Livro explora representação política de artesãos de Minas Gerais no Setecentos

Historiadora detalha as relações entre trabalhadores do ferro para descrever as redes de sociabilidade

A representação política do povo na história é o ponto de partida do livro Em casa de ferreiro – Os artesãos do ferro nas Minas Gerais do século XVIII, da historiadora Crislayne Alfagali, lançado no último dia 20. A partir da análise de um variado conjunto de documentos, a obra destrincha as relações sociais dos trabalhadores artesãos do ferro na região de Vila Rica e Mariana durante o Antigo Regime. Sob a perspectiva da História Social, a autora busca entender o funcionamento das corporações de ofício, em um primeiro momento na comparação entre Portugal e Brasil, pelo ponto de vista dos trabalhadores.

A análise baseia-se em duas questões fundamentais em torno das categorias ocupadas na hierarquia social por esses artesãos. Em primeiro lugar, investiga quais eram e como foram acionados os critérios que determinavam que o exercício de um ofício mecânico fosse um empecilho à honra e à nobilitação. Em seguida, compara as formas pelas quais essas categorias restritivas operaram no Reino e nas colônias. Para isso, o livro tem início com uma retomada do momento do século XVIII, em uma sociedade hierárquica, na qual cada sujeito tem o seu lugar social, e raramente anseia, ou muito menos alcança alguma mobilidade. Alfagali destrincha a formação das redes hierárquicas e o lugar ocupado pelos artesãos na arquitetura social do Antigo Regime, e explora as marcas que a escravidão imprimiu na sociedade brasileira do período.

Para a autora, o estudo busca contribuir para uma historiografia cujo protagonismo é sempre desses que são considerados os “de baixo”, em contraponto às tendências atuais de estudar a formação de redes de sociabilidades das nobrezas. A análise dos documentos, que envolveu principalmente fontes camarárias, cartográficas e eclesiásticas, revela a representação política dos artesãos na defesa de seus interesses. “Há um importante debate historiográfico, no qual alguns autores que vão qualificar essas pessoas dos estratos mais baixos da sociedade como se não tivessem lugar social. A partir desse estudo eu contribuo para mostrar que elas conseguem encontrar representação na câmara ou na sociedade. Eles não estavam calados, não eram desclassificados”, destaca a historiadora.

Reprodução
Desenho aquarelado a guache representa ndo o modo de fundir o ferro dos nativos em Nova Oeiras (Angola) | Imagem: IEB/USP, Coleção Alberto Lamego

Daí a importância da análise em voltar os olhares para a representação política de parcelas do povo que usam os instrumentos que estão a seu dispor para conquistar privilégios e garantir direitos. “Ainda estudamos pouco as formas pelas quais as pessoas comuns - e não apenas os filósofos, ou os grandes homens-, conseguem se articular a partir das ferramentas que lhe são dadas, e como eles defendem suas prerrogativas e conquistam seus direitos. Como os historiadores do Cecult (Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Unicamp) vêm alertando nos últimos 30 anos, vitimizar essas pessoas pode ser condescendência intelectual, porque você retira o potencial político do outro. Quem iria imaginar que a lide cotidiana de um ferreiro em Vila Rica poderia estar relacionada a questões mais amplas como a manufatura do ferro ou a Inconfidência Mineira?”, defende Alfagali.


SERVIÇO

Título: Em casa de ferreiro – Os artesãos do ferro nas Minas Gerais do século XVIII

Preço: R$ 46,00 (260 páginas)

Autor: Crislayne Alfagali

Editora: Alameda

Disponível em: http://www.alamedaeditorial.com.br/historia/em-casa-de-ferreiro-os-artesaos-do-ferro-nas-minas-gerais-do-seculo-xviii

 

Imagem de capa JU-online

“Em casa de ferreiro – Os artesãos do ferro nas Minas Gerais do século XVIII”