Knobel defende diálogo, trabalho e transparência para superar problemas

Futuro reitor da Unicamp, que tomará posse no dia 19 de abril, anuncia que primeiras medidas da nova gestão promoverão corte de despesas da Universidade

O físico Marcelo Knobel, de 48 anos, tomará posse no próximo dia 19 de abril como o 12º reitor da Unicamp. Ele assumirá a Universidade com a missão de superar desafios importantes, como equacionar o orçamento da instituição, fortemente afetado pela recessão econômica brasileira. “Certamente teremos que começar a gestão adotando uma série de medidas de contenção de despesas”, avisa. Knobel fez uma pausa nas reuniões que vem realizando com o propósito de formar a sua equipe de trabalho e de desenhar as primeiras ações da sua gestão para falar ao Jornal da Unicamp. Na entrevista que segue, o docente aborda questões como crise financeira, administração transparente, internacionalização, cotas étnico-raciais, revigoramento do Cruesp e ampliação do número de vagas na graduação, entre outros temas fundamentais às atividades da Universidade.

Foto: Antoninho Perri
Marcelo Knobel será o 12º reitor da Unicamp, na linha sucessória de Zeferino Vaz, fundador da Universidade


Jornal da Unicamp – A Unicamp passa por uma crise financeira sem precedentes como reflexo da recessão econômica que afeta o país. Que estratégias o sr. pretende adotar para enfrentar esse quadro?

Marcelo Knobel – Estamos neste período de transição, no qual estamos estudando mais detidamente os números. A questão orçamentária nos preocupa. A crise no país não dá sinais de melhora. Não há perspectiva de avanço em curto e médio prazo. Certamente teremos que começar a gestão adotando uma série de medidas de contenção de despesas, na tentativa de obter um efeito imediato. Uma delas se refere principalmente à reposição de quadros. Não vamos conseguir promover, no mesmo ritmo que a Unicamp vinha fazendo, a reposição das vagas geradas por aqueles que vão se aposentando.

Também vamos ter que olhar todas as certificações de órgãos. As que foram aprovadas serão implementadas. Vamos ter que rever, ainda, a questão das gratificações. Como foi afirmado na campanha, vamos acabar com a dupla matrícula na Administração Superior. Também vamos renegociar os grandes contratos que a Universidade tem. Infelizmente, vamos ter que adotar soluções drásticas no sentido de cortar custos, visto que a situação é preocupante.

Além disso, também vamos analisar outras ações que possam otimizar os recursos que são repassados pela sociedade à Unicamp. Outra tarefa importante é buscar novos recursos, principalmente no que se refere à área da saúde. Este é um processo mais lento, mas que tem que ser iniciado imediatamente, por meio do diálogo com o governo do Estado.


JU – O subfinanciamento da área da saúde da Unicamp vem de largo tempo. Que providências o sr. acredita ser possível adotar para equacionar problema?

Marcelo Knobel – A USP e a Unesp conseguiram, em outros momentos, renegociar com o governo do Estado, de diferentes maneiras, o financiamento de suas áreas de saúde. A Unicamp foi a única que não fez isso. Nós temos uma área de saúde fundamental para o atendimento da população da Região Metropolitana de Campinas e além, cujas atividades são financiadas por recursos orçamentários, o que traz um impacto imenso para as contas da Universidade. Traz também impacto para a própria área de saúde, que não consegue crescer como deveria. Esta é uma situação que temos que mostrar para a sociedade e para as autoridades, no sentido de abrirmos diálogo para solucionar definitivamente a questão do subfinanciamento.


JU – Como deve ser feita essa articulação com o governo do Estado?

Marcelo Knobel – Essa articulação precisa ser feita em várias frentes. Uma dessas frentes é representada pelos usuários do nosso sistema de saúde, que vêm de diversos municípios. Nossa disposição é de chamar os prefeitos, os deputados estaduais e os deputados federais para mostrar a situação atual e quais são os impactos do subfinanciamento. A partir daí, vamos articular o diálogo com o governo do Estado. Não é uma tarefa simples, dado que o Estado também está com a situação financeira complicada, mas é algo que precisa ser feito.

Foto: Antoninho Perri


JU – O sr. já tem definidas ações para incrementar os recursos extraorçamentários da Unicamp?

Marcelo Knobel – Em curto prazo, não. Naturalmente, temos a possibilidade de implementar o nosso Parque Tecnológico, com o propósito de atrair empresas que possam aproveitar o potencial da Unicamp e a Universidade aproveitar o potencial dessas empresas. Mas isso é algo que precisará de algum tempo para ser consolidado.


JU – Como preservar a qualidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão num cenário de recessão econômica?

Marcelo Knobel – Na nossa visão, a melhor defesa da universidade pública é manter e, na medida do possível, ampliar as atividades-fim, buscando melhorias na qualidade. Uma das alternativas nesse sentido é melhorar os processos. Muitos deles são longos e demorados. Não é incomum, por exemplo, termos problemas com as licitações. Algumas obras demoram muito para ser concluídas, o que faz com que fiquem mais caras. Há trâmites burocráticos que igualmente dificultam a contratação da Unicamp por parte das empresas, no caso de prestação de consultorias. Esses são pontos que precisam ser atacados. Além disso, precisamos informatizar algumas áreas, o que poderá reduzir a demanda por reposição de quadros em curto e médio prazo.


JU – Existe uma cobrança por parte da sociedade para que a Unicamp ofereça mais vagas em seus cursos de graduação. O sr. acredita ser possível atender a essa expectativa, diante do atual quadro recessivo?

Marcelo Knobel – Como Universidade pública, nós temos sempre a obrigação de pensar em ampliação de vagas. É uma necessidade, principalmente se levarmos em conta que somente 15% dos jovens de 18 a 24 anos estão na universidade. Desses 15%, 75% estão em instituições privadas. Então, é sempre uma obrigação da universidade pública pensar em ampliação do acesso. Mas isso só poderá ocorrer se repensarmos os nossos currículos, se revermos a maneira como ensinamos, se reavaliarmos as estratégias de ensino e aprendizagem que adotamos. Nesse sentido, acredito ser possível, sim, pensarmos em ampliação de vagas.

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JU – A ampliação de vagas pode ser um argumento a ser apresentado do governo ao Estado, dentro do esforço para equacionar o financiamento da Universidade?

Marcelo Knobel – Sem dúvida. Este aspecto tem que fazer parte do processo de diálogo ao qual me referi. Ao equacionar o seu financiamento, a Universidade passa a ter maiores condições para atender a um público cada vez maior.


JU – Por falar em ampliação do acesso à Universidade, que posição o sr. tem em relação à adoção de cotas étnico-raciais pela Unicamp?

Marcelo Knobel – Uma coisa é certa: temos que ter a sociedade representada na nossa Universidade. O ProFIS [Programa de Formação Interdisciplinar Superior], que eu ajudei a criar, mostrou muito bem isso. No momento em que criamos o programa, nós trouxemos para a Universidade um perfil de estudante que nunca havia ingressado na instituição. E esse estudante é fundamental para a Unicamp.

Em nosso programa de gestão, nós colocamos muito claramente que é preciso adotar uma série de ações diferenciadas que permitam a ampliação do acesso à Universidade. Seja por meio da adoção de cotas étnico-raciais, seja através da atualização do Enem, como forma de ampliar a área de abrangência desse ingresso, seja pela ampliação do ProFIS, seja pela manutenção do PAAIS [Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social]. A ideia é que todas essas iniciativas permitam uma abertura maior da Universidade.

Mas é preciso observar um aspecto importante. Não basta ampliar somente a porta de entrada. Também é preciso ter um programa de permanência, que permita que estes estudantes se mantenham na Unicamp, tanto sob o ponto de visto socioeconômico quanto das eventuais lacunas educacionais que eles possam trazer das fases anteriores. Queremos trabalhar o tripé formado por acesso, permanência e desenvolvimento acadêmico.


JU – Em seu plano de gestão o sr. identifica a presença de “uma crise política que cria antagonismos desnecessários entre os vários segmentos, com reflexos na imagem da Universidade perante a opinião pública e nas nossas condições de trabalho”. Como contornar esse fator?

Marcelo Knobel – A melhor resposta para isso é o diálogo. Nossa estratégia será sempre a de estarmos abertos ao diálogo, mas trazendo o que talvez seja um elemento novo: a transparência total dos dados disponíveis. Nessa linha, uma das iniciativas será a criação do Portal da Transparência, que disponibilizará todas as informações sobre finanças, contratos, licitações etc. Tudo o que fizermos na Universidade terá que ter transparência total. Isso abrirá uma maneira de conversar baseada na franqueza, na busca pelas melhores soluções para os problemas. Além disso, toda e qualquer medida que traga impacto econômico para a instituição terá que ser aprovada pelo Consu [Conselho Universitário], que é o órgão colegiado responsável pelas deliberações máximas da Universidade.

Foto: Antoninho Perri


JU – A transparência total defendida pelo sr. também é uma estratégia de aproximação com a sociedade, que por vezes se mostra insatisfeita com o retorno proporcionado pela universidade pública?

Marcelo Knobel – Sem dúvida. Hoje a sociedade mudou e exige essa transparência total por parte das instituições públicas. Afinal de contas, nós somos uma Universidade mantida pelos tributos pagos pelo cidadão. Esta é uma obrigação que vamos cumprir e que sem dúvida vai fazer parte de um processo de estreitamento de diálogo com a sociedade. Nesse processo, outro elemento fundamental é a comunicação. De maneira geral, as universidades públicas – a Unicamp em particular - têm feito um grande esforço para demonstrar quais são os benefícios das atividades de ensino, pesquisa e extensão para a sociedade. Mas isso não tem sido suficiente. As poucas notícias negativas acabam atraindo mais a atenção que as centenas de notícias positivas que a gente tem mostrado sobre os resultados das pesquisas ou da formação de recursos humanos qualificados. Então, nós vamos ter que realinhar a comunicação, no sentido de sermos mais proativos e de mostrarmos a real importância da universidade pública para o Brasil.


JU – A esse propósito, com alguma frequência a universidade pública sofre críticas por parte de diferentes correntes, que alegam que ela devolve pouco à sociedade, tendo em vista os recursos públicos que consome. Em seu plano de gestão, o sr. defende a necessidade de a Unicamp retomar o protagonismo em defesa da universidade pública. Como isso deve ser feito?

Marcelo Knobel – Nós acreditamos que a Unicamp não tem ocupado adequadamente os espaços institucionais que poderia ocupar. A Universidade tem estado voltada para suas questões internas, embora tenhamos espaços de atuação para além dos nossos campi. Temos secretarias municipais e estaduais, comissões em diversos níveis, sociedades científicas, Ministério da Educação, Ministério da Ciência e Tecnologia etc, que são espaços nos quais podemos atuar, de diferentes maneiras, na defesa da universidade pública.

Além disso, precisamos responder adequadamente aos ataques que a universidade pública sofre. Temos que mostrar de maneira efetiva todos os benefícios que a universidade pública traz. Nós temos que ser capazes de esclarecer para a sociedade o que seria do Brasil se a Unicamp não existisse. Temos que mostrar para o país que as novas gerações não terão futuro se universidades como a Unicamp deixarem de existir.


JU – O sr. tem grandes desafios a enfrentar, e para isso precisará de uma equipe coesa. O senhor já definiu os nomes que comporão a Administração Superior da Universidade?

Marcelo Knobel – Ainda não. Estou trabalhando nisso. É uma tarefa difícil. Tenho até a data da posse [19 de abril] para definir os nomes.

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JU – Mas qual será o perfil dos dirigentes que comporão a sua gestão?

Marcelo Knobel – Teremos uma renovação importante na equipe de pró-reitores. Vamos contar com professores jovens, dinâmicos e tecnicamente capazes de enfrentar os desafios que teremos pela frente.

JU – Na entrevista que concedeu minutos após a divulgação do resultado da consulta à comunidade universitária, o sr. disse de forma espontânea que sua ficha ainda não havia caído. Agora, com sua nomeação efetivada pelo governo do Estado e às vésperas da posse, como o sr. avalia o desafio de comandar uma das melhores universidades da América Latina, num cenário que se apresenta adverso?

Marcelo Knobel – Eu construí minha carreira de maneira muito rápida, muito atuante na Universidade como um todo. Os desafios sempre fizeram parte da minha vida, e eu encaro a missão de dirigir a Unicamp como mais um desafio. Obviamente, será o mais complexo e importante da minha carreira.

Uma das minhas principais características é ter capacidade de formar equipe, de escolher pessoas que atuam de forma coesa. Eu não sou centralizador. Gosto de trabalhar em equipe, e acredito que a Universidade conta com muita gente capaz. Também acredito que, superando este momento de crise financeira e política, nós poderemos dar uma virada e trabalhar num projeto que permita que a Unicamp retome o seu protagonismo, que é tão importante para o Brasil.


JU – Nos últimos anos, o Cruesp perdeu força por causa de vários episódios, entre eles decisões unilaterais por parte das universidades que o integram. Como o sr. entende que deve ser o papel do Conselho daqui para frente?

Marcelo Knobel – O Cruesp é fundamental dentro do esforço de defesa das universidades públicas. O Conselho realmente se enfraqueceu nos últimos anos, em decorrência de decisões unilaterais de algumas universidades. Nesse aspecto, nós também vamos procurar o diálogo. Obviamente, as três universidades paulistas atuando de forma conjunta têm muito mais força do que cada uma delas isoladamente. Todos os reitores sabem disso.

Nós vamos trabalhar com o objetivo de recuperar o papel do Cruesp como articulador da defesa dos interesses das universidades estaduais paulistas. Faremos isso com toda tranquilidade. Já conversei com os reitores da Unesp e da USP, e certamente teremos um diálogo muito tranquilo e muito franco nesse sentido.

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JU – O sr. afirmou que tomará uma série de medidas com o objetivo de buscar um maior equilíbrio orçamentário. Dentre essas ações, qual será a de número 1?

Marcelo Knobel – Nós estamos preparando essa ação, que evidentemente terá a ver com a questão orçamentária. Vamos ter que agir com muita cautela no início. Vamos segurar um pouco as coisas, possivelmente por um período limitado, mas que permita avaliar com mais cuidado a situação. Vamos ter que frear o nível de gasto da Universidade, o que não é novidade para ninguém, dado que já vínhamos discutindo isso desde a campanha. Ainda estamos elaborando essas medidas de contenção de despesas, que deverão produzir um impacto importante para a Universidade.


JU – Durante a campanha, o sr. disse que as medidas de contenção de gastos não acarretariam corte de pessoal e nem redução de benefícios...

Marcelo Knobel – Esses compromissos estão mantidos, sem dúvida. Nós acreditamos que é possível reduzir os gastos sem interferir nesses aspectos.


JU – Como a sua gestão vai trabalhar o tema da internacionalização, considerado um processo importante para o avanço da Universidade?

Marcelo Knobel – Nós temos várias propostas no que se refere ao ensino e pesquisa, todas com o objetivo de propiciar um salto de qualidade nas nossas atividades. Dois aspectos são fundamentais nesse esforço: aumentar o número de pesquisas trans, inter e multidisciplinar de maneira efetiva, o que não é algo trivial, e a internacionalização propriamente dita, que é fundamental.

Temos que escolher algumas universidades parceiras que nos permitam trabalhar projetos de médio e longo prazo, de modo que todos saiam ganhando. Temos um longo caminho a percorrer nesse sentido, visto que temos áreas com maior e menor nível de internacionalização. Uma das ações é trazer jovens, principalmente da América Latina e África, para estudarem na Unicamp. Também temos a proposta de criar uma Cátedra para Refugiados, que é algo que a Universidade precisa fazer neste momento tão crítico de crise humanitária em várias partes do mundo, haja vista o que está acontecendo na Síria. Claro que estamos limitados pela questão financeira, mas muitas ações dependem mais de planejamento e boa vontade que de dinheiro.


JU – Que propostas o sr. tem para promover uma maior integração entre os campi da Universidade?

Marcelo Knobel – Nós tratamos disso no plano de gestão. Esse distanciamento físico traz algumas dificuldades, principalmente em relação a transporte e comunicação, que vamos enfrentar. Essa integração não deve ser feita somente através de ações administrativas, mas também no âmbito artístico e cultural. Os campi estão separados, mas essa distância não é tão grande assim.


JU – Em relação aos colégios técnicos, quais os planos?

Marcelo Knobel – Em relação aos colégios técnicos, nós também temos desafios a superar. Em relação ao Cotuca [Colégio Técnico de Campinas], a principal questão é a construção de um novo prédio no campus de Barão Geraldo. Hoje o Cotuca está abrigado em um imóvel alugado, que não oferece infraestrutura adequada às suas atividades e acarreta gastos para a Universidade. Esta é uma prioridade. Quanto ao Cotil [Colégio Técnico de Limeira], temos que buscar o amadurecimento institucional do colégio. Em ambos os casos trabalharemos para ampliar a conexão com as demais unidades de ensino e pesquisa da Universidade, pensando em uma etapa importante da formação contemporânea.


JU – A Unicamp conta com um importante sistema de educação infantil, que atende aos filhos de funcionários, docentes e estudantes. Que planos o sr. tem para esta área?

Marcelo Knobel – Assim como os colégios técnicos, a Dedic [Divisão de Educação Infantil e Complementar] faz parte do que classificamos de formação contemporânea na qual a Unicamp atua. Vamos trabalhar fortemente também na institucionalização adequada da Dedic, para que ela avance nos serviços prestados à comunidade interna e se consolide como um ambiente educacional muito qualificado.

Nós temos uma Universidade que se ocupa da formação das pessoas desde a creche até o pós-doutorado. Se integrarmos isso de maneira única, dentro do conceito de formação contemporânea, podemos servir de referência para outras instituições.

 

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