Unicamp 2050: construindo hoje a universidade que queremos ser

Edição de imagem

Neste ano, o início da primavera foi marcado por recordes de temperatura em várias cidades do país. Em Campinas, alguns termômetros marcaram 40°C. O Cepagri registrou temperaturas de 38°C. Um estudo conduzido por alunos do Instituto de Biologia (IB) e do Instituto de Geociências (IG) mostrou que a cidade teve um aumento de 1,2°C na média das temperaturas entre 1989 e 2022. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), 40% das capitais brasileiras tiveram o inverno mais quente da história. A emergência climática se materializa na vida de cada um de nós de várias maneiras, com prejuízos sempre maiores para os grupos mais vulneráveis. As ondas de calor são apenas um de vários exemplos.

Recentemente, nossa Unicamp completou 57 anos, com muito a comemorar. De acordo com o ranking 2024 da Times Higher Education (THE) World University Rankings, publicado na última quarta-feira (27/09), a Unicamp está entre as 351-400 melhores universidades do mundo e tem a segunda melhor posição entre as melhores do Brasil e da América Latina. Para além das comemorações, as efemérides se prestam a nos fazer refletir sobre o futuro, sobre que Universidade queremos ser para seguirmos relevantes nos próximos 50 anos. E temas como as mudanças climáticas e a sustentabilidade têm tudo a ver com isso.

Que universidade estamos construindo? O que queremos ser em 2050? A ocupação da Fazenda Argentina, porção da Unicamp que está dentro do HIDS (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável) e que chamamos de HIDS Unicamp, é parte dessa resposta. Ela parte da premissa de que a Universidade tem um papel fundamental diante dos desafios do enfrentamento das mudanças climáticas e do desenvolvimento sustentável e que, na realização de suas atividades fundamentais — ensino, pesquisa e extensão —, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) devem servir como um farol que ilumine o caminho.

Por isso, estamos investindo em um plano de ocupação da Fazenda Argentina baseado nos princípios do urbanismo sustentável, que seja capaz de consolidar o papel da Unicamp como provedora de novos conhecimentos, tecnologias e inovações para o desenvolvimento sustentável.

Vista aérea do espaço que será ocupado por edificações que devem atender às certificações internacionais de sustentabilidade 
Os investimentos são da ordem de R$6,2 milhões na recuperação dos corredores ecológicos e das nascentes de água na região da Fazenda Argentina

O HIDS tem origem nas discussões sobre as possibilidades de uso e ocupação da Fazenda Argentina, adquirida pela Universidade em 2014 e que estendeu a área do campus Zeferino Vaz em 140 hectares. Por conta de seu potencial para fortalecer o ecossistema de inovação de Campinas e região, a proposta de criar o HIDS foi além dos muros da Universidade e passou a abranger toda a área do antigo Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec 2), idealizado nos anos 1970 pelo professor Rogerio Cerqueira Leite. Hoje, além da Unicamp, 13 instituições, entre empresas, universidades e centros de pesquisa, estão diretamente envolvidas na criação do HIDS. HIDS.

De 2020 a 2022, um convênio entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Unicamp e a Prefeitura de Campinas resultou em um master plan para a área do HIDS elaborado pelo Korea Research Institute for Human Settlement (KRIHS). Esta proposta de ocupação sugere a criação de duas centralidades mais adensadas, com uso misto (incluindo habitação, áreas corporativas, comércio e serviços) e áreas predominantemente residenciais, dentro dos mais atualizados preceitos dos territórios de produção do conhecimento, que vão muito além dos parques tecnológicos do século XX.

O master plan elaborado pelo KRIHS permite introduzir na região as atividades complementares que darão apoio aos campi universitários e centros de pesquisa já presentes, viabilizando a plena realização dos objetivos previstos de criação de um ecossistema de inovação de quarta geração, baseado na sociedade e na economia do conhecimento e no modelo de inovação de quíntupla hélice, que envolve a academia, o governo, a indústria, a sociedade e o meio ambiente.

Neste contexto, a ocupação da Fazenda Argentina — ou HIDS Unicamp —, por meio de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, é uma janela de oportunidade para a implementação dos ODS (CEUCI, 2022). E para que o HIDS Unicamp se consolide como um projeto bem-sucedido, é fundamental que ele seja exemplar na sua interação com o meio ambiente em todos os seus componentes: ar, terra, água, energia, flora e fauna.

A gestão da sustentabilidade em relação ao patrimônio ambiental do HIDS está calcada em dois conceitos distintos, mas complementares: o uso sustentável de recursos e a promoção da integridade ambiental. O primeiro incorpora as práticas já consagradas nos últimos anos e que caracterizam os diferentes aspectos da economia verde, tais como o uso mais eficiente e racional dos recursos hídricos, a busca por energia limpa e com baixa emissão de carbono nos processos produtivos, a gestão de resíduos etc. O segundo reflete-se no conjunto de medidas que induz o desenvolvimento, mas que preserva os recursos naturais, não apenas impedindo seu empobrecimento, mas criando as condições necessárias para promover a resiliência e a restauração da biodiversidade local.

Os investimentos são da ordem de R$6,2 milhões na recuperação dos corredores ecológicos e das nascentes de água na região da Fazenda Argentina
Vista aérea do espaço que será ocupado por edificações que devem atender às certificações internacionais de sustentabilidade 

O HIDS Unicamp

Nosso compromisso com a Agenda 2030 das Nações Unidas vai além de um simples cumprimento formal de seus objetivos, mas expressa a convicção de que esses objetivos são necessários para a transformação das nossas relações com as pessoas e o meio ambiente. Por isso, estamos investindo R$6,2 milhões na recuperação dos corredores ecológicos e das nascentes de água na região da Fazenda Argentina.

Além disso, pesquisadores do Centro de Estudos sobre Urbanização para o Conhecimento e a Inovação (CEUCI) fizeram um esforço de compatibilizar o master plan elaborado pelo KRIHS para a área da Fazenda Argentina, o que resultou em uma proposta de ocupação que oportunamente será submetida à aprovação pela comunidade da Unicamp. A principal inovação dessa proposta é a concentração das áreas construídas, condição essencial para estabelecer um modelo mais sustentável de ocupação, com manutenção de grande extensão de áreas verdes e permeáveis.

As quadras previstas representam 59 hectares do total de 140 hectares da área da Fazenda. Visto que a taxa de permeabilidade deve ser de, no mínimo, 20% da área do lote, apenas um terço do total da área da Fazenda poderá receber edificações. O restante do território poderá ser utilizado para atividades como produção sustentável de alimentos e geração de energia limpa. O coeficiente de aproveitamento mínimo deve ser igual a 1 (área construída igual à área do terreno). Se a ocupação inicial de uma quadra não for feita com o coeficiente de aproveitamento máximo (2 vezes a área do terreno), ela deverá ser feita de maneira a permitir a complementação de construções de modo a atingir, futuramente, esse coeficiente. O uso do coeficiente de aproveitamento máximo resulltará em menores áreas de projeção das construções e, consequentemente, um baixo índice de impermeabilização.

A ocupação dos 59 hectares disponíveis para construção na Fazenda Argentina deve acontecer de modo gradativo, em três fases. Na primeira, prevista para até 2035 (12 anos), apenas 23 hectares serão ocupados, com edificações nas quadras mais próximas à sede da Inova Unicamp e à área em frente ao CPQD, uma vez que nestas duas porções do território já existe infraestrutura viária. Além disso, o CPQD também é uma importante instituição de pesquisa, o que pode ajudar a alavancar projetos colaborativos. Toda a área restante só deve receber edificações nas duas fases seguintes.

O campus Zeferino Vaz tem hoje 600 mil metros quadrados construídos; observa-se que o espaço está totalmente ocupado por um sistema viário
O campus Zeferino Vaz tem hoje 600 mil metros quadrados construídos; observa-se que o espaço está totalmente ocupado por um sistema viário

Em 2019, a Unicamp tomou uma decisão corajosa de criar um Plano Diretor Integrado, com uma visão de futuro da Universidade, expressa em diretrizes para a ocupação territorial de seus campi até 2031. O planejamento da ocupação do HIDS Unicamp está alinhado a essas premissas e espera fortalecê-las para incentivar um novo paradigma de ocupação, sem prescindir das experiências anteriores.

O campus Zeferino Vaz tem hoje 600 mil metros quadrados construídos. Ao observar uma fotografia aérea do nosso campus hoje, observa-se que o espaço está totalmente ocupado por um sistema viário. No entanto, as quadras ainda apresentam muitas áreas ociosas, com grandes distâncias entre os edifícios. Em dias de sol intenso ou chuva forte, torna-se difícil circular entre os institutos, e aqueles que podem acabam optando por fazer seus deslocamentos em automóveis, mesmo no caso de pequenas distâncias, evitando ir a pé ou usar outro tipo de mobilidade ativa.

A ocupação do HIDS Unicamp é uma oportunidade de rever este paradigma e aplicar um plano de ocupação mais racional, que reconhece que o solo urbano é um recurso escasso, que deve ser utilizado da melhor forma possível, permitindo a preservação de mais área verde e reduzindo os custos com infraestrutura. Não menos importante é o fato de que o adensamento contribui para a promoção dos encontros e da convivência, que por sua vez contribuem para a geração de conhecimento, ao aproximar as pessoas, proporcionando uma vida comunitária mais rica.

Ao reduzir as distâncias, o adensamento também viabiliza uma mobilidade mais sustentável. Nesse sentido, o plano de ocupação do HIDS Unicamp contempla a criação de uma malha viária de diferentes dimensões, com vias coletoras e arteriais, ruas compartilhadas e faixas de amortecimento ao redor dos corredores ecológicos e APPs. As ruas compartilhadas serão vias de acesso local, com tráfego veicular controlado e limite de velocidade de 30km/h. Sua pavimentação deverá ser permeável e com coloração e textura diferentes do pavimento de vias coletoras e arteriais. O sistema viário prevê ainda criar caminhos verdes atravessando as quadras e outras áreas de fruição pública. A ideia é criar estímulos para a mobilidade ativa, por exemplo, usando bicicletas, patinetes elétricos ou caminhando em um ambiente agradável.

A proposta é a concentração das áreas construídas, condição essencial para estabelecer um modelo mais sustentável de ocupação, com manutenção de grande extensão de áreas verdes e permeáveis
A proposta é a concentração das áreas construídas, condição essencial para estabelecer um modelo mais sustentável de ocupação, com manutenção de grande extensão de áreas verdes e permeáveis

Uma nova Universidade para novos tempos

As edificações do HIDS Unicamp devem atender às certificações internacionais de sustentabilidade. Em geral, este modelo representa um custo extra que optamos por assumir para atender aos requisitos de uma ocupação mais sustentável. Entre as diretrizes estabelecidas, estão o conforto térmico, acústico e luminoso com uso de tecnologias passivas; eficiência no uso de água e de energia; captação e reaproveitamento de água da chuva; adoção de energia de fontes renováveis; arborização; minimização de resíduos; uso de materiais locais; acessibilidade e valorização da paisagem local.

Finalmente, esperamos, por meio deste projeto, estabelecer também um novo modelo de uso e ocupação dos espaços, de modo a incentivar e viabilizar o desenvolvimento de pesquisas e atividades interdisciplinares e interinstitucionais. Assim, consideramos que a cessão do espaço não será permanente a um determinado instituto ou faculdade; ela deverá ser renovada periodicamente, a partir da aderência aos valores do HIDS Unicamp e dos resultados dos projetos. Pretende-se estabelecer um uso consciente, racional, compartilhado e parcimonioso do espaço, sem ociosidades e sem desperdícios, e com o mínimo impacto ambiental negativo, para que haja eficiência e sustentabilidade construtiva e energética, maior colaboração entre projetos e compartilhamento da infraestrutura (exploração das sinergias possíveis), para que haja disposição para abertura, transparência e permeabilidade para o entorno e a sociedade em geral (por exemplo, por meio de áreas de exposição e acolhimento de grupos visitantes etc.).

Nos anos 1960, de maneira pioneira, Zeferino Vaz imaginou uma universidade aberta à fruição e aos encontros. A localização dos prédios em um círculo em torno de uma grande área verde serviria para estimular a integração entre os conhecimentos e entre as pessoas. As comemorações dos 57 anos da Unicamp devem inspirar a mesma ousadia de Zeferino, a ousadia de imaginar e planejar a Universidade que queremos em 2050, dentro dos novos conceitos do urbanismo sustentável.

twitter_icofacebook_ico