Matou a cascavel e publicou o pau

Ilustração: Luppa Silva“Há não muito tempo foi dada a oportunidade em uma reunião da Royal Society para discorrer sobre cascavéis, na qual o nobre e inquisidor cavalheiro, capitão Silas Taylor, relatou o modo pelo qual elas são mortas na Virgínia, modo que ele posteriormente com satisfação descreveu por escrito, com o testemunho de duas pessoas críveis na presença das quais o fato ocorreu, como relatado no que segue”.  (Philosophical Transactions, Vol. 1 (1665-1666), p. 43)

O artigo segue descrevendo uma planta nessa região dos Estados Unidos e que suas folhas, amarradas à ponta de uma longa vara, ao serem aproximadas do nariz de uma cascavel, levaram-na à morte em menos de meia hora, supostamente pelo odor.

No volume 2 (1666-1667) do Philosophical Transactions, às páginas 557-559, um artigo descreve uma transfusão de sangue de uma ovelha para um homem. A cobaia, o Sr. Arthur Coga, passou bem, de acordo com o texto, após o experimento, dispondo-se a repeti-lo. A quantidade de sangue recebida pelo Sr. Coga foi estimada em 6 a 7 onças. O processo durou poucos minutos apenas, devido à coagulação do sangue no tubo usado para a transfusão. Os Drs. Richard Lower e Edmund King terminam o relato revelando a esperança de alcançar maior precisão na próxima tentativa. A maior parte do artigo relata as dificuldades de realização da transfusão.

Esses artigos foram publicados na Philosophycal Transactions of the Royal Society of London, lançada em março de 1665, poucos meses depois do surgimento da revista acadêmica pioneira, o francês Journal des Savants [I]. Mesmo não sendo herpetólogo ou hematologista, é possível perceber que o excerto sobre a cascavel e a descrição do experimento de transfusão não se parecem em nada com o que hoje reconhecemos como artigos científicos em herpetologia ou hematologia, campos do conhecimento que, aliás, não existiam na época. Continuando a navegação pelos fac-símiles dessas publicações do século XVII, que são de livre acesso pelo portal JSTOR (www.jstor.org), encontram-se também autores como Robert Hooke, Robert Boyle ou Isaac Newton, que acabariam entrando para a história da ciência.  São textos sobre assuntos que já se pareciam bem com o que reconhecemos como Física, embora esse termo só passasse a designar uma parte da Filosofia Natural muito tempo depois. Mas esses textos também soam estranhos. Por exemplo, Isaac Newton começa um artigo (na época eram frequentemente no formato de cartas ao editor da revista) assim: “Senhor, para realizar uma promessa antiga, devo sem maior cerimônia torná-lo ciente de que no começo do ano de 1666 eu adquiri um prisma triangular de vidro para com ele tentar o celebrado fenômeno das cores...” (Philosophical Transactions, vol. 6 (1671), p. 3075). E continua, descrevendo uma “nova teoria sobre luz e cores”, incluindo até figuras, que eram bastante raras nos artigos de então.

Foto: Reprodução
De cima para baixo, fac-símiles de artigos de Isaac Newton, o que descreve a transfusão de sangue de ovelha e o relato sobre cascáveis

Assim surge uma pergunta: como é que as narrativas que comunicam a ciência se modificaram desde os primórdios da ciência moderna e transformaram-se nos artigos científicos atuais?  Justamente as Transactions continuam a ser publicadas até hoje, fonte inestimável, portanto, para vasculhar como os textos científicos foram se transformando. Essa tarefa foi empreendida por Dwight Aktinson [II], que se baseou nos Transactions para entender a evolução da escrita científica em inglês no período de 1675 a 1975, buscando olhar para aspectos linguísticos e o deslocamento da centralidade retórica nesses três séculos. Aktinson observa que no início predominavam a comunicação cavalheiresca e centrada no autor. Aos poucos os textos passaram a ser focados nos objetos, a linguagem tornando-se impessoal, a voz passiva passando a dominar sobre a voz ativa.  A atenção à metodologia e à precisão, bem como o interesse na especialização disciplinar, levou a profundas mudanças nos textos durante o século XIX, perdendo-se exatamente os elementos de narrativa anteriores. De fato, detendo-se nas edições do século XVII é possível ler a maioria dos artigos como se fossem crônicas. No final do século XIX os textos científicos eram hegemonicamente impessoais, centrados no objeto, na voz passiva e com a retórica preocupada com a metodologia e descrição precisa dos experimentos. Foi durante o século XIX que o método científico tornou-se o foco retórico predominante. Segundo Aktinson, “uma afirmação altamente influente nesse contexto foi a do matemático e astrônomo inglês John Herschel em 1830, que descreve o método científico como o elo que une as áreas do esforço científico. Outros cientistas nesse período começaram a citar a explicitude de descrições metodológicas como o principal critério para diferenciar a pesquisa científica sólida daquela que é frágil e suspeita”.

Ao final do século XIX uma nova mudança retórica passaria a ocorrer, a metodologia considerada como a suprema fonte de poder e autoridade no estudo da natureza, abriu caminho para uma visão mais reflexiva. As descrições metodológicas começaram a perder espaço para descrições teóricas e discussões. Quais os agentes dessas novas modificações? Quais são as modificações que estão ocorrendo agora? Não há espaço aqui para a difícil tarefa de responder a essa pergunta, as pistas são inúmeras.  Mas podemos ter certeza de que as narrativas continuam mudando.

 


[I] Enquanto o Journal se direcionou para as humanidades, os Transactions rapidamente se direcionaram para as ciências naturais.

[II] Aktinson, Dwight: The "Philosophical Transactions of the Royal Society of London," 1675-1975: A Sociohistorical Discourse Analysis, Language in Society, Vol. 25, No. 3 (Sep., 1996), pp. 333-371