Foto: Antoninho Perri

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

Quando a ciência é de todos

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Ilustração: Luppa SilvaA última Pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, realizada em 2019, revela que a visitação a locais de Ciência e Tecnologia, principalmente museus, diminuiu em relação às pesquisas anteriores. As principais razões seriam a falta de interesse nesses espaços e dificuldade de acesso (“não sabe onde há museus desse tipo na região” ou “fica muito longe”)[I]. Não é o que acontece em Nova Sepetiba, uma comunidade que criou o seu próprio centro de ciências.

Nova Sepetiba fica no Bairro de Santa Cruz, zona Oeste do Rio de janeiro, estação final de trem, viagem de mais e duas horas partindo da Central do Brasil. O bairro em vulnerabilidade social não estava longe somente da ciência, muitos jovens de lá nunca tinham ido ao cinema, por exemplo. Quando discutimos percepção pública de ciência muitas vezes esquecemos as outras percepções fundamentais.

Nesse território longe dos holofotes acadêmicos, Karla Cristina de Silva Souza atuava como enfermeira, atendendo uma comunidade distante também da saúde pública. Karla achava que não era suficiente. Junto com Rosane[II] criaram a Obra Social Casa da Esperança, comprando com recursos próprios essa casa. Ainda não era bastante e Karla transformou coletivamente essa casa de esquina em espaço de educação não formal. Assim nascia o Quintal da Ciência, com a ajuda de recursos de um edital do Instituto Federal do Rio de Janeiro, campus Mesquita.

Quintal da Ciência: implantação de um centro de ciências a partir da participação da comunidade local

O Quintal completará em breve um ano de funcionamento e sua criação é o tema da dissertação de mestrado de Karla: “Quintal da Ciência: implantação de um centro de ciências a partir da participação da comunidade local”, orientada por Grazielle Rodrigues Pereira na UFRJ. Com o título, Karla espera poder articular a obtenção de novos recursos. A concepção do museu é a de inclusão social pela ciência. A comunidade participou desde o início na discussão do que viria a ser. Discutiu seu conteúdo e implantação. Os monitores são da própria comunidade, estudantes da escola pública mais próxima. Por isso só funciona aos sábados. Depois de concebido, os monitores foram capacitados. Continuam sendo e para isso se motivam para vencer as grandes distâncias para visitar os museus centrais ou apresentar seu trabalho nos eventos tão distantes da Zona Oeste do Rio.

Os experimentos e os módulos lá na casa são simples, mas seus monitores os descrevem com segurança e orgulho, pois são deles. É um encontro de ciência com afeto, afinal Quintal (o nome também foi escolhido pela comunidade) é lugar de acolhimento e descoberta. Karla e Rosane contam com a ajuda de outros voluntários: Pablo Wolf, Antônio Carlos, Ana Apolinário entre outros. E dos monitores e crianças, que fazem as perguntas que precisam ser feitas, afinal ciência é um “papo reto”, como elas percebem acertadamente.

“Papo reto” com a Karla
“Papo reto” com a Karla

Os monitores e as crianças foram na defesa da dissertação de Karla, que, aliás emocionou todos os membros da banca examinadora. Além da UFRJ, visitaram e visitam outros centros, como a Feira de Ciência e Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro, no começo de dezembro, registrada pela selfie de João Gabriel. E o Quintal levou o cinema para o bairro, cinema sobre ciência e cientistas.

O Quintal na Feira de Ciências
Algumas das atividades no Quintal da Ciência

 

O Quintal na Feira de Ciências
O Quintal na Feira de Ciências

Karla e a comunidade de Nova Sepetiba criaram algo que as discussões sobre como reverter o desinteresse pela ciência não levam em conta. O interesse pode vir sim do próprio público, que pode criar seus próprios equipamentos culturais. Não podemos pensar os caminhos sempre como o que o mundo acadêmico pode induzir. O mundo acadêmico deve prestar atenção nas iniciativas de outros lugares e, a partir disso, perguntar-se como ajudar. No caso do Quintal de Nova Sepetiba é só perguntar para as crianças e adolescentes. Eles sabem muito bem o querem. E aí oferecer condições para que eles mesmo façam o que sabem que tem que fazer. E a dissertação de Karla é o perfeito guia para novos quintais.

 

Pegar o trem na Central do Brasil com meu filho para descobrir o Quintal da Ciência foi um presente de Natal. Feliz Natal a todos.


[I]http://www.comciencia.br/cai-visitacao-dos-museus-de-ciencia-no-brasil-como-reverter-esse-quadro/

[II]Este péssimo repórter não registrou seu sobrenome.

 

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