Um manifesto contra a desinformação

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Em um país muito distante, uma eleição termina com vitória do partido azul para o legislativo e do partido vermelho para o executivo. Membros do partido azul contestam esta última vitória, alegando fraudes na contagem de votos, a despeito da ausência de evidências críveis de que isso tenha ocorrido. É começo da tarde na capital. Caminhando de volta para o escritório onde trabalham juntos há dez anos, um membro do partido vermelho argumenta que a vitória expressiva do partido azul para o legislativo seria um indício da lisura do processo, já que, se este pudesse ser fraudado, o resultado desfavorável na eleição legislativa poderia ter sido modificado. Diante deste argumento, considerado razoável por outros colegas que acompanhavam a discussão, o membro do partido azul abre um meio-sorriso e, com um olhar que mistura sarcasmo e certeza, argumenta: “está vendo, não faz sentido vencermos para o legislativo e perdermos o executivo. Mais uma prova que houve fraude”. A discussão é interrompida, e o assunto se volta para a grande quantidade de nuvens que começam a se formar sob os céus da capital.

Conhecido pela psicologia há pelo menos seis décadas, observamos neste relato o que chamamos de “viés de confirmação”. De forma simples, a mente humana tende a enxergar com mais facilidade informações que confirmem suas crenças e a ignorar as que as contradizem, o que pode fazer com que um mesmo fato seja interpretado de forma antagônica, conforme convicções prévias. O viés de confirmação, assim como outros vieses cognitivos, explica porque é tão rara a mudança de opinião em relação a convicções fortes apenas a partir da exposição de fatos. E é sobre este pano de fundo que o fenômeno da desinformação, que aqui definiremos como a disseminação de informações incorretas, vem se tornando uma das principais ameaças para os modos de vida em sociedade construídos nos últimos séculos.

Avanços tanto na ciência quanto nos códigos morais que balizam a forma como nos relacionamos nos legaram um mundo em que vivemos mais, há proporcionalmente menos fome, violência e doenças, e a tecnologia nos proporciona mais conforto. Estes avanços foram conquistados através de um lento processo de aprendizagem coletiva baseado em erros e acertos, no qual escolhas que se mostram acertadas têm mais chance de ser preservadas. Na base deste processo, está nossa capacidade de obter informações, interpretá-las e, a partir daí, tomar decisões. Desta forma, nossa capacidade de analisar e compreender o mundo em que vivemos foi e segue sendo um elemento essencial para o avanço da sociedade. Como corolário disso, processos que comprometam de forma sistemática a capacidade de julgamento de uma sociedade ameaçam sua capacidade de se manter nos caminhos que garantiram seu progresso.

A democracia — regime que já foi muito bem definido como o pior entre todos os regimes, com exceção de todos os demais — tem como uma de suas premissas que as percepções e escolhas da maioria têm maior chance de estarem mais perto da verdade do que as de indivíduos isolados, junto à garantia de mecanismos para que estas escolhas possam ser modificadas quando percebidas como equivocadas. Sempre pela vontade da maioria. Embora este seja um processo lento do ponto de vista de uma geração, evidências sugerem que, no tempo histórico, as democracias são mais capazes, ainda que intercalando avanços e retrocessos, de garantir escolhas que contribuam para a melhoria da vida de seus cidadãos. Regimes democráticos são mais frequentes em sociedades mais livres e igualitárias, enquanto regimes autocráticos são mais comuns em sociedades violentas e desiguais. Sejam quais forem os protagonistas destas escolhas, elas são construídas a partir de percepções sobre fatos e informações. E é aí que voltamos ao risco que a desinformação representa, não apenas para a formação de opiniões individuais, mas para nosso modo de vida em sociedade.

Vivemos em um mundo em que as informações alcançam um número muito maior de cidadãos que no passado. Embora isto tenha gerado inegáveis benefícios, também criou desafios. O fluxo cada vez mais rápido e intenso de informações tornou mais desafiador para o cidadão se colocar de forma precisa entre o verdadeiro e o falso. Mas o novo desafio, cujos efeitos disruptivos são ainda subestimados pela maioria, vem da introdução de uma terceira alternativa a esses dois polos, que consiste na mentira apresentada com o objetivo deliberado de confundir, de ocupar o lugar da verdade. A disseminação ativa de mentiras, com velocidade e capilaridade sem precedentes, sobre mentes formatadas muito mais para confirmar e acreditar do que para questionar e repensar, mina um dos elementos mais importantes para as sociedades democráticas, que é a capacidade de fazermos as melhores escolhas. Uma consequência extrema deste fenômeno é o contingente cada vez maior de cidadãos que se agarram de forma apaixonada a convicções desprovidas de lastros na realidade factual. Munidos de certezas inabaláveis, retroalimentadas por mentiras disseminadas principalmente em redes sociais, estes cidadãos passam a defender práticas incompatíveis com seus valores morais e religiosos e até a praticar crimes à luz do dia e das câmeras de seus smartphones, movidos pela convicção inabalável de que fazem o bem.

A luta contra a desinformação se tornou, portanto, uma das lutas mais relevantes de nosso tempo, já que suas consequências podem ser ainda mais devastadoras e rápidas do que grandes ameaças contemporâneas como o aquecimento global ou pandemias ainda por vir. Há estratégias para tal, mas sua implementação não é trivial, e seus inimigos são sagazes. Mesclam as mentiras que disseminam a ideais morais relacionados a pureza, honestidade e patriotismo; a medos atávicos; a preconceitos ainda arraigados na psique humana; e a nosso estranho encantamento por teorias conspiratórias. Embora esta mesma estratégia já tenha sido usada para mobilizar apoio coletivo a movimentos políticos que, depois, se tornaram tragédias, seus disseminadores nunca tiveram à mão ferramentas tão eficazes para sua difusão.

Nos campos em que atuo, a ciência e a medicina, temos métodos eficazes para separar a informação de qualidade da mentira. Aprendemos que a qualidade da fonte é fiadora da confiabilidade da informação. Sabemos que a eficácia de um novo tratamento médico apresentado por uma revista científica tem muito mais chance de ser verdadeira do que a de um tratamento apresentado em uma mensagem no Whatsapp ou no fio de tweets. E que, ainda que laboratórios farmacêuticos e editoras científicas tenham, sim, seus interesses privados, o arcabouço legal e regulatório em torno deles representa uma garantia muito maior de confiabilidade do que a afirmação de que “este tratamento milagroso não foi publicado em uma revista científica porque isso que não interessa à grande indústria divulgar”. Por isso, me surpreendo que até colegas que reconhecem a importância da fonte para a confiabilidade da informação científica aceitem com entusiasmo a perigosa desqualificação da mídia profissional, que ocupa no jornalismo lugar análogo ao das revistas científicas na ciência. Argumentos como “isso a Globo não mostra”, ou de que grandes jornais seriam “agentes do comunismo”, ainda que risíveis, sustentam-se pelo fluxo massivo de desinformação sobre mentes prontas a refutar qualquer visão que desafie suas convicções.

A luta contra este fenômeno é dura, pois a própria culpabilização dos que difundem de forma deliberada a desinformação passa a ser colocada como ameaça a liberdades individuais ou propagada como evidência de uma conspiração gigantesca contra aqueles que buscam o bem, contra os quais a quase totalidade das instituições estaria posicionada. E, assim, estabelece-se um círculo vicioso em que a contestação de mentiras cada vez menos verossímeis alimenta a convicção sobre conspirações em escala planetária contra uma verdade que só se sustenta em bolhas cada vez mais fechadas e agressivas.

Espero que, com o tempo, as máscaras caiam, separando a minoria que manipula da maioria que é manipulada. Para os primeiros, é fundamental a responsabilização e a dura pena da lei, pois agem com má fé e com método para destruição da democracia, regime em que são incapazes de prevalecer através do convencimento e da discussão honesta sobre fatos e ideias. Para os últimos, que possam, aos poucos, abrir seus olhos para o pensamento divergente, reconhecer que podemos estar errados mesmos em nossas mais contundentes certezas e que há virtude e beleza nesta constatação. Só assim poderemos voltar a atuar juntos para o desenvolvimento de nossa frágil e jovem democracia, com suas imensas falhas e contradições, e cujos caminhos, tanto à esquerda quanto à direita, precisam voltar a ser o único objeto de nossas divergências políticas. E, por que não, voltar a perceber e a falar do azul e de todas as outras cores, que, assim como as nuvens, também fazem o céu de nossos entardeceres.

Esse texto é um artigo de opinião e não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.

Erich V de Paula é professor associado de Hematologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Tem como áreas de interesse as interações entre hemostasia e inflamação e ensino nas profissões da saúde. 

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