O jogo das contas de vidro

As transições rápidas entre atividades diferentes sem sair do lugar, que caracterizam o dia-a-dia de muitos dias hoje, evocam a nostalgia de outros tempos. Uma nostalgia que, no entanto, insinua-se como um alerta.

A curiosidade, por exemplo, como se manifesta? Sem tantos recursos no começo dos anos 1980, estudantes conversávamos nos poucos espaços sombreados disponíveis na Unicamp então de poucas árvores. O acesso ao estranho era mais difícil e resolvemos, não sei bem como e porque, discutir o que não se via nas aulas de Física, ou nos seminários, que ainda raramente entendíamos. Decidimos discutir então o que não tínhamos ainda condições de entender. Mas qual é o problema nisso? Acabávamos, por fim, tendo que reconhecer que teorias de calibre estavam fora do nosso alcance e continuávamos a conversar sobre ciência. E, às vezes, convidávamos um professor para isso. Lembro-me de quando Harvey Brown, professor emérito de Oxford, mas naquela época pesquisando e lecionando na Unicamp, sentou-se em roda conosco para falar sobre o gato de Schroedinger. Era de noite, na casa do DCE, que não existe mais, no centro da cidade. Ainda não tínhamos ideia do que era mecânica quântica, pré-requisito necessário para entender o gato, mas qual era o problema nisso? Harvey Brown não via nenhum, nem nós. Pouco entendíamos, mas muito nos inspiramos.

Nosso grupo era algo anárquico, nada como os grupos de estudos com leituras obrigatórias e seus fichamentos. Organização estudantil sem estatuto, tinha nome: O Jogo das contas de vidro! Em um dos nossos encontros, Marcus Zwanziger, que gostava de conversar e instigar os estudantes, sugeriu que o grupo merecia como nome o título do romance de Herman Hesse. Na época ninguém percebeu a deferência de tal título informal, mas o jogo das contas de vidro, livro e grupo, marcou a muitos de nós: aprendemos aí o quanto que de tantas coisas precisávamos aprender.

O jogo seguiu assim por um tempo e se transformou para mim em etapas posteriores. No departamento do Instituto de Física da Unicamp onde começara meu mestrado, nos idos da mesma década, Alfredo Miguel Ozório de Almeida, criava o Journal Club – JC - de lá: seminários informais sobre temas gerais ligados à Física. Tive a honra de ser o segundo estudante a dar um seminário nesse clube. Participações sempre sem certificados para contabilizar no currículo. A tradição perdura, são mais de trinta anos ininterruptos, sempre às sextas na hora do almoço. A organização é simples, alguém é alçado ao “cargo”, que marca uma reunião a cada começo de semestre e coloca numa lousa as datas. Cada participante vai lá e coloca o nome em algum dia. O resto é simples, basta lembrar na sexta anterior quem seria o próximo. E trazer a cachaça, quando isso era permitido no campus. Tive o privilégio também de organizar o JC por vários semestres e todo mundo levava (e leva ainda) a sério, não lembro quem era meu antecessor, mas fui sucedido por Eduardo Miranda. Escolhendo temas pela curiosidade, podíamos gastar dias nos preparando para não falar uma besteira completa. Como no jogo das contas de vidro. E, se sai bobagem, ninguém reclama e se alguém na plateia porventura está mais bem informado, toma as rédeas da conversa. E o jogo é sempre rápido, quem ultrapassa os vinte minutos começa a receber os sinais de desaprovação. Hoje, nesses tempos de pandemia, os encontros seguem virtuais, organizados por Ricardo Doretto.

Uma das sessões do Journal Club no começo do século
Uma das sessões do Journal Club no começo do século

O JC não cabe no currículo também, mas sua organização começou a ser mencionada nos campos abertos de relatórios de atividades de seus organizadores, pois mesmo sendo um evento não registrado, era (e é) de reconhecida relevância. A curiosidade inicial, que se transformava em desespero para preparar um seminário com nexo, muitas vezes acabava virando projeto de pesquisa.  O registro aqui é de memória afetiva, faz tempo que não frequento, pois passei a ser assíduo em outras plagas, para onde nunca consegui levar a ideia, pois estamos sempre muito ocupados com outros jogos.

A maior parte do texto acima contrasta com a última frase, o que provoca uma pergunta: o etos que criou o Journal Club na forma descrita ainda existe na universidade em geral? As lembranças voltaram e a pergunta surgiu com a leitura de um artigo, encontrado em busca aleatória: “O etos em jogo: gerencialismo de performance e o trabalho nas universidades”[I], de um grupo de pesquisadores finlandeses de departamentos de Economia e de Administração. O resumo do artigo termina com a seguinte frase: “mais significativo, nós destacamos como a proliferação do gerencialismo [e a mercantilização] pode ser visto como uma catalisador para a mudança do próprio etos do que é ser um acadêmico e de fazer trabalho acadêmico”. O estudo finlandês é extenso e metódico, com dados coletados de quase 1000 entrevistados, com algumas conclusões que respaldam percepções de outros lugares, onde, na ausência de estudos similares, nem a discussão é feita. Uma delas: “para além das métricas e medidas, nossos respondentes descrevem o surgimento de um novo tipo de ideal de universidade, que favorece a competição e resultados de curto prazo no lugar de colegialidade e discussão acadêmica”.

Resistência às mudanças e nostalgia a parte, é preciso muito cuidado para não transformar os jogos de contas de vidro em, simplesmente, jogos de contas. De curto prazo.

 

 

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.

 

 


[I] Ethos at stake: Performance management and academic work in universities. Kirsi-Mari Kallio, Tomi J Kallio, Janne Tienari, Timo Hyvönen. human relations 2016, Vol. 69(3) 685–709.