COVID-19: os dados em vez das opiniões

O fim de semana foi assustador, aparentemente crescem as manifestações contra o isolamento social, com reclamos de intervenções inconstitucionais de toda ordem. Posicionamentos contra o isolamento acontecem em outros países, mas aqui transformou-se em paroxismo, sempre ancorado em opiniões desinformadas, deliberadamente ou não.

Os dados é que precisam se pronunciar. No começo da pandemia da COVID-19, ainda restrita à China, deparei-me com a página especial dedicada à COVID-19 da Universidade Johns Hopkins dos Estados Unidos da América. Desde princípios de fevereiro é aba constantemente aberta no meu celular. De lá para cá virou fonte dos principais veículos de imprensa e informação validada pelo mundo afora. E é muito simples, basta olhar diariamente a fonte de dados e refletir sobre eles. Mas isso, em tempos acelerados e polarizados, parece ser muito trabalho: boa parte dos membros da sociedade se contentam em ler os excertos manipulados e compartilhá-los no frenesi do slogan “tá vendo?”. Mas os dados são dados e fatos são os fatos, valendo ainda a máxima do senador Daniel Patrick Moynihan (1927-2003): “Você tem direito a suas próprias opiniões, mas não tem direito a seus próprios fatos". Quais são os fatos? Quais são os dados?

No caso do portal especial da Universidade Johns Hopkins, ilustrado na primeira figura, temos desde o número de total de casos da COVID-19 pelo mundo, por países, o mapa de distribuição, gráficos, rankings de mortes, número de testes, e de recuperados. Os dados são muitos, nem sempre precisos, atualizados várias vezes ao dia. Checo a precisão da coleta desses dados mundo afora comparando o que é informado por aqui com o que aparece lá. É uma compilação difícil, os protocolos em cada país devem ser diferentes, bem como os números de testes e suas dinâmicas de aplicação. Existem atrasos entre as datas de informação de novos casos e as datas de infecção, devido ao tempo que os sempre insuficientes testes demoram para serem avaliados e informados. Mesmo assim, com mais de dois milhões de casos em todo mundo, algo podemos aprender, além do que anuncia a “Universidade do WhatsApp”. 
 
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As imagens a seguir mostram alguns dados que podem ser úteis: os novos casos diários diagnosticados no mundo e por país. Basta clicar em algum país na tabela à esquerda, que o gráfico correspondente aparece no canto inferior direito. Como outro clique é possível expandir o gráfico. Convido a todos a acompanhar a página da Universidade Johns Hopkins no lugar dos comentários nos grupos de WhatsApp. Escolhi alguns países sobre os quais acompanhamos notícias diárias e outros nem tanto. A estruturação da página exigiu algum artesanato: para ter acesso aos dados é preciso inscrever-se e declarar que serão usados para fins de pesquisa. Não é o caso desse texto, é apenas uma coluna. Assim, precisei recorrer ao “print screen” e outros ajustes, copiando e colando. Com isso a resolução de imagens foi se perdendo, sendo parcialmente recuperada na edição das mesmas. Os dados foram coletados em 19 de abril de 2020.

Primeiro a evolução dos novos casos diários somados de todos os países. Observa-se à esquerda, que o caso chinês com o seu pico em fevereiro praticamente desaparece na escala do gráfico para o mundo todo em que em alguns dias chegou-se à marca de 100 mil novos casos diários, que é maior do que o total na China. Esse crescimento pelo mundo começou a se acentuar quando na China e na Coreia do Sul já estavam em franco declínio. Talvez seja relevante prestar a atenção à evolução na Coreia do Sul: após a queda abrupta do pico de novos casos, seguiu-se um período revelando números aproximadamente constantes, que começaram a diminuir de forma significativa mais recentemente. No gráfico para o mundo observamos oscilações semanais: nos fins de semana as notificações de novos casos decrescem, não só no Brasil, mas em vários países. 

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No segundo conjunto de gráficos temos três importantes casos europeus, que estão na liderança entre os países com mais infectados. Os dramas da Itália e da Espanha são amplamente noticiados no Brasil, mas a situação na Alemanha nem tanto. Apesar do grande número de casos, aparentemente o sistema de saúde alemão não entrou em colapso. Nos três países as ações (ou falta de) no início da pandemia foram diferentes, com a negação e depois quebra da prática de distanciamento social na Itália. A recuperação desse país, ou seja, a diminuição do número de novos casos, também parece ser mais lenta do que na Espanha e na Alemanha. Nos três países observam-se claramente as oscilações, devidas aos fins de semana, na notificação de infectados. A tendência descendente é suficiente para relaxar o isolamento? Chamo a atenção à última semana na Espanha, com um novo pico de 6000 novos casos.

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Estados Unidos são os líderes no número total de casos e de novos infectados diários e a situação também é grave no Reino Unido, onde os números diários se aproximam do que foi o pico na Itália. Importante lembrar que os chefes de governo de ambos países negavam ou minimizavam a pandemia, que se acentuou nesses países bem depois do drama italiano: tempo e vidas preciosas perdidas. Na mesma figura junta-se um dos primeiros países gravemente afetados, o Irã. Importante no caso iraniano é notar que depois que o número de novos casos parou de crescer, como talvez seja o caso nos EUA e Reino Unido uma nova onda surgiu rapidamente, que passou a diminuir, mas muito lentamente e número de casos novos diários ainda é maior do que há um mês. O exemplo mostra o perigo de se enxergar um aparente controle, quando não se observa um aumento no número diário de infectados.

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Quando então relaxar medidas de isolamento? Essa é a proposta da Áustria para o fim de abril. O gráfico para esse país apresenta um comportamento único com a acentuada e relativamente rápida queda no número de novos casos. Será muito importante observar como evoluirá a curva depois de (se for de fato) diminuído o distanciamento social. No meio da figura encaixo o Brasil, onde, apesar das medidas locais de isolamento, o número de casos novos diários não parou de crescer (salvo nas acentuadas oscilações devido aos fins de semana), ultrapassando a marca de 3000 notificações diárias. Não há indícios visíveis de que esses números vão parar de crescer. Ao lado aparecem os dados para o Japão, que até há pouco tempo declarava que a pandemia por lá estava sob controle.

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Na última figura uma seleção de “novas bolas da vez” (outras virão, como a Índia e os países africanos), que declaravam no início que a situação estava sob controle ou que ostensivamente negavam a existência do problema (México). A Turquia passou a ser um dos países com o maior número de casos e a Rússia avança rapidamente, o número de casos avança de forma exponencial, tendo superado o Brasil na semana passada, embora com um número de mortos significativamente menor (405).

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Esse conjunto de gráficos evidencia a complexidade da pandemia com um conjunto de variáveis muito grande, diferentes em cada país: diferenças nas posições e nas ações das autoridades, nas realizações de testes, na adesão e comportamento frente ao distanciamento social, nas condições para o isolamento, além de outros fatores. Uma coisa parece ser clara: entender a pandemia da COVID-19 necessita das ciências humanas e sociais baseadas nos dados. A outra evidência: o isolamento social é absolutamente necessário, poucos países conseguiram controlar a crise. Por enquanto. Singapura, que chegou a ser citado como exemplo, hoje assiste a uma explosão de novos casos. Clique no site, os dados estão lá.