Os desafios da construção coletiva

O ano é 2016. Primeiro semestre. Alunos de diferentes formações e vivências em mais uma turma da disciplina Linguagem: Jornalismo, Ciência e Tecnologia, no Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp, sob minha responsabilidade. A demanda de alunos regulares e especiais foi muito grande. Quase 40 inscritos. Expectativas multifacetadas. Sem dúvida, um novo desafio. O programa da disciplina contemplava uma discussão e reflexão sobre os elos entre Comunicação e Ciência, a partir dos estudos de Jornalismo, suas teorias e práticas, associadas às narrativas, discursos, retórica, ideologia e ética. Entender, na perspectiva do discurso, as vozes e os silenciamentos presentes na mídia, suas contradições e seu papel na sociedade.

Nos primeiros dias de aulas, a exposição do programa, distribuição dos temas dos seminários, da proposta de trabalho final da disciplina, a ser elaborada individualmente ou em grupo, como ocorre sempre. Em pauta alguns temas que poderiam ser explorados pelos alunos. A proposta vencedora foi a elaboração de um livro coletivo sobre a tragédia de Mariana de 5 de novembro de 2015, com 19 mortos e de grande impacto ambiental, com repercussão nacional e internacional, tema relevante e atual.

Decidido o desafio, o título do livro: Vozes e silenciamentos em Mariana: crime ou desastre ambiental? foi inspirado na obra Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear, da escritora bielorrussa Svetlana Alexievich, prêmio Nobel de Literatura de 2015. O título deste livro sobre Mariana reflete, também, os estudos de Discurso na Mídia, suas controvérsias e silenciamentos.

Desde o primeiro momento da apresentação do projeto original para a turma, muitas versões, sugestões, crises, participação entusiasmada da maioria. Passado o deadline inicial para as notas da disciplina, nova tarefa: aproveitar aquele material inédito e transformar em um livro. O material era rico em nuances, detalhes, mas exigia um rigoroso olhar editorial para se transformar em livro. Trabalho de alguns dos autores entusiasmados, que foram também editores, revisores, até chegar ao formato atual, em que organizamos um grupo para a edição final e projeto gráfico. Este grupo, integrado por mim e Adriana Menezes (editoras finais), Camila Brunelli (editora de fotos) e Fabiana Grassano, responsável pelo projeto gráfico e editoração, se reuniu várias vezes, tantas quantas seus compromissos profissionais, acadêmicos e pessoais permitiram. O projeto foi algumas vezes adiado, mas, em nenhum momento desistimos, pela riqueza do material coletado e investimento dos alunos em um projeto de fôlego.

Para melhor compreensão dos riscos de tragédias ambientais, o livro Vozes e silenciamentos em Mariana: crime ou desastre ambiental? não se limita a recuperar e relatar o desastre de Mariana e sua repercussão. Na verdade, queríamos entender a política ambiental, sua relação com a economia. Verificar a formação dos engenheiros de minas, secular no Brasil e ainda precária. Pesquisas bibliográficas foram realizadas. Para olhar de perto o que aconteceu em Mariana, um grupo de alunos se deslocou até o epicentro da tragédia. Cientistas de diferentes áreas do conhecimento foram entrevistados, assim como jornalistas, políticos e representantes do poder judiciário. Uma linha do tempo construída para registrar as primeiras horas após o rompimento da barragem. A memória da tragédia e a perda dos referenciais dos moradores também foi objeto de um dos capítulos, assim como a (re)leitura dos fatos, da representação na mídia nacional e internacional, sob a ótica poética de autores consagrados e de crônicas criativas dos alunos. Por fim, um ensaio fotográfico sob as lentes de alunos que lá estiveram.

No capítulo 1, Meio Ambiente, Política e Economia: uma difícil equação, foi discutido um pouco da Política Ambiental brasileira, seus atores, legislação. Um pequeno inventário dos principais desastres ambientais do mundo; da mineração que é explorada ainda de forma arcaica, da formação de engenheiros de minas, também precária, como ponto de partida para discutir as causas e conseqüências da tragédia de Mariana.

No capítulo 2, A vida antes da tragédia, uma tentativa de contar a rotina dos moradores de Bento Rodrigues, o histórico da Samarco, empresa responsável pela barragem, as relações com a empresa e poder público local, a dependência econômica da mineração, a ausência de fiscalização e a responsabilidade empresarial.

No capítulo 3, Da água para a lama, uma espécie de túnel do tempo, registros fotográficos e narrativas mostrando os minutos mais importantes das primeiras 26 horas da tragédia. Os autores também construíram em prosa e verso suas percepções e emoções sobre Mariana. Lançaram mão ainda da intertextualidade com a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e recontaram a vida de Seu Totó, morador de Bento Rodrigues, vítima fatal da tragédia.

No capítulo 4, Viagem ao epicentro, a visita de um grupo de alunos ao local da tragédia, contando as histórias pela voz dos habitantes de Bento Rodrigues, pesquisadores da região, autoridades locais e estaduais, das ajudas que não chegaram a tempo, promessas não cumpridas, vidas suspensas, memórias interrompidas.

No capítulo 5, O desastre ambiental, as possíveis causas e explicações da tragédia anunciada e suas contradições. A responsabilidade ambiental da empresa e do setor público; a repercussão nacional e internacional e, principalmente, os impactos ambientais ainda imensuráveis provocados pelo rio de lama de difícil recuperação na visão dos especialistas.

No capítulo 6, Vozes e visibilidade, as narrativas da mídia, com suas lacunas, controvérsias no relato da tragédia. A importância da formação dos jornalistas científicos para coberturas de crises, as fontes e vozes dissonantes, os múltiplos sentidos e enquadramentos do desastre, em seus títulos e textos; o papel das redes sociais, as fotos e caricaturas que ajudam a compor, dar sentido e dimensionar o imaginário popular.

No capítulo 7, Memória e esquecimento, a identidade dos personagens, os esquecimentos, a memória (re)construída e perdida; as lições, a preocupação com o futuro, os desafios para evitar 12 Vozes e silenciamentos em Mariana que novas tragédias anunciadas, como essa, ocorra novamente por irresponsabilidade empresarial e falta de fiscalização do poder público.

Nos diferentes capítulos, as narrativas não são padronizadas. Refletem os diferentes estilos, envolvimento e emoções dos diversos grupos, no processo de apuração e redação do conteúdo. Múltiplas visões e percepções aqui reunidas para dar voz e algum significado à tragédia de Bento Rodrigues, em Mariana.

Toda obra é aberta, inacabada. A história continua a ser tecida. Este é um entre muitos outros relatos daquele período de novembro de 2015. Um relato abraçado pelos alunos que viam no projeto a possibilidade de colocar em prática suas percepções e algumas das ideias discutidas em sala de aula. O lançamento do livro estava previsto para novembro de 2016, quando a tragédia completou um ano. Mas não tivemos fôlego para tanto. Do projeto original mais ambicioso, impresso e digital, optamos pelo digital, não só pelo custo, mas também pela possibilidade de maior circulação.

Desde então, não foram poucas as reportagens especiais sobre o desastre de Mariana, exposições fotográficas, documentários, entre outras manifestações artísticas. Em janeiro de 2017 foi lançado o livro Desastre no Vale do Rio Doce-Antecedentes, impactos e ações sobre a destruição, organizado por Bruno Milanez e Cristiana Losekan. As leituras da tragédia são muitas e multifacetadas. Em março de 2017 foi lançado o livro Avaliação dos Riscos em Saúde da População afetada pelo desastre de Mariana, resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade (ISS). Contou com a atuação de pesquisadores independentes de universidades e institutos brasileiros e com recursos de doações captadas pelo coletivo Rio da Gente, sob a coordenação do Greenpeace. As leituras da tragédia são muitas.

O desastre de Mariana e o impacto ambiental na região foi também tema de uma ala da Portela, no carnaval de 2017, com o tema “Um rio que era doce”. Em 24 de junho de 2017, os mineiros de Poços de Caldas puderem ver no Instituto Moreira Salles fotos do ensaio fotográfico A lama: de Mariana ao mar, de Cristiano Mascaro e de seu filho, Pedro Mascaro, publicadas originalmente na edição n.118 de julho de 2016, da revista Piauí, em reportagem “A terra devastada – as marcas da tragédia sete meses depois”. Outras obras estão sendo gestadas. Muita história para contar. Manter viva a memória do desastre é essencial para evitar o esquecimento.

A retomada das operações de mineração da Samarco continuam suspensas. No dia 23 de maio de 2017 foi realizada uma audiência pública com a participação de cerca de 400 pessoas, entre empregados da Samarco, fornecedores, empresários, deputados e o prefeito de Mariana. O tom geral foi pela retomada de funcionamento da mineradora, principal fonte de recursos da região. Enquanto isso, os moradores de Bento Rodrigues afetados pelo desastre continuam com suas vidas em suspenso.

Não são poucos os desastres ambientais que continuam povoando o imaginário das pessoas, com seus efeitos sobre os impactos ambientais e riscos à saúde das pessoas. Alguns dos mais conhecidos são da área de energia nuclear: o desastre de Chernobyl, em 26 de abril de 1986, e o da central nuclear de Fukushima, em 2011, no Japão, cujos efeitos de radiação continuam. No Brasil, em 13 de abril de 1987, por negligência, ocorreu o acidente por radiação do Césio 137, em Goiânia, retratadas em obras do artista plástico Siron Franco, para não ser esquecido. Em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, a população convive com os temores de funcionamento das usinas Angra 1 e 2, enquanto se discute o término da Angra 3, em um país que não depende da energia nuclear, que representa apenas 2,5% da matriz energética, majoritariamente de origem hidroelétrica.

Na área de mineração, os riscos várias vezes anunciados, como ocorreu em Mariana, são ignorados pelas empresas e falta fiscalização pública. Acidente? Tragédia? Desastre? O rompimento da barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, poderia ter sido evitado? Vários especialistas garantem que sim. As fissuras eram evidentes.

No percurso da elaboração deste livro, contamos sempre com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor, na figura de seu coordenador, professor Rafael Evangelista, e da professora Simone Pallone, coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento e Criatividade (Nudecri), que assina o prefácio.

Decorridos quase dois anos da tragédia, pouca coisa mudou. Muitas questões continuam em aberto e os efeitos do desastre ainda são visíveis. No dia 4 de julho de 2017, a Justiça Federal de Ponte Nova (MG) suspendeu o processo criminal contra as empresas: Samarco, Vale, BHP Billiton e VogBG. Enquanto isso, os moradores de Bento Rodrigues continuam esperando retomar suas vidas. No rio que era Doce, rastros da destruição. Neste livro, um pouco da história da mineração, sua exploração precária e o rompimento da barragem do Fundão, em Bento Rodrigues. Para ficar na memória e não se repetir. Vale a pena conhecer.

Graça Caldas - Jornalista, pesquisadora, professora do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor/IEL/Unicamp

 

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JU publica livro sobre a tragédia de Mariana

Prefácio

Agradecimentos

Nossa interminável redescoberta