A pesquisa sobre oceano precisa ser priorizada se não quisermos naufragar

Por Germana Barata e Juliana Di Beo*

A vastidão azul de nosso planeta abriga milhões de espécies em suas águas marinhas, mas estima-se que meros 5 a 10% já foram descritas. Esforços globais como o Censo de Vida Marinha (2000-2010) descobriu mais de seis mil espécies em uma década, enquanto o Registro Mundial de Espécies Marinhas (WoRMS) reúne pouco mais de 240 mil organismos oceânicos. Apesar dos esforços hercúleos empregados em novas descobertas, classificações e catalogações, ainda há muito a se conhecer. Cientistas calculam que o oceano abriga 2.2 milhões de espécies!

No ritmo atual esse levantamento levaria 3,5 mil anos! Apenas um exercício distópico para diagnosticar o tamanho de nosso desconhecimento, esse cálculo deixa clara a urgência de investirmos em ciência, tecnologia e massa crítica para reduzir nossa ignorância sobre o oceano. Atualmente, menos de 2% do investimento mundial em ciências é destinado aos estudos oceânicos. 

A ciência oceânica não está à deriva

Na última década, a produção científica no cenário mundial sobre a área teve aumento anual substancial, superando um milhão de artigos no Dimensions - indexador que reúne mais de 126 milhões de publicações científicas. Dentre os países que mais publicam sobre o oceano, o Brasil aparece em 14º lugar, posição equivalente à produção científica nas demais áreas. 

De acordo com o relatório que avaliou a produção científica sobre o oceano entre 2010 e 2014 no Web of Science (base que indexa revistas científicas internacionais), o Brasil ocupava a 11ª posição entre os que mais publicaram, liderando os países da América do Sul, e o 19º a receber mais citações (número de vezes que outros artigos citam aquele trabalho). Mas, quando olhamos para a média de citações que cada artigo recebe, o Brasil fica em último lugar entre as 10 nações da América do Sul que mais publicam sobre o oceano. Esses dados indicam que a ciência que produzimos não é considerada de impacto pela comunidade internacional, fato já conhecido para as demais áreas do conhecimento. Apenas considerando os preprints (manuscritos que ainda não foram avaliados por colegas especialistas), o volume quase dobrou em 2021, quando comparado a 2019, chegando próximo a 10 mil. Essa explosão na produção de textos científicos pode ser reflexo do movimento em prol do oceano que a Década iniciou. 

Não é coincidência que dentre os cinco países mais produtivos em estudos sobre o oceano estão também entre as maiores potências mundiais que investem grande parte de seu PIB em pesquisa: Estados Unidos (EUA), China, Reino Unido, Alemanha e Austrália. A liderança dos EUA na área é descrita desde 2004 e pode ser justificada por seu papel central na coordenação de programas internacionais importantes como o Experimento de Circulação Oceânica Mundial (WOCE), com atuação da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e da Agência Espacial (NASA). 

As cooperações internacionais e as publicações de grandes projetos geram artigos científicos de maior impacto, é sabido. Portanto, uma boa estratégia para o Brasil é apostar no fortalecimento de colaborações com a América Latina e demais nações, sobretudo aquelas do hemisfério Sul tropical que compartilham semelhanças socioambientais.

 

Mapa mundi distorcido pela desigualdade na produção científica sobre oceano. Unesco 2017
Mapa mundi distorcido pela desigualdade na produção científica sobre oceano. Crédito: Unesco, 2017

 

No país da megadiversidade e com uma costa de mais de 8,5 mil quilômetros de extensão, a pesquisa sobre esse gigante azul é animadora. Em 2016, cientistas divulgaram um sistema de recifes de corais em plena desembocadura do rio Amazonas, que percorre desde a Guiana Francesa até o estado do Maranhão. Uma descoberta como essa indica o potencial de tesouros submersos a serem explorados.

Mesmo sem uma estratégia nacional para fomentar a pesquisa sobre o oceano, o Banco de Teses da Capes revela que na última década (2012-2021) foram defendidas 25 mil dissertações de mestrado e teses de doutorado, com números crescentes até 2018 e com destaque para as ciências exatas e da terra e humanas. Há ainda mais de 280 grupos de pesquisa cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e quatro Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologias, projetos de grande porte em andamento. 

Por outro lado, há uma enorme desigualdade na produção dedicada ao oceano quando comparamos, por exemplo à Covid-19, uma recente emergência mundial. No repositório de nossa universidade, por exemplo, são 81 artigos dedicados à pandemia contra 32 relativos ao mar; o mesmo ocorre com dissertações digitais que, mesmo considerando dois anos da nova doença, superam o registro de pesquisas de mestrado relacionadas ao oceano. Não se trata aqui de menosprezar nossa Unicamp, o mesmo exercício feito com os artigos do SciELO, indica que há 10 vezes mais publicações sobre Covid-19!!! É hora, portanto, de priorizarmos e investirmos em ações estratégicas para fomentar a pesquisa sobre o ecossistema marinho com riscos latentes de causar emergências mundiais. 

Em busca de bons ventos 

Em breve será lançado o Diagnóstico Brasileiro Marinho Costeiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, como parte da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), que tem monitorado e sintetizado os conhecimentos científicos e de saberes tradicionais sobre a biodiversidade, ecossistemas e relações humanas. De acordo com dados da Plataforma, um agravante para a proteção da biodiversidade costeira é que apenas 1,2% se encontra dentro de unidades de conservação. Torcemos para que o Diagnóstico fomente iniciativas coletivas emergenciais que coloquem o oceano como  prioridade de pesquisa.

Dentre as ações já traçadas no Plano de Implementação da Década do Oceano no Brasil, publicado no ano passado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), órgão que coordena as ações no país, afirma que “poderá lançar chamadas públicas de projetos, em ampla concorrência nacional, para alcançar os resultados indicados”, além de outras formas de financiamento (p.13). Por ora, a comunidade acadêmica aguarda ansiosa por editais que financiem os esforços para conhecermos o oceano, seus organismos, sistemas e mecanismos, se não quisermos naufragar. Não temos 3.500 anos; temos uma Década e a contagem regressiva está em curso! 

Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) e membro do Comitê de Assessoramento da Década do Oceano no Brasil. E-mail: germana@unicamp.br

Juliana Di Beo é aluna do Instituto de Biologia e atua na divulgação científica da Década do Oceano no blog Um Oceano.

 

Referências

CGEE - Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Mestres e Doutores 2015. Estudos da demografia da base técnico-científica brasileira. Brasília, 2016.

Dastidar, Prabir G. Ocean Science & Technology research across the countries: a global scenario. Scientometrics,59(1):15-27, 2004. doi:10.1023/b:scie.0000013296.33677.ef

MCTI. Plano Nacional de Implementação da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030). 2021.

Mora C, Tittensor DP, Adl S, Simpson AG, Worm B. How many species are there on earth and in the ocean? PLoS Biol. 2011;9(8):e1001127. doi:10.1371/journal.pbio.1001127

Singh, V.K., Singh, P., Karmakar, M. et al. The journal coverage of Web of Science, scopus and dimensions: a comparative analysis. Scientometrics 126, 5113–5142 (2021). https://doi.org/10.1007/s11192-021-03948-5

Valdés, L., Lee, Y.-H., Isensee, K. and Schaaper, M. (eds). 2017. Research productivity and science impact. In: IOC-UNESCO, Global Ocean Science Report—The current status of ocean science around the world. Paris, UNESCO, pp. 98–125.