Culto à celebridade expõe estágio agônico do jornalismo

Assistir ao Roda Viva de 25 de julho com Fátima Bernardes chegou a ser constrangedor. Em poucos minutos, revelou-se a penúria intelectual dos formadores de opinião de nosso país. Entre salamaleques recíprocos e leves rubores, entrevistada e entrevistadores encenaram o que sobrou da vida inteligente dos órgãos de imprensa. Não por acaso a palavra “entretenimento”, sinônimo de diversão, passatempo despretensioso, embora com uma pitada de responsabilidade social, sobrevoou várias perguntas que se distribuíam entre os “faits divers”, a curiosidade privada, a unção midiática da personagem e o politicamente correto.  Uma vulgata que serviu de estribo para cada um dos participantes ostentar suas opiniões. Tudo parecia cheirar a autopromoção e networking, não fosse o esforço da âncora em colocar, de forma intermitente, um probleminha ou outro a ser pensado pelos presentes. Mas a discussão rapidamente perdia o tônus, e a flacidez dava o ar da graça.

Por que essa conversa fiada em um dos programas mais importantes e longevos da TV brasileira? A pergunta talvez denuncie a nostalgia de uma era de ouro do audiovisual, esquecendo-se de que décadas atrás o jornalismo passava por crises e vivia seus impasses. A resposta, por sua vez, exige um tratamento multifatorial e bom senso. Não é necessário ser um especialista em comunicação para compreender que a fragmentação dos canais de difusão de informação e a onipresença das redes digitais produziram uma disputa acirrada pela atenção do espectador. Antes de assistir a um vídeo no YouTube, o usuário sabe quantos minutos serão necessários para a empreitada. Um programa de mais de uma hora é uma eternidade nesse novo cenário.

“Picotar” a entrevista em momentos marcantes e fazê-los circular no ciberespaço é o procedimento mais comum para engajar os internautas e subir o assunto nos trending topics. Outra estratégia usual é criar um clima de informalidade para capturar o desejo do telespectador, induzindo-o a se identificar com os dilemas existenciais e expectativas sociais sobre determinados papeis, sem que isso o estresse e o faça apertar a tecla do controle remoto ou mover seu polegar na tela do smartphone.

Não é casual, portanto, que a trajetória profissional de Fátima Bernardes seja vista com êxito pelos entrevistadores. Sua vida pessoal participa desse círculo virtuoso no qual o privado e o público são aparentemente respeitados. A separação de seu cônjuge, que era também seu parceiro profissional na TV, e o namoro com um jovem deputado seriam exemplos de gestão bem-sucedida. A credibilidade pessoal da entrevistada emprestaria ao etos jornalístico um sinal de distinção e, mais importante, restituiria o apreço pela verdade e pela exibição pública com sobriedade, leveza e savoir-faire.

Vista por esse ângulo, a entrevista ao Roda Viva não seria tão constrangedora, como se afirmou. Afinal, alguns valores indispensáveis às relações institucionais e interpessoais estariam presentes na entrevistada. Talvez comparando a canonização das personagens religiosas e a celebração das figuras bem-sucedidas no mundo contemporâneo identificássemos o que está em jogo em nossas experiências culturais.

Se a canonização de uma experiência religiosa ambiciona ultrapassar uma escala temporal, ao fixar um conjunto de atributos morais, afirmar a realidade concreta do pecado e professar a fé na transformação da pessoa humana, a celebração da figura bem-sucedida se satisfaz com o achatamento do tempo presente e vê como redenção possível a capacidade de executar projetos de curto e médio prazo. O fracasso não é um problema da natureza humana. Ele é apenas o resultado de um público indisposto ou de estratégias pessoais e comerciais desalinhadas. Uma relação afetiva, por exemplo, é uma questão de oportunidade, de capacidade de conciliar os espaços e os tempos dos amantes. Dividir uma rotina de encontros entre Rio, Brasília e Recife não parece ser um problema quando se tem dinheiro. É uma avenida sem tráfego e bem pavimentada.

Há, claro, distâncias intransponíveis entre a empresa de Roberto Marinho e a Igreja Católica. A igreja produziu, ao longo de séculos, uma plêiade de figuras emblemáticas, e isso em parte se deve à compreensão de que o santo era um universal concreto: síntese das virtudes, o mais importante era que ele encarnasse o modelo que edificaria a comunidade cristã. Em um mundo democrático, a mais importante virtude é se esforçar em reconhecer que somos todos iguais, embora saibamos que entre o riso simpático de Fátima Bernardes, acolhido por seus entrevistadores, e os milhares de telespectadores, a chance de emular sua trajetória é próxima à do apostador compulsivo: ele mantém-se na esperança de que um dia se tornará milionário, mas dificilmente a fortuna chegará para ele. Pelo menos, com a fé haverá sempre a graça e o mistério, categorias nada democráticas, mas talvez mais perenes.