A reforma educativa não deve ser uma estratégia para desviar atenções

 

Ilustra: Luppa Silva Aparentemente, a “prioridade da educação” é um tema não controverso. Coloque pessoas de diferentes orientações ideológicas e esse mantra tende a virar uma unanimidade. Amém. Ao mesmo tempo, comece a falar sobre a “crise da educação” e logo em seguida temos um festival em que todos atiram a primeira, a segunda e a enésima pedra. Talvez seja instrutivo ver esse script na história americana recente, porque nela a pedreira é longa e complexa.

É conhecida e colorida a estória de amor e ódio dos americanos com suas escolas. É certeira a avaliação de Norton Grubb e Marvin Lazerson (The Education Gospel: The Economic Power of Schooling, Harvard University Press, 2007): os norte-americanos parecem ter adotado o evangelho da educação, a afirmação da escola como panaceia para todos os males. Não há mal que uma boa escola não resolva, trate-se de dissolução moral, da competividade econômica, da desigualdade, do racismo, da segurança pública, do transito engarrafado ou dos distúrbios alimentares. De outro lado, ciclicamente esse herói se transforma em vilão, quando se precisa explicar porque tais problemas persistem mesmo quando o sistema educativo se expande.

Nas ultimas décadas do século XX, uma onda de reavaliações e propostas de reforma avançou com vigor naquele país. Pode-se dizer que começou a fermentar na década de 1970. A potência americana tinha passado pelos chamados 25 gloriosos do pós-guerra como se fora uma era dourada. Supremacia econômica, política, militar, cultural – o mundo se americanizava ou se dobrava, paulatinamente, ao poder do dólar, dos fuzileiros, de Hollywood. Mas em 1969, pela primeira vez, ocorre o chamado déficit gêmeo – sinal vermelho no orçamento federal e nas contas externas, simultaneamente. Em seguida, esfarelam-se as regras de Bretton Woods, as paridades fixas e o lastro-ouro do dólar. Mas é em 1973 que a ficha cai para o grande público, com as filas de automóveis diante dos postos de gasolina. O famoso choque do petróleo revelou a fragilidade de um sistema que podia esbanjar porque sabia de onde extrair o gás para desperdício. Nos anos 1970 desenvolve-se uma literatura do “declinismo”, com a aparição de supostos herdeiros da hegemonia ianque – japoneses, em primeiro lugar. Um politico norte-americano chegou a dizer que em breve futuro engenheiros americanos varreriam o chão de laboratórios dirigidos por japoneses. No começo dos anos 1980, um relatório dramático mostrava este quadro como uma espécie de suicídio: tudo ocorria, dizia o Nation at Risk, como se um poder inimigo (mas, surpreendentemente, não estrangeiro) tivesse atacado o calcanhar de Aquiles da “civilização” americana.

A escola – na sua dupla face, de problema e solução – volta ao plano frontal do debate público. Vem à luz uma enorme quantidade de estudos – oficiais, para-oficiais, privados, acadêmicos, proselitistas ou diletantes. Em todos, a educação, ainda uma vez, aparece como chave do mistério. Como santo potencial ou aspirante a demônio, mas sempre como protagonista.

Larry Cuban e David Tyak sintetizam essa questão em Tinkering toward Utopia: A Century of Public School Reform (1995). Lembram que desde longa data os americanos transformam suas ansiedades e esperanças em demandas de reforma educacional. Logo depois, em outro ensaio, o mesmo Cuban problematiza as razões dessa sublimação:

“Por que soluções para problemas econômicos mais amplos são com frequência apresentadas como reformas da escola? (...) Por que de fato os formuladores de política, federais e estaduais repetidamente apelam às escolas para ajudar a resolver os problemas econômicos nacionais? (...) porque os políticos e seus consultores tantas vezes têm denunciado o problema de um mercado de trabalho em transe como uma lacuna de competências (skills gap) entre os jovens, consequentemente virando o olhar para as escolas quando as crises econômicas acenam? Será preciso dizer que parece mais fácil consertar as escolas do que a economia?”

Foto: Reprodução


A linha de menor resistência é exibida com clareza:

"Também é mais fácil apontar o dedo para o despreparo dos jovens como o problema a ser resolvido do que culpar executivos por decisões míopes ou apontar as mudanças em uma economia impulsionada pelas forças de mercado que são mal compreendidas”

Aquilo que se produz com tais operações diversionistas, não importa quão conscientes sejam, é algo ainda mais complexo e ambíguo, dizem Cuban e Tyak. Por um lado, pode surgir – e volta e meia efetivamente surge –  um movimento reformista com impacto saudável nos “movimentos cívicos”. Por outro, a confusão no diagnóstico também pode levar (e muitas vezes leva) a receitar reformas condenadas à derrota, com o consequente indiciamento da escola como inimiga do progresso desejado. Mais ainda:

“Mais importante, a tradição utópica de reforma social através da educação tem frequentemente desviado a atenção de reformas sociais mais caras, politicamente controversas e mais difíceis. É mais fácil fornecer educação profissional do que corrigir as iniquidades no mercado de trabalho e as brutais disparidades de riqueza e renda”

Assim, as escolas passam rapidamente da posição de panaceia para a de bode-expiatório. Também com frequência, a manufatura dessa “crise estrutural” ou “existencial” é um argumento de ocasião, quase um pretexto, para uma solução que estava na manga e sequer dependia do diagnóstico, mas dos interesses e preconceitos: do caos produzido sai a luz das soluções milagrosas do Market-alike, as “soluções de mercado”. Certa vez, ouvi com incredulidade, um economista dissertar sobre os “bens naturais de mercado, como a educação e a saúde”. Quem diz isso diz qualquer coisa. Ou nada.

PS: O artigo de Larry Cuban –“What Policy Makers and Experts See (and Do Not See) in School-to-Work Transitions” – pode ser encontrado neste endereço: https://eric.ed.gov/?id=ED423412