Por uma Universidade implicada na agenda de nosso tempo


Ilustração: LPS Um documento de grande importância científica e política acaba de ser lançado. Intitulado World Scientists’ Warning to Humanity: A Second Notice, essa nova advertência, redigida por William J. Ripple (Oregon State University) e coautores (entre os quais Mauro Galetti, da Unesp), retoma e atualiza a “Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade”, lançada por ocasião da ECO-92 pela Union of Concerned Scientists, do MIT, e assinada então por mais de 1.500 cientistas, incluindo a maioria dos laureados com o Prêmio Nobel. O documento de 1992 afirmava:

“Os seres humanos e o mundo natural estão em rota de colisão. As atividades humanas infligem danos, frequentemente irreversíveis, ao meio ambiente e a recursos naturais críticos. Se não forem revistas, muitas das nossas práticas atuais colocam em sério risco o futuro que desejamos para a sociedade humana e para os reinos das plantas e dos animais, e pode alterar de tal modo a biosfera que esta se tornará incapaz de sustentar a vida nos moldes em que a conhecemos. (...) Não mais que uma ou poucas décadas restam antes que a chance de evitar as ameaças atuais seja perdida, diminuindo incomensuravelmente as perspectivas da humanidade”

Também o documento de 2017, de próxima publicação na revista Bioscience, é umchamado às armas”, pois será enviado aos “líderes mundiais” com o endosso maciço da comunidade acadêmica internacional. Assinaturas serão aceitas até 19 de setembro de 2017 e cientistas de mais de 100 países já o assinaram. Há no momento (13 de agosto de 2017) cerca de cinco mil assinaturas, das quais menos de 700 provenientes de instituições brasileiras, de modo que o presente artigo tem, antes de mais nada, o objetivo de divulgar esse documento, a mim repassado pelo reitor da Unicamp. Os colegas interessados encontram o texto e demais informações neste endereço: scientistswarning.forestry.oregonstate.edu/

No 25o aniversário do documento epocal da Union of Concerned Scientists, William Ripple e colegas escrevem que “desde 1992, com exceção da estabilização da camada estratosférica de ozônio, a humanidade fracassou em fazer progressos suficientes para resolver de modo geral os desafios ambientais previstos e, alarmantemente, muitos deles estão numa situação muito pior”, como mostra a figura 1, que quantifica a deterioração generalizada após 1992, com exceção da camada de ozônio na estratofera (a):

b. recursos hídricos (- 26,1%)

c. peixes marítimos (- 6,4%)

d. número de zonas mortas no mar (+ 75,3%)

e. florestas em bilhões de hectares (- 2,8%)

f.  abundância de vertebrados, desde 1970 (- 28,9%)

g. emissões de CO2 em Gt de carbono por ano (+ 62,1%)

h. mudança na temperatura (+ 167,6%)

i. população humana e de ruminantes (+ 35,5% e + 20,5% respectivamente)

Foto: Reprodução
Fonte: http://scientistswarning.forestry.oregonstate.edu/sites/sw/files/Ripple_et_al.%20_8-6-17_scientists_warning.pdf


Três anos para a salvaguarda de nosso clima

Um segundo documento recente, complementar a essa Advertência, foi publicado nas páginas iniciais da edição de 29 de junho da revista Nature. Seu título diz a que vem: Three years to safeguard our climate. Ele é assinado por Christiana Figueres, personagem-chave do Acordo de Paris, e por Hans Joachim Schellnhuber, Gail Whiteman, Johan Rockström, Anthony Hobley e Stefan Rahmstorf, cinco entre os mais influentes cientistas da atualidade nas diversas áreas de pesquisa sobre o sistema Terra. Eles sublinham a iminência de um colapso dos ecossistemas e a inexorabilidade de seus impactos sociais:

“Após um aquecimento global de cerca de 1º C causado pela atividade humana, as geleiras da Groenlândia e da Antártica estão perdendo massa a uma taxa crescente. O gelo veranil está desaparecendo no Ártico e os recifes de corais estão morrendo – inteiros ecossistemas estão começando a colapsar. Os impactos sociais causados pelas mudanças climáticas a partir de ondas de calor intensificadas, secas e elevação do nível do mar são inexoráveis e afetam em primeiro lugar os mais pobres e mais fracos”.

Para conservar uma chance real de que o aquecimento global não ultrapasse o limiar considerado “perigoso” (supostamente acima da faixa 1,5º C a 2º C até 2100, em relação à média do período pré industrial), podemos emitir ainda entre 150 Gt a 1.050 Gt  de CO2 (Gt = gigatonelada ou bilhão de toneladas), sendo essa enorme variação de estimativas reflexo de modos diferentes de cálculo a partir dos dados mais recentes. “Na taxa atual de emissões [antropogênicas] de 41 Gt de CO2”, prosseguem os autores, “o limite inferior dessa faixa [150 Gt] será cruzado em quatro anos, e seu ponto médio de 600 Gt será ultrapassado em 15 anos”. Levando em conta apenas as emissões atmosféricas de CO2, os autores mostram quão drásticas deverão ser as curvas de redução a zero dessas emissões antropogênicas, em função do momento em que começarmos a diminuí-las (2016, 2020 ou 2025), conforme a figura 2

Foto: Reprodução

O artigo não inclui em seus cálculos as emissões de outros gases de efeito estufa, principalmente o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O) e os hidrofluorcarbonos (HFCs), os quais, se expressos em termos do potencial de aquecimento global do CO2 (CO2-equivalente), nos levavam já em 2012 a 53,5 Gt de CO2-eq, segundo dados reportados pelo Banco Mundial, como mostra a figura 3

Foto: Reprodução
Fonte: The World Bank, baseado em Emission Database for Global Atmospheric Research (EDGAR)

Estamos lançando anualmente na atmosfera 54 Gt de CO2-eq. Nesse ritmo, ao invés de quatro anos, cruzaremos o limite inferior (150 Gt) de emissões de CO2-eq que implicariam adentrar essa faixa de periculosidade climática em dois anos e meio e o limite médio de 600 Gt de CO2-eq em 2028.


Quem é a “humanidade” a quem essas advertências se destinam?

Já a Advertência de 1992 à humanidade reconhecia que “as nações desenvolvidas são os maiores poluidores no mundo hoje”. O termo “humanidade” impõe, de fato, uma precisão. Os principais destinatários dessas advertências dos cientistas são, hoje, os dez responsáveis por quase três quartos das emissões globais de gases de efeito estufa: China, EUA e União Europeia, Índia, Rússia, Japão, Brasil, Indonésia, Canadá e México, pois 100 outros países emitem apenas 3,5% desses gases. Mas, independentemente do país, são os grupos de alta renda que devem ser cobrados pelo aquecimento global, pois os 30% mais ricos do planeta são a causa de 79% das emissões antropogênicas de CO2, enquanto os 50% mais pobres emitem apenas 10%, como mostra a figura 4.

Foto: Reprodução


A extrema gravidade da situação atual

Seis características principais definem a situação atual de nossas sociedades:

1. Escala sempre maior dos desequilíbrios ambientais causados por nossa economia globalizada e compulsivamente expansiva;

2. Aceleração da velocidade do agravamento desses desequilíbrios e intensificação dos seus mecanismos de retroalimentação;

3. Irreversibilidade da elevação do nível do mar de 50 cm a 2 metros até 2100, segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA);

4. Inevitabilidade já em 2000 de um aquecimento inercial de 0,6º C (0,3º C a 0,9º C) em 2090-2099 em relação a 1980-1999, segundo a quarta avaliação do IPCC (2007) [1].

5. Iminência do esgotamento dos prazos para se evitar a ultrapassagem de outros pontos críticos (desmatamento e degradação das florestas tropicais por secas maiores, engendrando dieback, por exemplo), com probabilidade crescente de ocorrência dos piores cenários das projeções do IPCC e de outros organismos científicos já na segunda metade do século, sem excluir cenários ainda piores que os previstos;

6. Capacidade do espectro econômico e ideológico dominante de minar com falsas controvérsias a credibilidade do consenso científico, iludir-nos com promessas de “balas de prata” tecnológicas e minimizar o impacto social das sucessivas advertências científicas sobre a gravidade extrema das crises socioambientais em curso, retardando, assim, a construção de respostas políticas eficientes a essas crises.


A necessidade de uma maior implicação da Universidade

Esses seis pontos fornecem, em síntese, o retrato real e sem retoques de nossas sociedades em 2017. Mas não ainda seu destino. A Universidade tem o poder e o dever de se implicar, como força coadjuvante, no trabalho coletivo de mudar – enquanto e quanto ainda for possível – as feições desse retrato. Salvaguardar a Universidade pública significa, hoje, passar da defensiva à ofensiva, vale dizer, proclamar nossa presença nas grandes encruzilhadas do presente e nosso compromisso ético e científico de preparar nossos estudantes para o futuro sombrio que, sobretudo eles, deverão afrontar. O primeiro esforço, e o mais difícil, requerido para passar à ofensiva é reconhecer a gravidade extrema da situação atual. A Advertência de 2017 descreve-a bem ao afirmar: “Para prevenir miséria generalizada e perda catastrófica de biodiversidade, a humanidade deve praticar uma alternativa mais sustentável que o business as usual. (...) Logo será tarde demais para desviarmos de nossa trajetória de fracasso, e o tempo está se esgotando”.

Esse esforço de humildade científica que consiste em admitir a gravidade extrema de uma situação adversa criada pelo homem e a ponto de escapar de seu controle é a única reação racional a essa situação. Se esse primeiro passo for dado, ele abrirá caminho para os seguintes. Mas enquanto não nos compenetrarmos de que o nosso é um tempo limite e sem paralelo na história, que há risco real, crescente e iminente de precarização, no limite, de inviabilização de nossas sociedades e de extinção de milhões de espécies (muitas das quais dependemos crucialmente), continuaremos a nos permitir não atribuir prioridade absoluta à agenda ambiental de nosso tempo. Sem a compreensão profunda do que está em jogo, a inércia ou outros interesses prevalecerão, pois os sacrifícios requeridos agora são os de um esforço de guerra e não serão entendidos e aceitos pela sociedade sem o empenho de todos, e não por último da Universidade.

Não cabe, é claro, à Universidade, mas à sociedade civil organizada estipular a estratégia a seguir. É preciso, contudo, superar, ao menos intramuros, a crença ainda arraigada de que as crises socioambientais podem ser significativamente mitigadas: (1) pela “lógica” dos mercados dominados pela oligarquia corporativa; (2) pelo Acordo de Paris, cujos compromissos, admitidamente insuficientes, já estão sendo descumpridos; (3) por tecnologias salvíficas e experimentos tecnológicos temerários em escala planetária e (4) pelo crescimento do PIB, pois o crescimento econômico é admissível, e mesmo imprescindível, apenas onde implicar diminuição do impacto ambiental, o que pressupõe educação, transporte coletivo, agricultura orgânica e sustentável, medicina preventiva, saneamento básico e erradicação da miséria.

A segunda “Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade” exorta a sociedade a adotar as seguintes medidas: aumento das reservas naturais, fim da defaunação e restauração de habitats destruídos ou degradados, eliminação do desperdício alimentar, transição para uma dieta sem carne, fomento do livre planejamento familiar, empoderamento das mulheres, canalização de recursos financeiros para investimentos ambientalmente positivos, tais como energias de menor impacto ambiental. A ordem jurídica capitalista, fundada no direito ao controle privado dos investimentos estratégicos, é incompatível com a adoção dessa agenda, pois ela pressupõe uma redefinição socioambiental do sentido da atividade econômica e o controle democrático desses investimentos. Mas, mesmo nos marcos limitativos dessa ordem jurídica, é possível avançar na boa direção se a Universidade se lançar de corpo e alma no trabalho de pesquisar, educar e fazer entender a importância extrema dessas medidas. Concretamente, colegas de vários institutos, núcleos e laboratórios vêm discutindo e propondo oito iniciativas imediatas, factíveis e de imenso interesse:

(1) envidar mais esforços para diminuir o impacto ambiental da Universidade, inclusive facilitando a opção pela dieta sem carne nos restaurantes do campus;

(2) observar a legislação sobre os direitos animais e promovê-los nos biotérios e em toda a sociedade;

(3) estimular pesquisas interdisciplinares (inclusive propondo financiamentos específicos às agências de fomento) voltadas para o conhecimento das causas, dinâmicas e efeitos das crises socioambientais, bem como das possibilidades de mitigação e adaptação;

(4) liderar propostas conceituais e tecnológicas para a erradicação do desmatamento, da urbanização deletéria, do uso de energias fósseis, de agrotóxicos, fertilizantes químicos, polímeros e demais substâncias nocivas ao meio ambiente e aos organismos;

(5) integrar aos currículos uma formação básica obrigatória aos estudantes, e opcional aos funcionários, capacitando-os a compreender as crescentes ameaças ambientais e a melhor se posicionar em relação a elas;

(6) oferecer cursos de extensão e educação à distância sobre essa temática;

(7) criar um fórum permanente para a troca de informações, ideias e experiências (o reitor da Unicamp instituiu, para tanto, o site Crisálida), e fortalecer a rede de interações com outras Universidades, no Brasil e no exterior na área socioambiental;

(8) interagir mais efetivamente com os setores sociais, organizações e iniciativas favoráveis à minimização do impacto ambiental, tais como o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), dado que a escassez, a poluição e a privatização da água estão entre as maiores ameaças imediatas ao país.

 


[1] Cf. Climate change commitment: IPCC AR4 - Working Group I: The Physical Science Basis, 10.7 Long Term Climate Change and Commitment: “The multi-model average warming for all radiative forcing agents held constant at year 2000 (…) is about 0.6°C for the period 2090 to 2099 relative to the 1980 to 1999 reference period. (…) The likely uncertainty range is 0.3°C to 0.9°C.