A universidade segundo Fausto Castilho

Há pouco mais de dois anos, já não contamos mais com a presença de Fausto Castilho. Filósofo e professor emérito da Unicamp, ele foi e sempre será referência internacional. Seus trabalhos incluíram a tradução de diversas obras de Sartre, Descartes, e também de Heidegger, um dos principais interesses de Fausto, que, inclusive, foi aluno do filósofo alemão e também traduziu, pela editora Unicamp, Sein und Zeit (Ser e Tempo). Além disso, ele teve participação direta na criação da Unicamp, tendo integrado a Coplan (Comissão de Planejamento da Unicamp) e participado ativamente das Humanidades, sobretudo na implantação do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas).

O legado de Fausto Castilho transcende a área da filosofia. O leitor poderá tomar ciência disso ao ler “O conceito de Universidade no projeto da Unicamp”. Neste livro em formato de entrevista, organizado pelo também filósofo e professor Alexandre Guimarães Tadeu de Soares, Fausto Castilho não só revela suas participações e contribuições para o projeto da Unicamp, mas também traça um cenário geral sobre as dificuldades de implantação da universidade moderna no Brasil. O livro está estruturado em duas partes e contém dois bônus: o memorando de Humboldt que trata Sobre a Organização Interna e Externa dos Estabelecimentos de Ensino superior, traduzido diretamente por Castilho, do alemão para o português, e um CD-ROM com anexos.

Na primeira parte, Fausto Castilho traça um histórico da questão da implantação da universidade moderna em nosso país, no qual defende a tese da multissecular inexistência de Universidade no Brasil. Para defender esse ponto de vista, ele parte desde o século XVIII, por diversas questões do Brasil e da Península Ibérica, da Igreja, pelo Malogro da Reforma Pombalina, que prometia modernizar o Estado e a Educação, e constrói o que chama de “Sistema Brasileiro de Ensino Superior”, que é uma "anomalia gerada no século XIX e aos poucos montada a partir de decisões de Dom João VI. Este no lugar de propor-se a criação de uma universidade moderna [...] passa a criar escolas isoladas, de mero treinamento profissional, para preparar servidores do estado" (CASTILHO, 2008, p.37). Este modelo de ensino, que parece ainda existir paralelamente às Universidades que hoje temos, é caracterizado “pela negação da Universidade, onde predomina o ensinismo, profissionalismo, isolacionismo, privatismo, autodidatismo e substituísmo (CASTILHO, 2008, p.42-44).

Dessa maneira, a ideia de Fausto Castilho, no primeiro capítulo, é mostrar as dificuldades de implantar uma Universidade Moderna em um país que não tem anterioridade nesse sentido. Logo em seguida, ele adianta, ainda no primeiro capítulo, o conceito de Universidade Moderna, a partir do modelo alemão. Devemos lembrar que, uma vez que o texto de Humboldt está disponível na íntegra ao final do livro, é mister indicar sua leitura. Por fim, o capítulo encerra tratando de alguns pontos da história da USP, da UnB e da Universidade Federal de São Paulo no ABC, que eram instituições jovens ou recém-criadas, mas já traziam alguma experiência para a Unicamp, ao não precisar mais partir do zero absoluto.

Na segunda parte do livro, onde já trata da Unicamp, Castilho enfatiza os diferenciais dessa Universidade e suas contribuições, onde o ponto mais reforçado é a questão do Campus Radial, que, inclusive, foi sua ideia. A partir da observação da implantação das outras Universidades, como a USP, viu-se que a questão arquitetônica do campus é crucial para o funcionamento da universidade como um organismo.

Deste modo, ele propõe o campus radial e inclusive o coloca como condição para participar da Coplan (CASTILHO, 2008, p.18), quando é convidado. Para ele, o campus é “a via institucional capaz de manter integrada a universidade” e, dentro dessa premissa, o modelo de campus radial é a melhor solução para garantir a sua integração entre discentes e docentes, órgãos e departamentos, garantindo o funcionamento em seu sentido de universidade e em sua interdisciplinaridade. Quem tem ou já teve a oportunidade de frequentar o campus radial de Barão Geraldo constatará que a obra cristaliza essa questão, pois após tomar conhecimento dos argumentos ali presentes, é possível perceber as vantagens desse modelo na prática.

Castilho também contribuiu com o corpo docente da Universidade, trazendo diversos nomes importantes para as Humanidades, e foi o responsável pela criação do Depes (Departamento de Planejamento Econômico e Social) que mais tarde se desmembraria em mais unidades, sendo, uma delas, o IFCH, do qual foi o primeiro diretor. Ele também discorre sobre o grupo de historiadores, o grupo de Antropologia e o Grupo de linguística, sobre os quais também há um CD-ROM com diversos documentos digitalizados. Por fim, antes de terminar sua entrevista, deixa uma provocação, em relação ao momento atual do ensino universitário: “não seria oportuno retomar o exame do modelo educacional na perspectiva da universidade ampla?” (CASTILHO, 2008, p.175).

Como pode-se ver, O conceito de universidade no projeto da Unicamp é muito mais do que um livro sobre a Unicamp. É uma reflexão completa, densa, sobre as dificuldades de implantação e manutenção de universidades modernas no Brasil e sobre o ensino superior. Trata-se de uma leitura obrigatória para todos que se interessam pelo tema e também para toda a comunidade da nossa Universidade.

 

Foto: Reprodução
SERVIÇO

Título: O conceito de universidade no projeto da Unicamp

Autor: Fausto Castilho

Organização: Alexandre Guimarães Tadeu de Soares

Páginas: 208

Preço: R$ 30,00

 

Editora da Unicamp

http://www.editoraunicamp.com.br/