A engenharia do caos – é essa a nova política?

Ilustra: Luppa SilvaAcaba de sair um novo livro de Giuliano da Empoli, escritor, consultor político e ex-candidato ao senado italiano pelo Partido Democrático (oriundo do Partido Democratico de la Sinistra, o sucessor social democrata do Partido Comunista Italiano).

O livro é uma enorme provocação e o texto que escrevo, a seguir, aceita essa provocação. O leitor não espere ter aqui retratadas as ideias exatas de Empoli. Nem um resumo delas. Aceito a provocação, como disse, e radicalizo algumas formulações do ítalo-francês. Coloque na conta do Giuliano os acertos e o bom-senso, quando os identificar. Debite na minha conta os devaneios e delírios persecutórios, não poucos.

Para quem quer ver o original, aí vai a ficha: Les ingénieurs du Chaos, Giuliano da Empoli, ed. JCLattès, Paris, 2019.

A leitura de nosso prezado da Empoli me parece levar a uma impressão imediata: o presente carnaval da desrazão tem como bloco maior a emergência ou deslanche dos movimentos populistas da nova direita, uma direita extremista, raivosa, infensa à convivência com diferentes visões de mundo.

Esse turbilhão político tem duas raízes. Uma delas é a raiva ou ressentimento que toma certos meios populares. Um outro, as máquinas que oferecem carne a tal fome.

A primeira raiz pode ser chamada de “lado da demanda”. Ou dos fatores objetivos. Diz respeito ao misterioso movimento do subsolo socioeconômico, aquele que gera multidões de vida precária, insegura, sempre à beira da insolvência e do desespero. Multidões disponíveis para comprar soluções políticas aparentemente simples e eficazes, mas, de fato, enganosas e suicidas.

A segunda raiz é o “lado oferta”. As máquinas partidárias ou para-partidárias (midiáticas, por exemplo) que geram e administram tais soluções.

De fato, essa separação talvez tenha algo de enganoso. Porque a insegurança sugerida na “raiz um” não precisa ser, exata e completamente, uma insegurança real e sentida na pele. O relevante é que seja uma percebida ou pressentida. Daí a relevância das máquinas de infoentretenimento e religião, por exemplo, para produzir o ambiente fértil.

Essa é a impressão que me ficou da tentativa de Empoli. Talvez contra a intenção do autor, os “engenheiros do caos” aparecem não apenas como os ofertadores da solução, mas, também e talvez principalmente, como os criadores ou organizadores da cena em que os personagens e seus sentimentos ganham sentido.

O livro tem alguns personagens centrais. Três profetas que, em certa medida, também flertam com o papel de messias. Não apenas anunciam a chegada da Boa Nova, eles pretendem também distribuí-la.

O primeiro e mais famoso é Steve Bannon, o guru de Donald Trump e pretenso papa da nova direita mundial, do novo movimento que se opõe à globalização, agora pela direita. Contrapondo-se ao Partido de Davos, Bannon sonha criar seu próprio Vaticano num mosteiro romano. A Internacional Populista teria ali sua escola de quadros.

Em seguida, temos Milo Yannopoulos, o blogueiro inglês que encarnou, como ninguém, o milagre de inverter a transgressão. Se um dia a esquerda aparecia como a contestação do “estabelecido”, Yannopoulos conseguiu transformar o “politicamente correto” no alvo da nova contestação. O careta, agora, é ser de esquerda. O direitista arrojado virou o novo rebelde, com direito a jaqueta de James Dean.

O terceiro é Arthur Finkelstein, homossexual judeu de New York que, apesar dessas credenciais, conseguiu virar conselheiro-mor do ultra-reacionário húngaro Viktor Orban, o paladino da família, da tradição e da cristandade.

Aparentemente, a lógica desses “engenheiros” (e de suas criaturas políticas) é aquela dos algoritmos que animam as redes sociais. Eles não buscam aplainar diferenças e produzir consensos, acordos. Eles buscam a polarização. Eles exploram a cólera de cada um, sem se preocupar com a coerência do todo. Assim, denunciar que eles “não dizem coisa com coisa”, que se contradizem, é algo que não os atinge.

 

Os profetas e seus discípulos executivos

 

Platão sonhava com o rei-filósofo. Ele era filósofo, mas não via lá grande chance de virar rei em sua Atenas. O seu  second  best, aparentemente, foi tomar carona na ditadura do discípulo Dionísio, em Siracusa. Como se sabe, não deu lá muito certo. Nossos filósofos-profetas também têm seus Dionísios. Orban, Trump ou Matteo Salvini, o  «Capitão» , para utilizar o apelido cunhado por Luca Morisi. Diz esse professor de filosofia de Verona que Salvini, hoje chefe de governo da Itália, é um campeão da comunicação polarizada. Ele não concilia, ele abraça o confronto. E é assim que envolve os seguidores, centraliza as atenções. «A continuidade do contato é a coisa mais importante », diz Morisi a respeito de seu Mussolini 2.0.

Salvini apareceu na capa de uma revista francesa, agora em maio de 2019, como «o homem forte da Europa». Se o chefe de governo da Itália de hoje é o homem forte da Europa, posso imaginar o bagaço em que está o velho continente. De qualquer modo, talvez Bannon, admirador de Matteo, tenha encontrado seu Dionísio. Ou seja, talvez ainda venha a se arrrepender. Salvini ameaça bandear-se para a China (demônio de Bannon) e o papa norte-americano teve recentemente negada sua pretensão de instalar sua escola de quadros em um mosteiro perto de Roma. Será que teremos um novo Dionísio ?

Pensando na dificuldade de manter unido o exército da nova direita, uma passagem do livro me chamou a atenção :

« Neste quadro, a importância da minoria intolerante é fundamental. Para que uma dúvida possa se espalhar no seio da maioria flexível, é necessário que o argumento radical obtenha uma certa massa crítica de apoios. Eis porque Trump e os outros populistas não podem se permitir renunciar a seus apoios mais extremados. São eles que constituem a pedra angular da mobilização em seu favor »

Os extremistas são, agora, o centro. Dão o tom da música. Mas há um problema, diz da Empoli.

O problema desse movimento talvez surja quando o pensamos como sistema. Porque ele é centrífugo – e instável. O problema dos coletivos humanos parece similar ao dos gases. É possível governar sociedades envolvidas em arranques centrífugos constantes e cada vez mais potentes ?

A desagregação, o movimento centrífugo, não foi criado por esses engenheiros nem pelas suas criaturas políticas. Ela começou com uma dinâmica econômica mais antiga, de algumas décadas, com certa inovação tecnológica, a automação, a abertura dos mercados, a explosão das faixas de desigualdade, a precarização da vida material de massas humanas mundo afora.

No plano das informações, veio a desagregação das fontes mais ou menos unificadas, tradicionais e identificáveis das «notícias». No plano da política não se podia esperar senão algo similar. A «terceira via» da «nova esquerda» a la Clinton ou Blair, o «conservadorismo compassivo » de Bush e Cameron, estratégias centrípetas, dão lugar a estratégias centrífugas, aquelas que galvanizam os extremismos para em seguida exacerbá-los. Até quando, sem explodir ?

Pode ser que os aprendizes de feiticeiro que deslancharam o processo – Trump, Salvini, Bolsonaro – percam o jogo. Percam seus apoio e virem fumaça. Mas o estilo político que introduziram – feito de ameaças, insultos, alusões racistas, mentira deliberada, paranoia conspiratória – permaneça como o centro da «nova política».

A excitação «cívica» despertada por esse estilo pode não mais se acostumar com a moderação ou a tolerância. Talvez queira algo mais forte. Mais da mesma droga. Agora na veia.