Livro seminal da lógica contemporânea é traduzido do português para o inglês

Escrito e publicado em 1942, quando o autor, Willard Van Orman Quine, ministrou um curso no Brasil, O Sentido da Nova Lógica teve tradução coordena pelo professor Walter Carnielli

É raro um autor escrever e publicar em língua estrangeira e, anos mais tarde, ter seu texto traduzido para a língua materna. Mais raro ainda se a língua materna for o inglês e a língua estrangeira o português.

É o caso do livro O Sentido da Nova Lógica, do filósofo norte-americano Willard Van Orman Quine (1908-2000). Escrito e publicado no Brasil, em 1942, essa obra muito citada mas pouco lida, devido à limitada difusão da língua portuguesa no mundo, foi finalmente traduzida para o inglês, e será disponibilizada para a comunidade internacional interessada em filosofia analítica pela Cambridge University Press, com o título The Significance of the New Logic, a partir de 10 de maio.

A tradução desse livro, referencial no desenvolvimento das reflexões de Quine acerca de lógica e linguagem, foi coordenada por Walter Alexandre Carnielli, professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro e ex-diretor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da mesma universidade. E contou com a participação de William Alfred Pickering, da Unicamp, e de Frederique Janssen-Lauret, da University of Manchester, no Reino Unido, na época pós-doutorandos na Unicamp.

O trabalho recebeu apoio da FAPESP no âmbito do Projeto Temático “Logical consequence, reasoning and computation”, coordenado por Carnielli.

“Quine foi uma das figuras mais influentes da filosofia analítica. Embora tenha escrito predominantemente em inglês, deu aulas em português no Brasil, na Escola Livre de Sociologia e Política. Essas aulas, ministradas em 1942, foram anotadas por Vicente Ferreira da Silva [1916-1963], que foi um dos pioneiros da lógica moderna no Brasil, e se tornou, na época, uma espécie de assistente de Quine. O livro O Sentido da Nova Lógica foi composto com base nessas anotações”, disse Carnielli à Agência FAPESP.

Foto: Scarpa
O professor Walter Alexandre Carnielli: ““Quine trouxe ao país a lógica contemporânea”

“Traduzir esse livro para a língua original do autor representou um grande desafio. Além das dificuldades inerentes ao tema, havia o fato de Quine ter sido um escritor impecável. Claro que o nosso trabalho pode ser criticado, mas procuramos fazer o melhor, reunindo na equipe um norte-americano, doutor pela Unicamp em linguística comparada, e uma pesquisadora escocesa, especialista na filosofia de Quine, portanto familiarizada com o jargão filosófico adotado por ele. Eu, com quase 35 anos de experiência no exercício da lógica, zelei pela acurácia da tradução, que fizemos acompanhar de numerosas notas esclarecedoras, de uma alentada introdução sobre a evolução do pensamento de Quine e de outros textos acessórios”, disse.

Segundo Carnielli, antes da vinda de Quine, a lógica que se praticava no Brasil ainda era “lógica de padre”, isto é, a lógica aristotélica passada pelo filtro cristão de Tomás de Aquino, ensinada nos seminários.

“Quine trouxe ao país a lógica contemporânea. O próprio Newton da Costa, que foi meu orientador e coautor, disse, em um artigo de revisão, que ele e toda a geração dele aprenderam com Quine. Se a lógica brasileira conquistou tanto reconhecimento no mundo, isso teve, como primeiro passo, a vinda de Quine”, disse Carnielli.

Quine frequentou o chamado Círculo de Viena e foi grande admirador do filósofo e matemático alemão Gottlob Frege (1848-1925), que considerava ter sido o fundador da lógica moderna. Ao mesmo tempo, quando lecionou no Brasil, colocou seus alunos em contato com assuntos que, na época, ainda eram muito novos, como os teoremas da incompletude de Kurt Gödel (1906-1978), demonstrados apenas uma década antes, em 1931, que estabeleciam limites essenciais ao pensamento matemático, e, por decorrência, a todo o pensamento científico.

“Considero que os teoremas da incompletude de Gödel constituem a aquisição cognitiva mais importante do século 20. Uma aquisição que, por sua universalidade, supera, em alcance, a teoria da relatividade e a teoria quântica. Porque os teoremas da incompletude podem ser estendidos a todos os domínios do conhecimento, teórico ou aplicado. No último capítulo do livro que traduzimos, Quine fez uma exposição – informal, mas muito bem realizada – dos teoremas de Gödel. E isso para brasileiros que, naquele tempo, sequer suspeitavam de sua existência”, disse Carnielli.

Sumarizando os teoremas da incompletude de Gödel, Quine escreveu, em seu livro: “Dada qualquer sistematização da lógica, haverá verdades lógicas, e até mesmo verdades aritméticas, que demonstravelmente indemonstráveis”.

Na época atual, de saturação da informação e extrema relativização das “verdades científicas”, talvez seja difícil avaliar todo o impacto psicológico de uma afirmação desse naipe. Mas ela deve ter incendiado a imaginação dos jovens estudantes brasileiros. E o resultado frutificou na década seguinte, com uma geração de lógicos notáveis: Edson Farah, Newton da Costa, Jacob Zimbarg e Benedito Castrucci, na Universidade de São Paulo; Mario Tourasse Teixeira, na Universidade Estadual Paulista em Rio Claro; Leonidas Hegenberg, no Instituto Tecnológico da Aeronáutica; Jorge Barbosa, na Universidade Federal Fluminense.

“São os alunos desses homens que hoje ocupam posição central na pesquisa lógica no Brasil e são responsáveis pela consolidação da escola brasileira de lógica”, escreveram os tradutores-editores do livro de Quine.

Mais informações: https://goo.gl/Xay3T9.

 

 

Imagem de capa JU-online

O filósofo norte-americano Willard Van Orman Quine | Foto: Reprodução