Entre a ficção e a trágica realidade

Das cenas que lembram filmes sobre catástrofes ao descaso da Samarco e dos governantes


O silêncio que calou vidas

Elaine Canisela Ferreira


No dia 5 de novembro de 2015, a pacata Bento Rodrigues foi protagonista de cenas de filme apocalíptico. Aproximadamente às 15h, um estrondo irrompeu o vilarejo, fazendo cessar a paz que reinava por aquelas bandas. Aos gritos, Alves, moradora local, em sua moto, passou alertando os moradores sobre o rompimento da barragem de Fundão. A notícia também circulou pelos rádios e celulares dos moradores.

A partir de então, foi um corre-corre para regiões mais altas, a fim de salvar vidas. Alguns instantes depois, a paisagem colonial do século XVIII se transformou em cenário desolador. Casas, carros, árvores, tudo arrastado pela lama. Acima do nível do rio, cerca de 15 metros de lama tóxica cobriram o que havia na região. Não sobrou quase nada.

As cenas descritas parecem enredo do filme de ficção de Roland Emmerich, 2012, que retrata uma série de catástrofes, dentre as quais megatsunamis destruidores de cidades como Washington D.C. e Rio de Janeiro. Entretanto, não se trata de um longa-metragem. Diferentemente da maioria dos filmes que apresenta finais felizes, a triste história de Bento Rodrigues, apesar de já ter sido literalmente enterrada, está longe de ter fim.

Naquela quinta-feira, 19 pessoas – dentre elas duas crianças, uma de 5 e outra de 7 anos – foram engolidas pela lama. Os que conseguiram se salvar passaram a conviver com a tristeza causada pela separação de pessoas queridas, pela perda de todos os seus bens e por uma memória que ficou ali enterrada. Suas vidas mudaram da “água para a lama”.

Com final diferente de filmes e de contos de fadas do tipo “e viveram felizes para sempre”, o enredo daquele dia terminou com a incerteza de um futuro feliz. Mas tudo isso poderia ter sido evitado, caso houvesse – e tivesse sido colocado em prática – um plano de emergência efetivo. Os moradores de Bento Rodrigues reclamaram, por exemplo, da falta de aviso sonoro no momento do acidente. Porta-vozes da Samarco disseram que avisaram à população por telefonemas.

Entretanto, não souberam detalhar quantas ligações foram efetuadas, nem para quem telefonaram. O que coloca em dúvida a efetivação desses telefonemas é o fato de que, no plano de ação de emergência da empresa, não consta o número de contato de nenhum morador do distrito, mas apenas de funcionários da Samarco, da Defesa Civil e da Prefeitura, a serem contatados em casos de emergência. Além disso, dos quatro números de agentes públicos relacionados, apenas dois estavam atualizados. Dentre os outros dois, um deles pertencia a um estudante; o outro, ao ex-chefe da Defesa Civil que, segundo informações de quem atendeu, estava sem atuar no órgão há pelo menos sete anos.

Reprodução
O antes e o depois da mesma construção | Fonte: Google e Reprodução/TV Globo

O plano de emergência para barragens, definido pela Portaria nº 526/2013, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), diz que “cabe ao empreendedor alertar a população potencialmente afetada”. Entretanto, no plano de emergência elaborado e entregue em 2014 pela Samarco ao governo de Minas consta que “a responsabilidade por avisar e remover as pessoas em risco iminente é da Defesa Civil”.

Já a Defesa Civil diz que só atua após a consumação dos desastres, ou seja, não previne acidentes. Além disso, o coordenador da Defesa de Minas Gerais, Helbert Lourdes, contou que o órgão não possuía cópia do plano de emergência, para atuação em situações de risco, e que foram avisados da tragédia pela PM, e não pela Samarco.

No Plano entregue ao governo federal, a Samarco reconhece como sua a obrigação de “alertar a população”, mas que, em casos de ruptura das barragens “as ações não são desempenhadas somente pela Samarco”, havendo também a necessidade de órgãos públicos contatarem a população. Apesar de reconhecer como sua a atribuição de alertar em caso de acidente, a mineradora não especifica como e quem seriam os responsáveis por cada tarefa.


Referências

AUGUSTO, Leonardo. Plano de emergência poderia ter evitado mortes em Mariana, diz presidente da Samarco. O Estado, Belo Horizonte, 5 abr. 2016. Disponível em: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,presidente-da-samarco-diz-que-plano-de-emergencia
-poderia-ter-evitado-mortes,10000024992
. Acesso em: 26 abr. 2016.

BERTONI, Estevão; PAMPLONA, Nicola. Estudos das Samarco não previa danos no rio Doce e em distritos de MG. Folha de S. Paulo, São Paulo e Rio de Janeiro, 15 dez. 2015. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/12/1719134-estudo-da
-samarco-nao-previa-danos-em-paracatu-e-barra-longa.shtml
. Acesso em: 2 maio 2016.

CAMARGOS, Daniel. Plano de emergência para barragens da Samarco era ineficaz, acusa Polícia Federal. em.com.br, Minas Gerais, 31 jan. 2016. Disponível em: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/01/31/interna_gerais,730015/plano-de-emergencia
-para-barragens-da-samarco-era-ineficaz-acusa-pf.shtml
. Acesso em: 26 abr. 2016.

FREITAS, Raquel. Famílias de vítimas do desastre de Mariana falam sobre perda e saudade. G1, Minas Gerais, 5 dez. 2015. Disponível em: http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2015/12/familias-de-vitimas-do-desastre-de
-mariana-falam-sobre-perda-e-saudade.html
. Acesso em: 20 abr. 2016.

Veja casas, escola e igreja de Bento Rodrigues antes e depois da lama. G1 MG com informações do Jornal Hoje, Minas Gerais, 24 nov. 2015. Disponível em: http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2015/11/veja-casas-escola-e
-igreja-de-bento-rodrigues-antes-e-depois-da-lama.html
. Acesso em: 26 abr. 2016.

Famílias de vítimas do desastre de Mariana falam sobre perda e saudade. G1 MG, Minas Gerais, 16 dez. 2015. Disponível em: http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2015/12/familias-de-vitimas-do-desastre-de-mariana
-falam-sobre-perda-e-saudade.html
. Acesso em: 26 abr. 2016.


Elaine Canisela Ferreira - Graduada em Letras pela Universidade Paulista (Unesp). Aluna especial do Mestrado em Divulgação Científica e Cultural no Labjor/IEL/Unicamp. Aluna regular do curso de Extensão “Mídia, Leitura e Comunicação”, do Projeto Correio Escola, na Faculdade de Educação da Unicamp. Atua como preparadora e revisora de textos. Voluntária do projeto “Blogs de Divulgação Científica da Unicamp”. e-mail: elainecanisela@gmail.com
 

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O coelho saiu da cartola: tempo não é dinheiro

Camila Brunelli

Traçamos, neste tópico, um paralelo de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, onde o coelho está personificado pelo diretor da Samarco, condutor de outra menina, a cidade de Mariana e tantas outras cidades na rota da lama, perdidas nesta triste e verídica história. Sempre recorrendo ao embasamento das notícias correlatas veiculadas.

No dia seguinte à tragédia, 26 horas passadas, o “coelho” saiu da toca, veio a público “fazer o que deve ser feito”, conforme slogan da mineradora Samarco. O diretor da mineradora, Ricardo Vescovi de Aragão, disse frases vazias em seu pronunciamento, na tentativa de (re)significar o descompasso do tempo e o que não se pode mensurar: o sofrimento das vítimas.

O representante da mineradora, em vídeo veiculado na página institucional da empresa no Facebook, narrou os fatos e explicou-se: “Venho a público falar, lamentavelmente, sobre o rompimento das nossas barragens, denominadas barragens de Fundão e de Santarém, que ficam na unidade de Germano, localizadas nos municípios de Mariana e de Ouro Preto”, disse ele, em contidas palavras. E seguiu em sua fala, ressaltando que todos os esforços, em conjunto com as instituições competentes, estavam sendo realizados de acordo com o Plano Emergencial de Barragens, para garantir o atendimento e a integridade das pessoas que estavam trabalhando ou que residiam próximas às barragens.

Foto: Reprodução
Ricardo Vescovi | Fonte: Facebook Samarco

Mostrou-se preocupado com os danos ambientais e encerrou rapidamente sua fala, reforçando que autoridades estariam prestando assistência e dando todo o suporte necessário. O diretor-presidente, representante de uma das maiores mineradoras do mundo, não soube informar a causa e a extensão do ocorrido. Parecia tão espantado quanto os moradores de Bento Rodrigues, tomados de surpresa pelo desastre ambiental sem precedentes.

Ricardo Vescovi de Aragão reproduz, em sua fala de um minuto e quarenta e seis segundos, a postura da mineradora: o silenciamento. Horas depois de seu pronunciamento, veio a confirmação do descaso da empresa frente à maior tragédia de todos os tempos, resumida na fala de Kleber Terra, diretor de operações e infraestrutura da Samarco: “Não é o caso de desculpas à população. Ainda não é hora de discutir os efeitos de médio e longo prazo”. O relógio deste coelho está atrasado.
 

“Tu eras pó e ao pó retornará”, do versículo ao meu verso

 

Camila Brunelli


Libertas quæ sera tamen – sorrio.

Só quem não ri é o Rio.

Do Doce bebi, amarga me tornei. Entornei.

Menina com íris de ferro, cobiçada. Cabelos compridos, correria mundos. 

Vesti o papel da ganância; ultraje me tornei! 

 

Ensaiei cada passo com contrapasso alheio; fui dirigida.

Compactada na coxia, cólera constante sofri; já não me reconheço.

Comi a terra, pó de outrora. Geofagia canibalesca? 

Com espessura máxima, fétida, cheia de rejeitos, grito: “Os rejeito!” 

Eis que tremo; a cortina se abriu. 

 

Primeiro ato: devasto. Quanto mais devasto, mais me perco. 

Arqueóloga de mim, reviro-me. Se é assim, construo meu palco! 

Afogo, entorpeço, carrego, silencio, mato. 

Tantos já brigaram por mim e sempre se acabam dentro de sete palmos meus. 

Conterrâneos, “conterrios”, a todos contem! A tudo contenho. 

Grotesco ato! 

 

Perdemo-nos dentro de nós mesmos!

Por vezes atônitos diante da veloz realidade que se toma.

Já somos – já sou – tudo o que há por fora. Não havendo mais diferenças no dentro.

Só é pele e lama a fina camada limítrofe. Só são nervos e barragens que nos prendem.

Sigo meu curso. 

Do Doce bebi, amarga me tornei. Entornei.

Meu estado de domínio ultrapassa suas fronteiras e encobre seu Sol, pois sopro nuvens que ofuscam.

Posso passar por seus significados, sem que percebam. Posso, ainda, trazer ventos que levantem a poeira do que entendem por chão. 

Em suas ondas, carrego a frequência do rufar do meu tambor.

 

E como em uma orquestra, posso ser o maestro e reger a sinfonia.

Escolher as partituras, não importando as notas, apenas o tom que quero que seja seguido.

Nesse compasso, faço e desfaço o palco no qual me apresentei. 

Mudei o cenário, o figurino; artistas seguiram meu triste texto.

A máscara que me colocaram para compor terrível papel caiu.

O público já parece ter decorado certas falas e certos atos nessa sinfonia.

 

Já não sei onde termina o diretor e onde eu começo; são tantos “eus”.

Meu papel, até então uno, era permitir a vida viver. 

As cortinas se fecharam; na escuridão, silencio. 

Fim do único ato. Não tocou sirene!

 

Camila Brunelli - Graduada em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda com ênfase em Marketing pela PUC-Campinas. Fotógrafa pela Escola de Arte e Design de Campinas. Aluna especial do Mestranda em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp. Curso de Extensão em Mídia, Leitura e Comunicação pela Unicamp. Voluntária no Hospital das Clínicas da Unicamp pela ONG Hospitalhaços. e-mail: camys15@hotmail.com


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Jogo de interesses


Rosana Gimael 

O que suja mais: a lama da barragem ou a lama das relações políticas? O descaso da mineradora reflete a corrupção que assola o país. O silêncio da Samarco diante de uma das maiores tragédias ambientais que o País já vivenciou explica muito bem a relação dos governantes com a natureza e com o povo: descaso total.

É sabido que, muito além da indiferença das autoridades, há um jogo de interesses escusos por trás dessa tragédia. Evidencia a falta de políticas públicas no que concerne à conscientização ambiental e aos impactos provocados diante do rompimento das barragens, no distrito de Mariana, em 5 de novembro de 2015.

O questionamento se faz pelas vozes – que não querem se calar. São as vítimas e uma maciça parcela do povo brasileiro vivendo uma situação político-econômica permeada pela corrupção deslavada: “O que suja mais: a lama da barragem ou a lama das relações políticas?”

É sabido, também, que o mar de lama com rejeitos de minérios riscou do mapa uma comunidade centenária, arrastou consigo pessoas, animais, nascentes, propriedades, histórias. Matou memórias. Destruiu fauna e flora ao longo do Rio Doce.

Esse mar de lama pesada provocou indignação em redes sociais e em todas as notícias circuladas. Protestava-se sobre o governo e seus acordos com empresas, no caso a Samarco, mais uma delas a fazer parte de negociatas, de acordos ilícitos. E coube às vítimas o papel da entrega do direito de dizer quem é ou não é sua vítima. Cruel? Infactível? Inaceitável?

Com o desejo de, na prática, dar visibilidade, dar voz às vítimas da barragem e dialogar com a sociedade sobre o crime ambiental, diversos movimentos sociais, organizações não governamentais, sindicatos de trabalhadores rurais e comunidades tradicionais se uniram para que os responsáveis assumam seus erros.

Resta saber até quando continuaremos sem resposta ou teremos a situação devidamente esclarecida, com respostas convincentes por meio de atitudes que calem o silêncio estupefato – para não dizer assombroso – que paira no ar.

 


 


Rosana Cristina Gimael: É formada em Letras, com especialização em Arte e Técnica de Tradução, ambos concluídos na PUC-Campinas. Mestranda em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp. Foi aluna do curso de extensão “Mídia, Leitura e Comunicação”, do Projeto Correio Escola, na Faculdade de Educação, na mesma Universidade. Professora há 35 anos, leciona Português nas escolas municipal, estadual e privada, e administra o blog Mergulhando nas Palavras: rosanagimael@blogspot.com.br É coautora da coleção didática “Gêneros Textuais e Redação”, pela Cia da Escolae-mail: rosanagimael@hotmail.com

 


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Foto: Reprodução

 

Imagem de capa JU-online

Casa em Mariana após o desastre | Foto: Reprodução