Foto: Antoninho Perri

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

Olhando para a África

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Foto: ReproduçãoEste passeio pelos sítios não começa com a ajuda do perdigueiro digital, que atende pelo nome de Google, mas sim com uma conversa pessoal durante um traslado hotel-aeroporto, quando um amigo me contou sobre um concurso de vídeos de divulgação científica para estudantes de pós-graduação, o Imagine-Pangea. Por curiosidade assisti aos vídeos dos vencedores deste ano, em especial a melhor apresentação africana [I], de um estudante da Universidade de Abomey-Calavi, do Benin. Uma bela narrativa sobre a pesquisa de propriedades antioxidantes de uma planta daquele país. O cenário é de um laboratório, provavelmente de ensino, com suas bancadas azulejadas, mas com os instrumentos provavelmente guardados nos armários fora da cena. Nunca tinha ouvido falar dessa universidade, mas vai aqui seu sítio, curto e grosso: uac.bj/web/ .

Quase nunca olhamos para essas latitudes do outro lado do Atlântico. Recorro, influenciado pelo Zeitgeist em que vivemos, à edição 2018 do World University Ranking do Times Higher Education (THE), buscando, por países, as universidades africanas entre as 1.000 melhores do mundo. São 24, espalhadas pela África do Sul (8), Argélia (1), Egito (9), Gana (1), Marrocos (2), Nigéria (1), Quênia (1) e Uganda (1). Há a menção a outras 3, na curiosa faixa 1001+.  Benin e outros 45 países do continente não estão contemplados. Nesta edição do ranking aparecem as 21 universidades brasileiras entre as 1000, bem como outras 11 na nova faixa 1001+. A população do Brasil é de 208 milhões de habitantes, a do continente africano é 6 vezes maior. Grande assimetria entre os já assimétricos em relação a 3 outros continentes. Mas existem outras filigranas. Entre as duas universidades marroquinas do ranking não se encontra a Universidade Al-Karaouine, considerada a mais antiga do mundo, fundada em 859.

Foto: Reprodução
Vista parcial da Universidade Al-Karaouine, fundada em 859 no Marrocos

Na lista egípcia não se encontra a Universidade Al-Azhar, a segunda mais antiga, que iniciou as atividades em 970. Ambas desbancam Bolonha em idade, mas determinar marcos iniciais de qualquer coisa é matéria controversa. Certamente as duas mais antigas hoje incorporam aspectos dos desdobramentos que a jovem universidade de Bolonha provocou. E como está hoje, por exemplo, Al-Azhar? Entre vários vídeos, escolho um documentário de Brigid Maher, que se dedicada a questões de gênero: Ladies of Brilliance – students at Al-Azhar University. Assistam:


No extremo sul do continente temos na liderança a Universidade da Cidade do Cabo, ocupando o assento 171 no Ranking Express do THE. A segunda colocada ocupa um vagão mais atrás, já sem assentos numerados, para as posições 251 a 300 (o mesmo vagão da USP): a Universidade de Witwatersrand, que merece um link especial no sítio do ranking, descrevendo-a como palco de importante resistência ao Apartheid (não sem polarizações internas). Seu mais famoso ex-aluno foi Nelson Mandela, além de outros 3 prêmios Nobel. Seu sítio (https://www.wits.ac.za/) destaca, entre outras, uma pesquisa em comunicação quântica realizada em colaboração com pesquisadores escoceses e traz na agenda uma performance do movimento “Afriqueer: uma paisagem de sonhos das masculinidades na África e na Europa”. A tournée desse ano começa na África do Sul, segue para a Holanda e volta para Gana e Moçambique. O movimento começou há dois anos. Por aqui, ficamos com o Youtube para ter uma palha:


Universidades são (ou deveriam ser) palcos de liberdade de expressão e, se necessário, resistência. Com isso vale a pena ficar atento ao novo endereço da universidade de Berkeley, tema para futuro próximo neste espaço. Por enquanto fica a epígrafe no sítio californiano:

“Nossas vidas começam a terminar no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam” (Martin Luther King).

 


[I] https://www.youtube.com/watch?v=Aa7TwlpxtVM&index=1&list=PLb5PhrSuJz9DsHA-OPi2ryZJZ7iThkgWG

 

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