Uma antropóloga e sua antropologia

Caminhos independentes marcaram a trajetória de Mariza Corrêa

“Quando a gente conta a vida da gente, a gente tende a fazer uma retrospectiva arrumada. Mas nunca é arrumada. As coisas vão acontecendo meio por acaso”, disse Mariza Corrêa – mais acostumada a contar as histórias dos outros do que a sua própria – em 2003, em entrevista publicada na revista Cadernos de Campo. Ao longo de sua vida acadêmica, ela percorreu dois caminhos independentes que se cruzaram em alguns pontos: os estudos de gênero e a história da antropologia. Essa aparente desarrumação é que tornou especial o seu legado, ainda pulsante um ano após sua morte, em 27 de dezembro de 2016.

Foto: Scarpa
A antropóloga Mariza Corrêa: estudos de gênero e a história da antropologia

Mariza chegou à Unicamp em 1976. Foi professora do Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) por 30 anos e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu, do qual foi uma das fundadoras e onde deixou importantes marcas. Como efeito, ela será homenageada neste semestre pela publicação Cadernos Pagu, que trará uma edição dedicada aos principais temas pesquisados por Mariza em sua trajetória, através de textos de quem conviveu com a antropóloga dentro e fora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

Para compreender a singularidade do legado de Mariza, é preciso olhar seu percurso desde o início. Antes de ser atraída pelo universo da antropologia, Mariza queria ser escritora e, por recomendação de um professor de português, foi estudar jornalismo. Acabou trabalhando em jornais de Porto Alegre, sua cidade natal, e Minas Gerais, além de ter integrado a primeira equipe da revista Veja, em São Paulo. Entretanto, a literatura continuava a chamá-la. Sonhava em fazer o mestrado com Antonio Cândido, até que um amigo a avisou: “Antonio Cândido jamais aceitará uma jornalista, ele abomina jornalistas”. Pouco depois Mariza descobriu, por meio do amigo e antropólogo Peter Fry, que não era preciso fazer literatura para contar histórias. Ela “podia fazer literatura disfarçada de antropologia”, como disse numa palestra em 2006, durante o 30º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). 

Apesar da mudança de rumos, Mariza manteve, dos tempos de jornalista, a delicadeza com as palavras e com as fontes. “Ela tinha fascinação por capas e era maravilhosa fazendo títulos como ninguém”, lembra Adriana Piscitelli, professora do Departamento de Antropologia do IFCH e pesquisadora do Pagu. Adriana foi orientanda de Mariza no mestrado e no doutorado, cultivando uma amizade também fora da academia. “Ela só parava de trabalhar para ler literatura. Adorava romances policiais”, conta.

Da paixão pelas histórias de ficção, veio a habilidade de colocar no papel os personagens da vida real. “O estilo de escrita contribuiu para que ela fosse bastante sensível na hora de escrever algumas histórias sobre pessoas que ainda estavam vivas quando foram publicadas”, avalia Christiano Tambascia, que foi aluno de Mariza e hoje é professor do Departamento de Antropologia do IFCH, atuando principalmente na área da história da antropologia.


O feminismo e os estudos de gênero

O interesse pelas questões de gênero chegou à vida de Mariza antes da história da antropologia: foi uma das duas mulheres de sua turma na escola normal a ingressarem no ensino superior e a única mulher em algumas das redações por quais passou. Importante lembrar, também, que ela viveu a onda feminista das décadas de 1960 e 1970, marcada principalmente pelas ideias de Simone de Beauvoir. Nesse período, Mariza viveu por dois anos e meio nos Estados Unidos, onde os movimentos feministas atuavam mais intensamente.

Quando retornou, no início dos anos 1970, o choque cultural fez com que ela percebesse de maneira mais gritante a violência contra a mulher no Brasil. Nasceu assim a ideia de sua pesquisa de mestrado em Ciências Sociais, sobre homens que assassinavam suas esposas e eram absolvidos pela Justiça. O trabalho foi defendido na Unicamp em 1975, sob orientação de Verena Stolcke, e resultou no livro Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais (Graal, 1983).

Os debates que corriam as ruas naquela década estavam presentes também dentro da Unicamp. Nessa época, Mariza integrava um grupo voltado a questões feministas, formado por alunas e professoras de Ciências Sociais. Elas organizaram, em 1978, 1979 e 1980, três edições da Semana da Mulher, evento dedicado a pesquisas e reflexões com essa temática. Ali estava a semente do Pagu, fundado oficialmente em 1993, mesmo ano em que foi criada a publicação Cadernos Pagu, referência dos estudos de gênero no Brasil.


Retratos e relatos da antropologia no Brasil

Mariza defendeu seu doutorado em 1982, na Universidade de São Paulo (USP), na área de Ciência Política, sob orientação de Ruth Cardoso. Publicado mais tarde como As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil (Edusf, 1998), o estudo mirou a trajetória do médico legista, antropólogo e professor Raimundo Nina Rodrigues e de seus discípulos, abrindo olhares também sobre a formação do campo das ciências sociais e da elite intelectual no Brasil. Estava plantada a semente da história da antropologia na caminhada de Mariza.

Pouco depois, em 1984, caiu em suas mãos o projeto História da Antropologia no Brasil (PHAB). A proposta partiu da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, à época na Unicamp, que queria ouvir e registrar o percurso de alguns antropólogos das primeiras gerações da disciplina. Quando o pedido de financiamento feito à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) foi aprovado, Manuela já havia se transferido à USP, passando o projeto a Mariza.

Foto: Scarpa
Adriana Piscitelli: “Ela só parava de trabalhar para ler literatura”

O projeto começou modesto, mas logo tomou novas dimensões. Surgiu a ideia de gravar as entrevistas em vídeo; novos entrevistados foram adicionados ao plano original; documentos e correspondências foram doados; o material cresceu. Em mais de 20 anos, com participação de diversos pesquisadores e estudantes, construiu-se um grande retrato da antropologia feita no Brasil ao longo do século 20: os eixos fundados da disciplina, as diversas fases e tendências pelas quais passou, a chegada dos cursos de pós-graduação na área, a “genealogia” das gerações e personagens que construíram o campo, e, por fim, a formação de uma identidade entre os antropólogos e antropólogas brasileiros e estrangeiros que atuavam no país.

“Creio que importa saber o quanto as pessoas que são parte de nossa história não são personagens descarnados, mas são pessoas como nós, sujeitas às mesmas pressões de seu tempo, envolvidas nas mesmas teias de amizade-parentesco-dívidas acadêmicas nas quais nós nos envolvemos”, escreveu Mariza em 2006, em homenagem aos 50 anos da Associação Brasileira de Antropologia (ABA).

Boa parte do acervo do projeto História da Antropologia no Brasil encontra-se no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), na Unicamp, e passa hoje por um processo de catalogação e digitalização, coordenado por Christiano Tambascia. O resultado também se distribuiu entre artigos e ensaios, como os que foram reunidos no livro Traficantes do simbólico & outros ensaios sobre a história da antropologia, lançado pela Editora Unicamp em 2013.

A coletânea traz os ensaios Traficantes do simbólico, Traficantes do excêntrico, A revolução dos normalistas e A antropologia no Brasil (1960-1980), além de depoimentos de Donald Pierson e Emilio Willems e entrevistas com Verena Stolcke e Ruth Cardoso. Apesar de não estarem no centro da discussão, as questões de gênero despontam aqui e ali. “Desde o começo, na introdução, ela fala das esposas dos antropólogos das décadas de 30, 40, 50, que iam para o campo também”, comenta Adriana Piscitelli.


Cruzamentos e legados

Ao longo do projeto História da Antropologia no Brasil, já envolvida com pensamentos e movimentos feministas, Mariza percebeu que muitas mulheres importantes dessa história apareciam sempre como coadjuvantes ou até mesmo como figurantes. Mesmo Dina Dreyfuss, anteriormente chamada Dina Lévi-Strauss, que, segundo Mariza, “se não era uma celebridade na história da antropologia, também não era uma desconhecida”, era pouquíssimo valorizada, geralmente tratada como “mulher de Lévi-Strauss” ou parte do “casal Lévi-Strauss".

Essas reflexões renderam, mais tarde, o livro Antropólogas e antropologia – uma brincadeira com o clássico do campo Antropólogos e antropologia, de Adam Kuper –, publicado em 2003 (Editora UFMG).  A obra apontou os papéis de gênero no fazer antropológico, resgatando, principalmente, as trajetórias de Emília Snethlage, Leolinda Daltro e Heloísa Alberto Torres. Essa foi uma das diversas vezes em que Mariza deixou que se cruzassem suas pesquisas em história da antropologia e em estudos de gênero.

As últimas pesquisas empreendidas por Mariza levantaram as relações entre gênero e corporalidades, abordando convenções do masculino e do feminino, intervenções médicas sobre o corpo, entre outros assuntos. Destaca-se o pioneirismo de seus estudos sobre intersexualidade e sobre a mutilação genital feminina e masculina, assuntos de grande relevância para a sociedade contemporânea e ainda pouco discutidos.

“Como antropóloga e feminista, Mariza mostrou, em sua obra e na sala de aula, que o trabalho intelectual para ser vigoroso exige um tipo específico de curiosidade que deve ser praticado com obstinação por todo pesquisador digno do nome. Não a curiosidade que procura assimilar o que convém conhecer, mas aquela que ‘nos permite separar-nos de nós mesmos’”, lembra Heloísa Pontes, que foi a primeira orientanda de Mariza e hoje é professora do Departamento de Antropologia do IFCH.

Para Adriana Piscitelli, essa curiosidade, somada ao desejo de encontrar novos enfoques e de provocar impactos políticos, foi transmitida por Mariza a seus orientandos e colegas. “Se você for olhar para as diferentes temáticas que foram sendo trabalhadas pelas pessoas que iam se incorporando no Pagu, de alguma maneira, têm esse espírito de trazer questões inovadoras”, explica.

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Ouça o programa de rádio Orelha de Livro (Editora Unicamp/Web Rádio Unicamp), sobre o livro Traficantes do simbólico & outros ensaios sobre a história da antropologia, em homenagem a Mariza Corrêa.

 

Veja o vídeo com depoimentos sobre Mariza Corrêa produzido pela Editora da Unicamp

Imagem de capa JU-online

A antropóloga Mariza Corrêa | Foto: Antonio Scarpinetti