas matérias recentes teve 21 mil compartilhamentos nas redes sociais, mas apenas 7 mil visualizações do texto no site. “As pessoas compartilharam sem ler. Elas respondem com base no título”, completa.

 

 

Imagem de capa JU-online

Audiodescrição: montagem com cinco fotos retangulares dispostas na vertical, uma ao lado da outra, formando uma fileira, sendo que as fotos mostram pessoas, em imagens frontais e de busto, todas com olhares voltados para as lentes da câmara fotográfica. Alguns pessoas sorriem, outras mantêm-se sérias. Imagem 1 de 1.