Diferentes olhares

Identificada historicamente com mineradora, parcela da população ignorou drama das vítimas

O rompimento da barragem expôs questões locais que vão muito além da crise econômica enfrentada por Mariana. A prática da mineração e a própria Samarco estão ligadas à população marianense a ponto de uma parcela considerável das pessoas se identificar mais com a mineradora do que com os subdistritos atingidos. Apenas 15 dias após o rompimento ocorreu uma passeata, organizada por funcionários e simpatizantes da Samarco, pedindo o não fechamento da empresa.

Em passeata, trabalhadores da mineradora, comerciantes, estudantes e atingidos seguravam cartazes e faixas com frases como “Justiça sim, desemprego não”; “#FicaSamarco” e “Todos juntos pelo futuro de Mariana”, protestando contra a interrupção definitiva das operações da empresa, o que significaria a perda de mais de 2 mil empregos diretos e a desestruturação da economia local. Apesar disso, era unânime a opinião de que a empresa deve pagar pelos danos que causou.

Parte dos habitantes de Mariana possui laços tão estreitos com a mineradora que chegam a culpar as vítimas pela demora da volta da empresa. Sem suas casas, os moradores dos subdistritos atingidos foram alocados em Mariana e muitas vezes são alvos de críticas e perseguição. Uma dualidade cruel em uma cidade que é conhecida por sua hospitalidade.

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Manifestação da população pela volta da Samarco, 15 dias após a tragédia | Fotos: Thiago Barcellos, estudante de Jornalismo da UFOP

O proprietário do Café Chantilly Confeitaria, no centro histórico de Mariana, Antonio Paulo Goulart, diz que é favorável à volta das atividades da empresa na cidade. “Além de estarmos vivendo uma crise econômica no País, há uma crise isolada aqui. Economicamente a cidade inteira sentiu”, diz Goulart, que é também a favor de penalidade sobre os responsáveis. “A maior parte da população quer Justiça. A empresa deve pagar pelo que aconteceu, ela tem responsabilidade sobre isso, mas a cidade vai sofrer muito se ela sair. Precisamos ter uma fiscalização maior do governo”, defende.

O empresário já demitiu funcionários por causa da queda no movimento da doceria. Diz que também vê na situação um bom momento para a cidade se reinventar e buscar diversificar a economia. “Acho que havia uma certa consciência de que a mineração um dia chegaria ao fim, mas não desta forma impactante e trágica.” O empresário Antonio Paulo Goulart conclui que “a Samarco é um mal necessário”.

Para Mônica Santos, ex-moradora de Bento Rodrigues, a volta da mineradora, para os atingidos, vai além dos empregos perdidos. “Com a Samarco retomando as atividades, talvez as pessoas parem de nos culpar.” Embora tenham sido bem recebidos pela maioria dos moradores de Mariana, os atingidos sofreram preconceito de algumas pessoas, que os consideram culpados pela paralisação das atividades da Samarco e pela perda dos empregos, “como se fôssemos nós que tivéssemos estourado a barragem”. Mônica achou que a cobertura da tragédia pela grande mídia foi muito importante para que ninguém esqueça o ocorrido e para que “os culpados paguem pelo crime”.

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Empresário Antonio Paulo Goulart: punição da empresa e retorno da atividade Foto: Tássia Biazon, arquivo de viagem

Um jornal com a voz dos atingidos

O jornal A Sirene, lançado em fevereiro de 2016 pelo coletivo Um Minuto de Sirene, subverte a hierarquia de vozes. Escrito em primeira pessoa, a voz do atingido é a única existente no jornal. Os jornalistas colaboradores conversam com as vítimas do desastre, transcrevem exatamente o que foi dito e o texto passa por aprovação do entrevistado.

Reprodução“Sentimos que nem tudo que queríamos aparecia (na grande mídia), tudo era muito filtrado. Eles aproveitavam muito dos momentos de sensibilidade, quando alguém estava chorando para fazer fotos, ao mesmo tempo os atingidos não conseguiam fazer queixas da empresa”, diz a professora Juçara Brittes, integrante do coletivo Um Minuto de Sirene.

As estudantes de Jornalismo da UFOP Marília Mesquita e Silmara Filgueiras participam da produção do jornal A Sirene desde a primeira edição. “Ficamos sensibilizadas com a causa.” Elas auxiliam nas entrevistas e às vezes ajudam também a escrever os textos, mas quem de fato faz o jornal são os atingidos pela lama nos subdistritos e distritos de Mariana.

No mês de julho de 2016, o jornal deu início a uma nova fase. “Com a reforma editorial, ele deve ser mais informativo e deixa de ser somente na primeira pessoa. Mas não existe matéria sem a participação de um atingido”, explica Marília. “Surgiu deles e para eles. Agora há uma releitura, para chegar a toda a população”, disse Silmara. O desafio é aumentar a circulação.

O projeto foi iniciado pela Arquidiocese de Mariana, que financiava a impressão, em parceria com a empresa Nitroimagem, que realizava o trabalho de produção. A ideia surgiu quando ainda estavam todos sob o impacto da tragédia. Depois a própria comunidade quis dar continuidade ao jornal. A Arquidiocese buscou recursos e conseguiu manter uma edição mensal de A Sirene. “Não imaginávamos que A Sirene ganharia esta proporção. É um jornal que está sendo construído”, afirma Marília.

Desde o início, a estudante Silmara faz a diagramação, enquanto Marília auxilia nas reportagens. Mas elas não são as únicas. Há participação de diversos estudantes da UFOP. A vivência com os atingidos lhes permite conhecer inúmeras histórias e situações que nem sempre chegam ao público.

“Tem gente que não consegue falar sem chorar. Outros falam tranquilamente. Não tem como não ser assim. Eles perderam suas casas, suas lembranças de infância”, conta Marília. A repórter descreve como os moradores de Bento Rodrigues falam de suas vidas antes da tragédia. “Os relatos que eu tenho deles é que viviam muito bem. Teve um que perdeu R$ 60 mil porque guardava em casa (dinheiro que foi depois encontrado por ele mesmo nos escombros). Financeiramente, eles não viviam mal. Uma moradora tinha horta em casa e agora, em apartamento alugado pela Samarco, tenta manter uma pequena horta.”

Relatou, também, a história triste do pai que agarrou suas duas crianças, cada uma em um braço, para impedir que fossem levadas pela força da lama, mas não teve força em um dos braços e perdeu um filho. Teve o caso da menina que, mesmo após o aviso que recebeu do rompimento, voltou para casa e conseguiu pegar seus livros.

Segundo conversas entre as vítimas de Bento Rodrigues, todos sabiam que poderia

ocorrer um acidente um dia, mas nunca nestas dimensões. Eles faziam caminhadas até a barragem, tinham a imagem de uma coisa gigantesca em cima deles, “mas ninguém estava preparado para tudo isso; nem as equipes de apoio”, assegura Marília.

Para Silmara, a imprensa de modo geral foi muito superficial na cobertura de Mariana, “com recortes não aprofundados”. Marília também acredita que ainda há coisas que precisam ser faladas que não aparecem na grande imprensa. Ela cita o surto de alergias em Barra Longa, cidade mineira onde a lama da barragem também passou.

Nos dias seguintes à tragédia, helicópteros sobrevoavam o local, telefones não paravam de tocar, era uma movimentação de diversas emissoras, entre elas a BBC, National Geographic e Globo. “Hoje em dia, quase não se vê mais ninguém”, disse em junho de 2016 o estudante Thiago Barcelos, aluno do curso de jornalismo da UFOP. “O bacana é que ainda tem gente que não se esqueceu e procura fazer um produto jornalístico de qualidade que pode fazer a diferença, por isso eu fico feliz em ajudar pessoas que aparecem aqui, assim como vocês”, declara.

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Estudantes Marília Mesquita e Silmara Filgueiras que produzem jornal A Sirene Foto: Bruno Andrade, arquivo de viagem

O estudante conta que aproximadamente duas semanas depois da tragédia realizou uma cobertura fotográfica em Bento Rodrigues. Ele lembra que não havia nenhum morador por lá, era apenas a destruição que a lama provocou. “A princípio foi um choque, um verdadeiro cenário de filme de terror, era difícil acreditar que tinha uma cidade debaixo daquela lama toda”, lembra Thiago.

Quem visita os locais mais atingidos tem a sensação de ter parado no tempo. Paracatu de Baixo, subdistrito devastado, tem marcas nítidas. A escola está repleta de lama, a igreja interditada, as casas em ruínas. Em meio a tanta destruição, um ou outro morador anda pelas ruas, acreditando que sua vida ainda voltará ao normal.
 

Renan Possari - Graduado em Comunicação Social pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural no Labjor/IEL/Unicamp. Email: renan.possari@gmail.com

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Manifestação da população pela volta da Samarco, 15 dias após a tragédia | Fotos: Thiago Barcellos, estudante de Jornalismo da UFOP