Ronald Reagan, o presidente e sua sombra

Ilustra: Luppa SilvaVocê já ouviu, quem sabe já disse: “Só aqui no Brasil mesmo...”.  Sinto muito, mas está completamente equivocado. É um pouco mais verdadeira outra sentença: “lá, como cá”. E olhar para as mazelas dos outros nos ajuda a desvendar as nossas, com menos indulgência, mas também com menos culpa. A estória que conto a seguir talvez se encaixe nessa regra geral.

Comecemos por um enquadramento dos fatos. O historiador norte-americano Sean Wilentz chama o período 1974-2008 de Era Reagan [The age of Reagan: a history, 1974-2008, Harper Collins, 2001].

A seu ver, o período anterior (1930-1970) seria a era do New Deal protagonizado pelo Partido Democrata – mesmo os republicanos incrustados nessa fase (Eisenhower) operavam dentro desse paradigma. Poderia ser chamada, talvez, de Era Roosevelt, o líder Democrata que governou o país por nada menos do que quatro mandados. Durante esse reinado, o executivo federal assumiu papel relevante e liderou a construção de um novo contrato social, com forte presença do Estado como regulador do desenvolvimento econômico. Alguns historiadores comparam seu programa – o New Deal – com as reformas da socialdemocracia europeia.

A era seguinte – a Era Reagan – é a do anti-New Deal. Fundamentalmente, é uma fase de desmonte das ações e regulações estatais que haviam marcado os chamados “trinta gloriosos do pós-guerra”.  E a lógica anterior se repete: até os democratas intrometidos nessa sequência seguiram regras da cartilha ultraconservadora e ultraliberal. Carter foi um precursor – desregulamentando os fundos de pensão e acabando com o tabelamento das comissões de negociadores de investimentos. Porta aberta para a financeirização geral. Clinton, nos anos 1990, dedicou-se aos tratados de globalização e ao desmonte da seguridade social.

A Era de Reagan começa, é claro, com sua eleição, em 1980. Mas, no final dos anos 1960 o realinhamento eleitoral e partidário já se anunciava. E durante a década de 1970 se preparou a formação de uma espécie de “novo senso comum”, aquele que pavimentaria a emergência de Ronald Reagan e seus cowboys ultraliberais.

Chamar esse período de Era Reagan faz todo sentido, principalmente se levarmos em conta que, a partir da gestão Reagan, praticamente todos os líderes republicanos dessa fase queriam ser a sua reencarnação. E faziam questão de declarar essa meta.

O colunista Will Bunch contextualiza o fenômeno dizendo que sempre houve lugar para a mitologia na história americana. Mas admite que o caso de Reagan é especial, dado o modo como o mito foi calculado e manufaturado. [Will Bunch - Tear Down This Myth: The Right-Wing Distortion of the Reagan Legacy, Free Press, 2009]. Reagan teria sido, também ou principalmente, uma cuidadosa produção de imagem.

E afinal, diz Bunch, o Reagan que fez diferença na história americana não foi o formulador de políticas, mas o sujeito que conseguiu articular a política com o papel de relações públicas.

Jane Mayer e Doyle McManus sintetizam a conexão entre o contexto, o evento e o personagem:  “Parte do sucesso de Reagan como líder reside no fato de que os mitos que criou eram preferíveis à realidade”. [Landslide: The Unmaking of the President, 1984-1988, Graymalkin Media, 2018]

De qual realidade estamos falando? Reagan, diz Will Bunch, possuía “uma narrativa pessoal que se afinava com a maioria dos eleitores, mas apenas depois que se traduziu em algo mais sombrio, o ressentimento da classe média com relação aos atropelos dos anos 1960”. Diz o jornalista: os americanos estavam cansados do desencanto dos anos Carter e desejavam alguém que prometesse coisa melhor. O fim do pesadelo e a volta do American Dream.

Assim, havia o Reagan de fato e o Reagan esperado, desejado, aquele que era necessário inventar para responder às ansiedades da hora. Aquele Reagan que foi e aquele que diziam ter sido.

Nos anos seguintes, os líderes republicanos emergentes reclamavam para si o legado de Reagan. E pretendiam aparecer como versão atualizada do velho cowboy. Mas, de fato, não estavam de olho no Reagan de carne e osso mas naquele que viralizou. E aí se revela tema o lado mais fascinante do citado livro de Jane Mayer e Doyle McManus: Landslide: The Unmaking of the President, 1984-1988.  Ele mostra de como se despedaçou o primeiro Reagan.

Reparem nas datas. É o segundo mandato do ator-presidente, o momento em que se estilhaça aquela estátua esculpida no primeiro. Só que esse desmanche filtra muito pouco para fora do círculo protegido da Casa Branca, o palácio indevassável da mitologia.

O primeiro mandato foi uma lua de mel prolongada. O desastre dos anos 1970 e a degradação do governo Carter contrastavam com o “Good Morning America” de Reagan. Mas não era apenas isso. A fase pior da recessão e os impactos do choque do petróleo estavam no fim. Crescimento de empregos, recuperação econômica, baixa do preço internacional do combustível, baixa inflação, depois dos choques de Paul Volker na Federal Reserve, o banco central americano, ainda durante a gestão Carter. O governo e a mídia tinham o cuidado de esconder sob o tapete muita coisa criada por Reagan. Pouco se falava, por exemplo, no monumental déficit federal e no endividamento externo crescente. Assim, os Democratas estavam encurralados e marcados pelo insucesso Carter.

E ainda houve um evento providencial – aparentemente não planejado, mas nunca se sabe...  Uma facada, ops!, um tiro no presidente. O atentado operou como antibiótico errado: quando não mata o bicho, o fortalece. Anos mais tarde, os auxiliares de Reagan sonhavam com uma repetição: uma outra bala o transformaria em imperador.


Reagan versus Reagan: O homem e seu fantasma

Mas o livro de Mayer e McManus mostra o lado obscuro e muito menos conhecido do Reagan realmente existente, aquele que vagava artisticamente nos corredores protegidos da Casa Branca. Reagan era um personagem, no sentido estrito do termo.

A rotina do ator-presidente era quase uma continuação de sua vida pregressa. Reagan, lembremos, fora um ator de segunda linha em Hollywood, que veio a conhecimento nacional como dedo duro convicto. Entregava colegas à sanha de caça às bruxas do senador McCarthy. Depois, virou funcionário estrelado da General Electric – fazia filmes de propaganda e palestras motivacionais para os funcionários. Ganhou experiência para o cargo posterior, o de governador da Califórnia, primeiro andar de sua escalada política.

E a equipe de auxiliares de Reagan – os gerentes do script presidencial – dirigia o espetáculo. Toda noite, às sete horas, o staff mandava aos aposentos residenciais de Nancy e Ronald um pacote de instruções – para que o ator memorizasse. Num pacote menor, um conjunto de pequenos cartões datilografados, com detalhes que chegavam a detalhes como a forma dos cumprimentos e as piadas ocasionais, dos gestos e direções a tomar no cenário. Um conjunto de falas e deixas para o experiente ator. Os cartões eram codificados pelo tamanho e pela cor, para facilitar o uso.

Mas há ainda detalhes mais relevantes sobre a organização da Casa e do governo.  Por detrás do governante, uma troika administrava suas decisões. Na verdade, modelava as decisões. Era um comando composto de três sujeitos, com diferentes histórias, visões e ambições. Cada um vigiava o outro – e os três vigiavam o ator. O chefe de gabinete, James A. Baker, era o especialista nas articulações políticas. Seu ajudante imediato, Michael Deaver cuidava da imagem. E Edwin Meese, o conselheiro que viria a ser o advogado geral da República, era uma espécie de guardião da orientação conservadora do mandato. Dizem Mayer e McCanus que o sistema se baseava na desconfiança mútua e, também, na premissa de um presidente impressionável, vulnerável ao argumento que ouvisse no final. Eram, também, os filtradores da realidade que chegava ao presidente. E da realidade que dele filtrava.

Como o presidente não parecia muito capacitado (nem interessado) em análise rigorosa das questões, a troika – e principalmente o último que falasse com ele – acaba por determinar suas “escolhas”.

E eles modelavam, de maneira a simplificar e transformar em slogans, a mensagem do chefe. Michael Deaver e seu grupo, por exemplo, transformaram a política externa em uma fórmula ao mesmo tempo sugestiva e vazia: “America is back”. Lembra alguma coisa?

O retrato de Reagan, tal como aparece nessa reconstituição dos jornalistas, é impressionante. O entusiasmo do presidente, dizem eles, excedia sempre a sua compreensão dos fatos. Sua retórica forte superava sua consideração pelos custos da decisão. Não se conformava com soluções intermediárias, não via limites para o poder americano. Imaginava sempre que “a América” poderia encarar suas missões com poucos custos, em dinheiro ou vidas humanas. E sem solavancos políticos.

E assim seguia o fantasma. Um dos seus auxiliares disse, em off, para os jornalistas: os cartões no bolso - noventa por cento de sua performance depende daqueles cartões no bolso.

O primeiro mandato, a lua de mel, termina e começa a preparação para a campanha da reeleição. E a equipe se dá conta de que não tem mensagem a apresentar para pedir a recondução. Tem apenas um passado, esse curto passado de 4 anos. Não tinha uma proposta para o futuro. E foi com base nessa avaliação que construiu a vitória. No final da campanha, o ator-presidente faz aos tele-eleitores uma pergunta solene: os últimos quatro anos da sua vida foram melhores ou piores do que os anteriores? Apenas. E o suficiente.

Debaixo do tapete o déficit estourando, o endividamento, um caro e alucinado programa de defesa, uma série de compromissos externos perigosos, um dos quais iria assombrar o segundo mandato – o escândalo Irã-Nicarágua, conhecido como Irã-Contras.

O escândalo deixou Reagan de fora do tiroteio. Sobrou para outros. Mas revelava a fragilidade surpreendente do herói e de sua maneira de governar. Começa o “unmaking” do presidente, a transformação do ídolo em fantasma.

Os segredos da Casa Branca ficavam à mostra. Dizem os jornalistas: “um presidente que havia personificado o mito americano, primeiro na tela ampla dos filmes e depois no cenário da Casa Branca, foi abruptamente desmitificado”.

Aparecia aos olhos de todos um presidente influenciável, que mostrava pouco empenho em estudar os problemas, que não sabia e não queria decidir, que confundia delegação com abdicação e desleixo.

Revelava-se ainda um contraste fulminante. O tal “grande comunicador” tinha enorme dificuldade de se comunicar com os auxiliares próximos, a não ser em temas desimportantes. Restava ainda a ideia de que era alguém apegado a seus “princípios”. Mas quando apareceu sua iniciativa de vender armas aos ayatolás iranianos isso também balançou sua autoridade moral. O retrato do herói desbotava:

"Ele não era um administrador engenhoso  nem um mestre das complexidades mundanas da política. Seu dom era para a comunicação, particularmente através da televisão. Era preciso uma Presidência retórica, muito capaz de unir o país em torno de uma visão comum e de mover o centro político um longo passo para a direita. Mas o caso Irã-Contras revelou que sua retórica estava desconectada de suas ações e que suas ações estvam desconectadas de suas políticas. Os talentos de Reagan tinham escondido seus defeitos muito bem; inevitavelmente, o seu desmascaramento foi seu desmanche."


A frase em inglês é esta: “His unmasking was his unmaking”.

Assim entendemos melhor os republicanos posteriores, que afirmavam a intenção de reencarnar Reagan. O que tinham como padrão era o fantasma, o Reagan imaginário, o Reagan manufaturado. O Reagan das fórmulas mágicas e das promessas não cumpridas, como a redução do gasto estatal, da austeridade fiscal, da rigidez nos princípios. Mas o brilho do fantasma dependia do ambiente em que se perfilava. O Reagan do Good Morning America era dependente de uma noite tenebrosa, a dos anos 1970. Deus dependia da existência do demônio. Se o demônio desaparecia ou perdia o brilho... quem iria apelar à divindade?

Ah, sim, falta um detalhe pitoresco no retrato do grande homem. Não, não havia uma grande mulher atrás dele. Havia mais do que isso. Nancy Reagan gostava de mandar em tudo. Inclusive na agenda do marido. E para isso consultava seus mapas astrológicos. Sério. Como se vê, por detrás de um grande canastrão existe sempre um astrólogo... E voltamos ao começo do artigo: “Lá, como cá...”.