Pesquisa revela viés de queda na escolha por terapia hormonal

Estudo desenvolvido na Unicamp foi publicado na revista norte-americana Menopause

Uma das principais indicações para atenuar os sintomas da menopausa em mulheres de meia-idade, sobretudo as ondas de calor, é a terapia hormonal (TH) com estrogênio isolado ou associado à progesterona. Mas um estudo recente de doutorado desenvolvido na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) acaba de mostrar que hoje somente 19,5% das mulheres utilizam ou já utilizaram a terapia hormonal (TH) e que esse percentual vem caindo com os anos. Muitos médicos têm indicado, no seu lugar, terapia não hormonal à base de fitoterápicos ou outros tratamentos alternativos, nem sempre eficazes.

A pesquisa, de autoria da médica Poliana Cordeiro César Pacello e orientada pela docente da FCM Lucia Costa-Paiva, é baseada em um inquérito populacional da Região Metropolitana de Campinas (RMC) em que foram avaliadas 749 mulheres com idade entre 45 e 60 anos quanto a vários aspectos da menopausa. Esse trabalho gerou um artigo científico, publicado em janeiro na revista Menopause, da Sociedade Norte-Americana de Menopausa, referência na área. Os autores abordaram principalmente o tipo de tratamento que as mulheres utilizam. Outro artigo, já em andamento, também foi produzido, falando do uso da terapia não hormonal.

Foto: Perri
A médica Poliana Cordeiro César Pacello, autora da pesquisa: “Conhecemos estudos internacionais, mas não tínhamos dados brasileiros mostrando como é essa prevalência”

Em 2003, uma investigação realizada pelo mesmo grupo já havia mostrado que 37% das mulheres utilizavam ou já tinham utilizado a TH. Essa tendência à queda no uso de TH, que se confirma mundialmente, tem sido atribuída ao efeito de uma divulgação da Women’s Health Initiative (WHI) na mídia, em 2002.

Na época, os resultados do órgão foram divulgados na grande imprensa, antes de tê-los repercutido em revista especializada ou no meio científico. E ganhou vulto ao informar o risco aumentado de doenças cardiovasculares e de câncer de mama em mulheres que usavam a TH, sem explicar que o estudo não tinha considerado questões importantes como a idade das mulheres e a presença de doenças clínicas que inviabilizariam a inclusão dessas mulheres na amostra.

Segundo a docente, os riscos foram generalizados, e o tema gerou muitas polêmicas. A partir de então, a prescrição de TH passou a ser descendente, pois os médicos ficaram inseguros em prescrever o tratamento, pelos efeitos adversos da terapia; e as mulheres deixaram de usar a TH porque ouviram informações que colocavam em risco a sua confiança na reposição hormonal. 

Uma década após esse estudo, no qual se verificou uma queda vertiginosa no uso de hormônios mundialmente, hoje nos EUA só cerca de 5% das mulheres norte-americanas utilizam a TH. Esse número chegou a ser menor ainda: 2%. Na Europa, o uso não passa de 20%. Entre as mulheres orientais, como as tailandesas, por exemplo, fala-se em 13%. 

 

Dúvidas
Lucia Costa-Paiva realça que a pesquisa de Poliana se reveste de relevância ao trazer a informação do percentual de mulheres que busca tratamento nessa fase da vida, porque é sabido que sintomas da menopausa como ondas de calor são os mais prevalentes na população brasileira. “Mais de 70% das mulheres mencionaram que têm esses sintomas, porém, por desconhecimento, falta de orientação, medo do tratamento da menopausa, muitas acabam não se submetendo à TH.”

Na opinião da orientadora, quando realizada no momento oportuno, a TH pode melhorar vários aspectos da longevidade, prevenir doenças como osteoporose, secura vaginal, aspectos da sexualidade, insônia e doenças cardiovasculares. De modo bem-indicado, essas mulheres podem obter os benefícios imediatos do tratamento, para alívio dos sintomas, e lá na frente obter alguns benefícios secundários. Mesmo assim, ainda muitas mulheres optam por não fazerem reposição hormonal e enfrentam as ondas de calor até elas acabarem.

A tendência, com o passar dos anos, é que os sintomas diminuam quanto à ocorrência e quanto à sua intensidade. Por outro lado, há mulheres que terão que lidar com ondas de calor a vida toda.

A origem dessas ondas, salienta Lucia Costa-Paiva, pode estar ligada à ação do hormônio estrogênio no sistema nervoso central. Com a queda dos níveis hormonais, ocorre uma alteração nos neurotransmissores, entre eles na serotonina e na norepinefrina, que atuam no centro regulador da temperatura. Ao ficarem alterados, modifica-se o controle da perda de calor e as mulheres passam a ter ondas de calor, sudorese e suores noturnos.

Foto: Perri
A professora Lucia Costa-Paiva, orientadora: “Por desconhecimento, falta de orientação, medo do tratamento da menopausa, muitas acabam não se submetendo à TH.”

Por desconhecimento de uma série de fatores hoje superados, muitos profissionais entendem que, no passado, foram liberais demais ao indicarem estrógenos. “Indicávamos hormônios desde o início da menopausa até a pessoa ficar idosa. Agora sabemos que o procedimento não deve ser esse. Caso a caso deve ser avaliado e pelo menor tempo possível, visto que o tratamento longo tem risco sim”, alerta a professora.

Em sua opinião, o estudo do WHI foi ruim num primeiro momento, porque médicos, cientistas e pacientes ficaram confusos sobre o que estava em jogo. “No momento, sabemos que, quando usada para os sintomas da menopausa, a TH traz benefícios. E é consenso que o momento mais oportuno para a mulher iniciar a reposição é entre os 50 e 59 anos – primeiros dez anos de menopausa –, por apresentarem mais sintomas neste período”, expõe.


Associação
Poliana investigou os fatores associados ao uso ou não da TH. Observou que os fatores que levam as mulheres a usarem TH têm relação com o fato de elas estarem na pós-menopausa; terem menopausa cirúrgica (as que retiram os ovários, entrando na menopausa mais cedo); e terem um maior conhecimento sobre a menopausa. “Um estudo da nossa linha de pesquisa avaliou isso e constatou que, quando tem mais conhecimento e quando essas informações são passadas através de médicos ou dos serviços de saúde, a mulher tende a usar mais hormônio”, esclarece a orientadora.

Dessa forma, manter a paciente informada corretamente é uma das funções dos profissionais de saúde, para que ela possa, em conjunto, tomar a decisão mais acertada. “Temos procurado desmistificar o medo do hormônio e sugerir que ela decida o que gostaria de fazer”, ressalta. “Mas o que vimos pós-WHI é que muitas pessoas perderam dez anos de tratamento, sentindo desnecessariamente as ondas de calor. O médico sabendo dessas informações sobre a ‘janela de oportunidades’ (o momento ideal de utilizar o hormônio) e a mulher estando na fase sintomática, e não tendo contraindicações ao uso de estrogênio, poderá recorrer à TH.”

No estudo de Poliana, um fator que se associou também a um maior uso da TH foi a necessidade de interrupção do trabalho por ondas de calor. As mulheres faltam especialmente por causa desse sintoma e por isso acabam usando mais terapia hormonal. Lucia Costa-Paiva aconselha que, neste caso, também haja um maior envolvimento de quem está atuando junto a essas mulheres, trazendo mais flexibilidade no trabalho e fazendo algumas adaptações no local, como uma maior ventilação, para melhorar o conforto e a produtividade delas. “Muitos fatores são passíveis de modificação, como as informações e as condições de trabalho”, garante.

Poliana comenta que hoje são pouquíssimos os estudos de prevalência no Brasil e que por isso não se sabia qual seria o comportamento em relação à TH para o tratamento dos sintomas da menopausa. O seu estudo, acredita, foi relevante para verificar a opinião das mulheres e como os médicos estão se comportando frente a esses dados, depois do estudo do WHI. “Conhecemos estudos internacionais, mas não tínhamos dados brasileiros mostrando como é essa prevalência. Além disso, estamos falando da região de Campinas, que é bastante expressiva no Estado de São Paulo, e que certamente tem um importante impacto social.”

 

Imagem de capa JU-online

Em sala, em imagem frontal e de busto, mulher sentada em cadeira gesticula com a mão direita, mantendo o braço esticado para frente e a mão aberta e voltada para cima, enquanto o braço esquerdo permanece apoiado sobre uma suposta mesa que encontra-s à frente dela. Ao lado dela, à direita na imagem, há um monitor de lcd de cerca de vinte polegadas sobre uma mesa de madeira. Às costas dela, há uma grande parede azul. Ela veste jaleco branco e usa crachá no pescoço. Imagem 1 de 1.