Década do Oceano

Por Germana Barata e Isabela Tosta*

Quantos oceanos cobrem a superfície do planeta? Cinco, responde prontamente a ferramenta de busca a partir de inúmeras fontes. Mas as águas são fluidas e não respeitam fronteiras, se misturam, se empurram e se fundem em um único oceano. Portanto, é com a força do singular que a coluna Um Oceano pretende contribuir para a reflexão e a conscientização sobre a urgente necessidade de mudarmos nossa relação com esse manto azul de água salgada que banha 71% do globo e que impacta e é impactado por todos nós.

O diagnóstico sobre o agravamento da saúde do oceano, traçado em 2017 pelas Nações Unidas e descrito no documento “Nosso oceano, nosso futuro: chamado para ação”, deu origem à Década do Oceano. Iniciada em 2021, esse evento mundial reúne lideranças, especialistas e diversos atores sociais, para pensar, planejar, gerir e executar ações durante os anos de trabalho intenso à frente.

Reverter o curso destrutivo com que a humanidade tem lidado com a natureza é tarefa hercúlea e urgente. E nesta missão, a comunicação é elemento chave. Por isso, o ano inaugural da Década concentrou suas energias na comunicação e mobilização para tornar conhecidos os desafios, impactos e ações para o cumprimento, até 2030, do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14): Conservar e usar sustentavelmente os oceanos, os mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. Este é um dos 17 ODS que compõem a Agenda 2030 e que enfatizam que o desenvolvimento deve equilibrar a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Em novembro passado foi publicado o Plano Nacional de Implementação da Década no Brasil, a partir do trabalho coletivo de membros do Comitê de Assessoramento à Gestão da Década das Ciências Oceânicas no Brasil, dos mais de 500 mil participantes das Oficinas regionais que ocorreram online para todas as regiões do país, além de contribuições de órgãos públicos e governamentais.

No Brasil, a Década é coordenada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e representantes de instituições de ensino e pesquisa, ONGs, sociedades civil, setor privado e conta com a colaboração dos Grupos de Apoio à Mobilização (GAMs). O enfoque está em atingir sete grandes metas: um oceano limpo; transparente; saudável e resiliente; previsível; seguro; produtivo e explorado sustentavelmente; conhecido e valorizado por todos.

Remando contra o vento

Não há mais tempo para postergarmos o futuro. O Planeta está aquecendo, as águas marinhas estão mais ácidas, poluídas e a biodiversidade em risco. Como bem apontou o biólogo Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, “o oceano está doente porque a sociedade está doente. Os problemas do oceano - lixo do mar incluído - são um reflexo da entropia do sistema socioecológico”.

De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), as ondas de calor na superfície do oceano são cada vez mais frequentes e a taxa de absorção de calor mais que dobrou, comparando as aferições de 1969 a 1993 com as de 1993 a 2017. As águas profundas, abaixo de 2 mil metros, também estão aquecendo, o nível médio do oceano em elevação, parte causada pela aceleração do degelo na Antártica.

Diante desse quadro de naufrágio que se avizinha é preciso remar contra o vento para mudar o rumo da embarcação: esforço coletivo, remadas síncronas, com técnica, tomada de decisões rápida, equilíbrio e determinação, como ensina o remo profissional em equipes. E é nisso que as Nacões Unidas e os entusiastas da Década acreditam ser necessário para melhorar a saúde do oceano e da humanidade até 2030.

Içando velas

Temos nove anos para transformar nossa relação com o oceano. Os desafios são enormes. Cerca de 74% da população vive longe do mar e cerca de um terço dos brasileiros nunca pisou na areia banhada por água salgada. Mas não falta oceano em nossas vidas. Aproximadamente, metade dos 316 litros de oxigênio que consumimos diariamente são produzidos por algas e plâncton marinho, bem como boa parte das massas de ar que trazem as chuvas e umidade para terra firme, sem falar na absorção da maior parte do excesso de calor na atmosfera e de parte do gás carbônico produzidos por atividades humanas.

Em 2018, o mapa mundi que dá destaque ao oceano viralizou nas redes sociais. O mapa foi inspirado na projeção de Athelstan F. Spihaus (1942). “Que o oceano mundial é um corpo de água contínuo e relativamente livre intercâmbio entre suas partes é de fundamental importância para a oceanografia. Porque ele cobre mais de dois terços da superfície da Terra, um mapa do oceano mundial é essencialmente um mapa mundi”.  | Crédito: ArcGIS
Em 2018, o mapa mundi que dá destaque ao oceano viralizou nas redes sociais. O mapa foi inspirado na projeção de Athelstan F. Spihaus (1942). “Que o oceano mundial é um corpo de água contínuo e relativamente livre intercâmbio entre suas partes é de fundamental importância para a oceanografia. Porque ele cobre mais de dois terços da superfície da Terra, um mapa do oceano mundial é essencialmente um mapa mundi”.  | Crédito: ArcGIS

E é a busca por esse encontro entre mar e cotidiano que tem inundado as redes sociais com informações sobre a Década do Oceano. Em 2021, já registramos 20 podcasts, mais de 50 páginas no Instagram, 10 canais no Youtube, além de playlists dedicadas à divulgar e celebrar a cultura oceânica.

Há ainda projetos que prometem incluir o oceano nos debates e projetos da educação básica como a Olimpíada Brasileira do Oceano (O2), já em sua 2a edição, idealizada e coordenada pelo projeto Maré da Ciência, da Universidade Federal de São Paulo, que neste ano conta com 3.300 participantes. Ausente da Base Nacional Curricular do Ensino Básico, a cultura oceânica passou a fazer parte do ensino da rede pública em Santos, no final de dezembro passado, em um esforço de atuar em políticas públicas que transformem o acesso das novas gerações às ciências oceânicas. Que este exemplo seja seguido por outros municípios e países.

Há ainda muito espaço para crescimento da comunicação sobre a Década, como no Twitter, onde o debate está pouco presente. Mas, mais do que compartilhar informações, é preciso investimentos em ações que empoderem a sociedade, mudem hábitos e exerçam maior pressão social em direção a políticas, modos de vida e uma economia mais inclusiva e sustentável. Nada elementar.

Esse grande esforço planetário vai precisar de todos. Aos interessados, ainda há muito espaço para colaborações, seja por meio de contato via site oficial da Década no Brasil ou através de cadastro no Fórum Global da Década, organizado pela ONU. O cadastro no Fórum permite o intercâmbio de projetos, eventos, grupos, publicações, editais, além de reunir diversos atores sociais ao redor de temas de interesse. 

A coluna Um Oceano, que hoje inauguramos, pretende trazer questionamentos, descobertas, debates e vozes diversas que ajudem os leitores a se aproximarem do oceano. Ela é fruto de projeto homônimo de divulgação da Década do Oceano que reúne Blog e página no Instagram. O título foi inspirado na campanha internacional do coletivo One Ocean (2019) Drop-the-S (derrube o S, assista vídeo da campanha) para mudar a percepção sobre a importância de pensarmos no oceano no singular. Esperamos que todos naveguem em bons ventos e que até 2030, a resposta para a pergunta que abre esta coluna seja consensualmente “um oceano”!


Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (nudecri) e membro do Comitê de Assessoramento da Década do Oceano no Brasil. email: germana@unicamp.br

Isabela Tosta é aluna do Instituto de Biologia, bolsista BAS e atua na divulgação científica da Década do Oceano no blog Um Oceano.