Deslocamento dos empregos – Estados Unidos, vitrine do futuro? (I)


Ilustra: Luppa SilvaA migração da produção e dos empregos têm sido um tema candente nos debates políticos norte-americanos. Alguns analistas julgam que na última campanha presidencial os dramas resultantes desse fato foram determinantes no desgaste dos democratas e na ascensão de Trump. Com ênfase nos trabalhadores manuais, os blue-collar. Contudo, na última década, a onda tem-se estendido cada vez mais ao mundo da gravata e do trabalho intelectual.

Vários estudos tentam mapear e interpretar o fenômeno das novas formas de “exportação de tarefas”, envolvendo não apenas o trabalho manual, mas, também, o intelectual, o knowledge-job. Um desses ensaios foi feito em 2003 por um par de economistas de Berkekeley, Ashok D. Bardhan e Cynthia Kroll, sobre uma “nova onda de outsourcing”. O artigo,  -The New Wave of Outsourcing -  está disponível em: http://repositories.cdlib.org/iber/fcreue/reports/1103]

Trata-se, dizem eles, da maior out-migration de empregos fora do setor manufatureiro, na história dos Estados Unidos. Envolve, cada vez mais, pessoas que operam em setores de serviços high-tech, como software, p.ex. Um exemplo óbvio – e que provavelmente chamou atenção pelo seu tamanho e precocidade – foi a contratação de serviços e estabelecimentos de escritórios e centros de desenvolvimento na Índia, por parte de empresas norte-americanas de ponta.

Os serviços tinham amplo espectro, destacam os autores. Envolviam sistemas de informação geográfica para companhias de seguros, pesquisas no mercado de ações, para firmas do setor financeiro, serviços médicos de transcrição e leitura de exames especializados, pesquisa legal online, construção e monitoramento de bancos de dados, análise de informações para firmas de consultoria e, talvez mais conhecido, o suporte a clientes através de call centers.

Trata-se não precisamente da passagem de uma forma taylorista de organização do trabalho para uma flexível: antes, parece ser a passagem do um taylorismo mecânico para um neo-taylorismo digital. O taylorismo mecânico, que marcou a economia americana (mais do que todas) no século XX, capturava o conhecimento do artesão e o embutia nos processos e dispositivos.  O taylorismo digital traduz o conhecimento operativo dos white collar em cadeias de procedimentos codificados e digitalizados. Esse conhecimento é embutido em pacotes de software dedicados e o redistribuído no espaço. Desterritorializado. É o que procura mostrar um livro de três pesquisadores britânicos - The global auction : the broken promises of education, jobs, and incomes - Phillip Brown, Hugh Lauder, and David Ashton, 2011, Oxford University Press.

A motivação dos custos menores leva as empresas a se redesenharem com a prática do outsourcing – a subcontratação de serviços e operações antes realizadas dentro da própria firma. E também o offshoring – a instalação de plantas ou compra de serviços fora do país, algo viabilizado pelas novas tecnologias de comunicação e pelo barateamento do transporte rápido.  Além das maravilhas da web, há coisas menos notadas mas decisivas. Uma invenção banal, o container (1969), fez deslanchar um conjunto de inovações organizacionais sofisticadas, que tornaram o transporte de bens e componentes por todo o planeta.

Uma outra motivação era a existência de um ambiente business-friendly nesses locais, distantes como a Ásia ou próximos como o México. Legislação favorável e tolerante para tudo o que não podiam fazer as corporações em ambientes mais vigiados. Em alguns países, para ajudar, havia também um atalho de idioma (os indianos eram educados em inglês), um estoque local de profissionais de nível superior bem treinados, um sistema legal parecido (o common law anglo-saxônico), etc.

Além da Índia, alguns outros países seriam candidatos ao offshore, ainda que em nível menos destacado: Filipinas e Malásia (call centers, back-office), assim como Rússia e Israel, para sistemas especialistas e software. Basta lembrar os custos envolvidos e o estoque de pessoal desse nível em alguns desses lugares, particularmente na Rússia. Bardhan e colegas mostram alguns dados notáveis, sobre o número de engenheiros e seu “preço” na Federação Russa e em outros recantos. Assim, por exemplo, o reino maravilhoso do pós-perestroika punha à disposição da gula ocidental nada menos do que meio milhão de pesquisadores e engenheiros de desenvolvimento. Com salários/hora vinte vezes menos do que o dos americanos!  O mesmo ocorre com programadores, médicos, advogados, analistas financeiros e contáveis. Todos eles “dispostos” a trabalhar em contratos absolutamente “flexíveis”.

 Bardhan e seus colegas escreveram um outro estudo, um livro que conta esse processo no estado da Califórnia - Globalization and a High-Tech Economy: California, the United States and Beyond (2003, Kluwer Academic Publishers, Dordrecht). E ele é especialmente interessante já que esse é o estado norte-americano com o mais antigo plano diretor de ensino superior, referência para os demais. O Estado tem enorme cobertura para o ensino superior, incluindo uma notável rede de community colleges, altamente capilarizada.

Os autores focalizam os segmentos de alta tecnologia – justamente aqueles que fazem a glória da economia da costa oeste e da Califórnia em especial – aeronáutica, informática, biotecnologia. São setores em que o insumo central e mais caro é o cérebro. Em certa ocasião, um crítico da contracultura dissera, com propriedade, que os computadores não são feitos de silício, são feitos de lógica. As indústrias de alta tecnologia, mais do que manipular coisas, manipulam símbolos: a indústria aeroespacial no sul e norte do Estado, informática no Silicon Valley, biotecnologia em San Diego e multimedia em San Francisco.

O processo de pesquisa que gera inovação é o elemento motor dessas áreas, do que resulta uma estrutura de emprego com forte representação de força de trabalho de nível superior, geograficamente concentrada. Os processos de produção rotineira, menos “nobres”, podem ser deslocados. E de fato são. Ainda mais porque esse mesmo avanço tecnológico (em áreas como transporte e comunicações) permite que isso ocorra sem perdas. Há nos Estados Unidos outros quatro grandes centros com esse perfil: Massachusetts, New Jersey, Texas, Illinois.

O que esses setores high-tech têm exportado, fundamentalmente? Algo genericamente denominado “serviços”, a rubrica que tem equilibrado a balança comercial do país. E importam “coisas”. A manufatura de eletrônicos é particularmente afetada pela operação com insumos produzidos em outra parte, sobretudo em outros países. Daí, o comércio exterior norte-americano, para manufaturados high-tech, é particularmente alto. Mas é alto sobretudo para importação de insumos.

Para o conjunto da manufatura, o índice superava os 16%. Na indústria automotiva e no setor high-tech sempre foi mais alto. Os autores mostram que quase 40% dos bens e mercadorias importados, nos EUA, já em 1992, eram constituídos de bens intermediários usados na manufatura.

 

Um fenômeno em expansão – e não só na terra de Marlboro

Por enquanto, vamos combinar: não se trata apenas de um fenômeno norte-americano. Mesmo aqui, no patropi, esses traços se repetem. Como São Paulo era (e é, ainda) o polo dominante da manufatura brasileira, soa ainda mais incômoda a piada que se conta sobre o sindicato patronal do Setor: Fiesp é sigla de Federação de Importadores do Estado de São Paulo. O que talvez explique o perfil caricato de sua direção...

Retomemos o fio do argumento para vislumbrar as consequências do fenômeno para a educação, em especial para o treinamento de profissões de alto nível de sofisticação. Uma parte grande do “comércio” internacional é, mais precisamente, trânsito de componentes. E, cada vez mais, trânsito que ocorre dentro da mesma empresa ou do grupo empresarial, o chamado comércio intra-firma. Há esse turismo de coisas – ou, mais precisamente, de partes de coisas. Contudo uma parte grande desse outsourcing está ocorrendo, cada vez mais, não com componentes físicos, mas com serviços, uma “coisa” imaterial porém cada vez mais “peso” no valor final.

Amplos segmentos do setor de serviços, durante muito tempo classificados entre os chamados non-tradable, são agora outsourced para outros países. Serviços cada vez mais “intelectualizados”, que antes eram quase que impossíveis de comprar de fora e de longe.

Como dissemos, o destino mais notório dessa viagem costuma ser a Índia, mas cada vez fica mais evidente o potencial de dois outros países, mais “bárbaros”, no sentido grego do termo – Rússia e China. Em especial, a emergência do setor de software ofereceu uma nova oportunidade para esse reservatório de força de trabalho.

O sistema educacional russo sempre foi muito forte em matemática e ciências, o que resulta em um fenômeno importante para a indústria – a sofisticação dos códigos e algoritmos, quando comparados com os indianos. É certo que os salários são mais altos do que na Índia, mas estão bem abaixo daqueles da Irlanda e Israel, outros lugares fortes de outsourcing.

Empresas americanas como Sun Microsystems, IBM e Intel montaram centros de R&D na Rússia, empregando grande número de programadores de altíssimo nível.

O que isso significa para centros avançados, como a Califórnia? A possibilidade de que uma parcela não desprezível de empregos nessa área seja também outsourced, enfrentando um padrão de perda similar ao que ocorreu na manufatura. Desse modo, o sistema educativo precisa ser repensado – diante da ameaça de se ter uma sociedade altamente polarizada. De um lado, gestores de um núcleo financeiro de alto risco e altas rendas, de outro, enormes contingentes de ex-empregados não mais empregáveis e uma grande quantidade de empregos de baixa qualificação e baixa remuneração, os “serviços pessoais” não exportáveis. Não parece um cenário palatável. Já imaginou que perfil de país é esse? Seguiremos no tema no episódio da próxima semana.

 

 

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