A sinuca de Einstein

 

Ilustração: Luppa SilvaA divulgação de resultados de pesquisas em artigos publicados em revistas científicas remonta ao século XVII e o desenvolvimento dessa prática confunde-se com a própria institucionalização da ciência. Os artigos, sua estrutura e linguagem, foram se modificando ao longo do tempo com a estruturação das áreas do conhecimento, tais quais as revistas. No início contavam apenas com um editor e aos poucos foram se estabelecendo conselhos editoriais mais amplos e, por fim, institucionalizou-se a prática da revisão por especialistas de cada artigo submetido à publicação. É a revisão por pares, que começou no século XVIII, mas institucionalizou-se de modo generalizado apenas nos anos 1940. Atualmente a revisão por pares é praticamente um sinônimo de publicação acadêmica. Com todos os seus defeitos, é o mecanismo mais disseminado de controle de qualidade na difusão do conhecimento. O que é inquestionável é que a ciência é um empreendimento de enorme sucesso, tendo como consequência o aumento no número de artigos e revistas. Dada a enxurrada crescente de artigos, há tempos tornou-se difícil acompanhar a correnteza. Surgiram assim guias bibliográficos para esse universo das publicações. O propósito deles era esse, bibliográfico, mas rapidamente passou a ser bibliométrico, isto é, possibilitou o fornecimento de indicadores de produção científica e seu impacto. Esses indicadores foram sendo legitimados em todos os níveis: externamente à academia, para prestação de contas à sociedade do que era produzido pelos pesquisadores, e internamente, como uma forma de “controle de qualidade”, passando a ter, nos dois níveis, um papel talvez exagerado na avaliação do “fazer ciência”.

Cena do Filme "O Jogo da Vida" | Reprodução Youtube | Ilustração: Luppa Silva

Nesse contexto, o portal de busca e indexação, conhecido por Web of Science, tornou-se uma espécie de Guia Michelin da ciência, sendo que o equivalente aos restaurantes seriam as revistas, estreladas pelo que se chama de fator de impacto. Assim, validar um trabalho científico é, em muitas áreas do conhecimento, ter um artigo (mais ou menos como um novo prato de um aprendiz de cozinha incluído ao menu de um restaurante) publicado em uma revista nessa base. Como no caso dos restaurantes, os critérios para a inclusão de uma revista são rígidos, embora hoje sejam mais de 12.000 revistas, democratização por um lado, mas negócio como outro qualquer, por outro lado.

Problemas à parte, a Web of Science tornou-se um cânone, e estar nela é uma aprovação tanto para artigos, quanto para as revistas. Ou seja, o que está ali é considerado como ciência (com um mínimo) de qualidade, uma percepção quase sacralizada por muitos. No entanto, como a ciência é uma atividade tão bem sucedida, ser considerado ciência (mesmo não sendo) seria também um bom investimento e qual a melhor maneira de parecer assim? Estar ali, na Web of Science, é claro.  Afinal, “o jogo é jogado”, como dizia Bacanaço no fantástico conto de João Antônio sobre a malandragem na sinuca. Qual é a “malandragem” no caso?

Aqui entra Albert Einstein e o seu artigo em coautoria com B. Podolsky e N. Rosen, publicado em 1935 (em que se propôs o famoso paradoxo EPR), parcamente citado em artigos durante 30 anos, situação que mudou a partir dos anos 1960 em função da possibilidade de verificar experimentalmente as implicações do paradoxo. A partir dos anos 1990 as citações explodiram (hoje são mais de 7000 citações na Web of Science), pois o tal paradoxo está na raiz de uma nova e importante área, a informação quântica. Rapidamente: o paradoxo se refere a que uma medição de uma parte de algo chamado estado quântico teria um efeito instantâneo sobre a medida de uma segunda parte desse estado, mesmo que as duas partes estejam separadas por grandes distâncias. A explicação do paradoxo é dada pelo que se conhece como emaranhamento quântico. Fora da física, porém, o trabalho de EPR dá margem à imaginação e especulações tentadoras para um monte de gente, sendo o artigo de Einstein & cia citado em artigos que propõem: o emaranhamento quântico nos remédios homeopáticos, os bits quânticos na teoria da personalidade de C. G. Jung, o macroemaranhamento cuidador-paciente na “jornada de cura”, explicação quântica da telepatia e, por que não, o controle consciente do cosmo. Essas especulações não são verificáveis e não passam nos testes que separam a ciência da pseudociência, pertencem ao campo do “misticismo quântico”, fenômeno cultural que precisa, aliás, de mais atenção[2]. O ponto aqui é onde eu encontrei os artigos com essas ideias e conceitos. Pois é, foi em revistas que parecem difundir conhecimentos científicos indexadas na Web of Science. Como conseguem passar pelos critérios de padrão de publicação e conteúdo editorial anunciados pelo portal? Com pequenas trapaças em meio a um jogo de regras claras, como os personagens de João Antônio na sinuca.

 


[1] Ver, por exemplo, “O fenômeno cultural do misticismo quântico” de Osvaldo Pessoa Jr.

[2] Ver, por exemplo, “O fenômeno cultural do misticismo quântico” de Osvaldo Pessoa Jr.