Os livros, suas resenhas e as milhares de cartas na ciência

Ilustração: Luppa SilvaQual é a relevância de livros na produção científica? Essa pergunta aparecia (aparece?) com certa frequência nas tertúlias entre cientistas naturais, que tendem a privilegiar os artigos em revistas especializadas, indexadas e com revisão por pares. Livros e seus capítulos não contariam (tanto). Os campos das humanidades e ciências sociais retrucam, afirmando que livros são mais importantes. Um pouco afastado dessas disputas, já que aprecio os dois formatos e não me vejo torcendo por um dos times, continuo, no entanto, a chamar a atenção às diferenças contemporâneas das diversas áreas de conhecimento quanto às formas de circulação de conhecimento [I]

A balança pesa em favor dos artigos científicos em função de seu fácil uso para o tipo de “accountability” que se estabeleceu no mundo acadêmico desde o final do século passado. Mas e os livros, deixaram de ser importantes? Uma maneira simples de verificar isso é por meio das próprias bases de dados bibliográficos internacionais que indexam artigos científicos e que viraram as ferramentas para a avaliação e prestação de contas. Na Web of Science, por exemplo, entre os tipos de documentos indexados aparece “resenha de livro”, que é, sim, uma das categorias de textos publicados em várias revistas científicas. Essas resenhas são, portanto, documentos indexados e citáveis, como os artigos regulares. Uma hipótese, que quase se auto-verifica na enunciação, é de que se existem resenhas, existem também os livros resenhados. Eu me debrucei sobre isso há dez anos, mas o trabalho resultante não está disponível on-line, está naquele tipo de anais que só apareceram no papel e talvez existam em uma ou outra biblioteca por aí [II]. Uma consulta rápida na base Web of Science, no entanto, recupera o principal argumento. Uma busca realizada em finais de maio de 2019 revelou um total de 2.778.325 documentos com pelo menos um endereço de autor de uma instituição da França. Desse total, 2.255.243 documentos foram publicados em inglês (81%) e 510.535 (18,4%) em francês. Na categoria resenha de livro surgem 29.393 documentos (1% do total), com inversão no uso da língua: francês vence o inglês pelo placar de 63% a 33%. Para a Alemanha o cenário é parecido: do total de 3.287.270 documentos, 12,6% são em alemão, mas no que se refere às 48.270 resenhas, 57% são na língua de Goethe. Esses números compreendem as dezenas de anos cobertas pela base de dados, mas é importante observar que a frequência anual de publicação de resenhas não diminuiu nos anos recentes.

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Distribuição de resenhas de livros publicadas por autores de instituições francesas. Fonte: Web of Science

Em que revistas aparecem essas resenhas de livros? Quase todas em revistas de humanidades e ciências sociais, do que se infere que são sobre livros nessas áreas e, portanto, a disseminação do conhecimento por eles ainda é importante, como ilustrado no mapa. Livros, porém, foram também de grande importância para as ciências naturais, quando estas estavam se formando ou consolidando, e um ou outro exemplo resgatado desses primórdios valem ser lembrados. A longeva e pioneira Philosophical Transactions [III] já publicava resenhas de livros junto aos artigos, desde seus primórdios. Dentre várias resenhas, acessíveis pelo https://www.jstor.org/, escolho uma sobre um livro de Jean-Baptiste du Hammel (1624-1706), clérigo e filósofo natural francês. O livro em questão, De Corporis affectionibus, foi publicado em latim, mas a resenha está em inglês [IV](ver ilustração). O livro, segundo a resenha, declara, já no início, a vantagem dos modernos filósofos sobre os gregos com os avanços devido às observações e experimentos. Os temas de investigações eram enunciados e organizados e é possível imaginar que das propostas de organização, desse e de outros livros, o delineamento de futuras disciplinas começava a ser engendrado.

As fontes das novas investigações e experimentos eram referenciadas nominalmente numa época em que referências bibliográficas ainda não eram práticas correntes. Estão ali Robert Boyle e Robert Hooke, da Inglaterra; René Descartes e Blaise Pascal, da França; Galileu Galilei e Evangelista Torricelli, da Itália; e Otto von Guericke, da Holanda, entre outros. Da leitura dessa resenha aprendemos sobre a existência de filósofos naturais menos conhecidos hoje, como Erasmus Bartholin, médico, cientista e gramático dinamarquês, responsável pela primeira pesquisa experimental de sua terra natal.

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A lista dos filósofos naturais que aparecem na resenha sugere que havia uma intensa circulação de conhecimento naquela época entre os diferentes países. Essa circulação não era apenas por meio da publicação de artigos, mas também pelas resenhas dos livros e, pouco discutido nas breves introduções sobre história da ciência, pela correspondência trocada entre os estudiosos da época. O eminente editor da Philosophical Transactions, onde se publicavam tanto resenhas, quanto cartas, Henry Oldenburg, era um dos homens de letras que mantinham intensa correspondência, como já mencionado: desde o mesmo Rasmus Bartholin, que apareceu na resenha descrita acima, até Baruch Spinoza na Holanda, passando por Gottfried Leibniz na Alemanha, entre muitos outros contemporâneos.  Antes de falar dessa correspondência, uma curiosidade. Talvez pela frequente publicação de resenhas na revista de Oldenburg, Pierre Bayle, filósofo francês, tenha se inspirado para conceber e editar a Nouvelles de la république des lettres (Notícias da república das letras), o primeiro periódico dedicado a resenhas de livros, legítimo precursor do The New York Times Book Review, criado em 1684. E com isso misturo correspondência de homens letrados e repúblicas das letras para a parte final desse texto.

A expressão República das Letras surgiu em 1417, quando o humanista italiano Francesco Barbaro escreveu longa e caprichada carta a Poggio Bracciolini, relatando a descoberta de manuscritos de autores romanos antigos. O uso esporádico da expressão a partir de então se intensificou nos séculos XVI e XVII, como o nome da revista de Bayle sugere. Era o equivalente ao que hoje chamamos de rede social, mas tecida por cartas trocadas entre professores, filósofos, médicos, advogados e diletantes. As temáticas das cartas foram se modificando ao longo do tempo, sendo que a do século XVII centrava-se nas nascentes ciências naturais [V]. Era uma troca intensa de cartas densas, muitas publicadas nas revistas que começaram a surgir no século XVII, como a já comentada Philosophical Transactions (seu editor, claro, fazia parte da rede), frequentemente compiladas em livros, como as cartas de Descartes, resenhadas também na revista de Oldenbrug [VI] e, felizmente, pelo menos arquivadas. A importância dessa república sem território vem sendo investigada curiosamente por ferramentas típicas da era das redes sociais digitais, como pelo projeto “Circulação de conhecimento e práticas eruditas na república holandesa no século XVII [VII], que analisa um corpus de mais de 20 mil cartas da época, incluindo 727 de Descartes e mais de 3.000 de Christiaan Huygens, importante astrônomo, físico e matemático holandês. Uma das publicações do projeto apresenta uma montagem de um recorte da rede de comunicação por cartas na época, que reproduzo aqui sem permissão [VIII]. A rede (ou grafo, termo técnico) é de co-citações de autores nas cartas: quem era mencionado junto de quem, tanto da época como anteriores a ela. Na universidade de Stanford existe o grupo “Mapeando a república das letras” [IX]. Voltado a todo o período, 1500 a 1800, um resultado interessante é do período final, o iluminismo, como a rede social epistolar de Voltaire, evidenciando sua pequena penetração na Inglaterra.

O interesse por essa república de circulação e pela importância da troca de correspondência na construção da ciência passa também a despertar a pergunta sobre sua existência e relevância hoje. Habituados a enxergar a ciência pelos seus indicadores, centrados em artigos de fácil acesso, como ver a importância das cartas, no caso os e-mails, hoje? Teríamos uma república do e-mail? [X] Ou do WhatsApp, ainda mais recentemente? A troca de cartas, e-mails ou mensagens revelou-se uma possibilidade de entender melhor os processos e não só os produtos da ciência.

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[I] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/os-numeros-da-universidade

[II] E.J.T. Manganote e P.A. Schulz 12th International Conference on Scientometrics and Informetrics. English versus native languages in humanities and social sciences publications: time evolution, choices and geopolitical issues.. 2009.

[III] https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/peter-schulz/o-embate-nos-primordios-da-ciencia-precisa-ser-relembrado

[IV] De Corporum Affectionibus Cummanifestis Tum Occultis, Libri Duo: SeuPromotae per Experimenta Philosophiae Specimen by J. B. du Hamel. Philosophical Transactions (1665-1678), Vol. 5 (1670), pp. 2105-2014

[V] What was the republic  of letters? Dirk van Miert

[VI] Le Tome troisieme et dernier des Lettres de M. Descartes by M. Descartes, Philosophical Transactions (1665-1678), Vol. 1 (1665 - 1666), pp. 392-397

[VII] http://ckcc.huygens.knaw.nl/

[VIII] https://www.jstor.org/stable/j.ctv3t5qjk

[IX] http://republicofletters.stanford.edu/

[X] A INFLUÊNCIA DAS CORRESPONDÊNCIAS CIENTÍFICAS NOS COLÉGIOS INVISÍVEIS: VERIFICAÇÃO A PARTIR DA LITERATURA Lucas Mendes e Elaine Rosangela de Oliveira Lucas. Anais do 6º Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria, p. 559