O ‘marxismo científico’

Ilustração LPSUma das bandeiras mais aguerridas do bolsonarismo é o combate ao “marxismo cultural”, o que não deixa de ser duplamente intrigante, porque o rebanho de Bolsonaro nunca leu Marx e, obviamente, não faz a menor ideia do que seja cultura. Na realidade, ninguém sabe muito bem o que é esse bicho-papão que os assombra. Segundo o verbete do Wikipedia:

“Marxismo cultural é uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e de extrema-direita estadunidense desde a década de 1990. Refere-se a uma suposta forma de marxismo, alegadamente adaptada de termos econômicos a termos culturais pela Escola de Frankfurt, que teria se infiltrado nas sociedades ocidentais com o objetivo final de destruir suas instituições e valores tradicionais através do estabelecimento de uma sociedade global, igualitária e multicultural”.

O atual ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, bate-se renhidamente contra o “marxismo cultural globalista”. Ele inicia seu artigo, intitulado “Trump e o Ocidente”, [I] com as seguintes palavras:

“O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais”.

Trump é um homem de negócios cercado de pessoas às voltas com 16 inquéritos criminais e não exonerado, ele próprio, de crime de obstrução à justiça. [II]O emprego sistemático da mentira pelo presidente do EUA tem suscitado preocupação entre psiquiatras de que seus padrões de comportamento sejam típicos de um psicopata. [III] Mas Araújo obstina-se em ver nele um alter Steve Bannon, isto é, alguém que se importa com ideologias. Não percebe que Trump se desfez de Bannon justamente por isso. A apologia que Araújo faz do Trump “ideólogo” que ele inventa é de matriz nitidamente fascista. Ela ecoa, quase com as mesmas palavras, por exemplo, o discurso de Benito Mussolini, pronunciado na data fatídica de 1933: “Hoje podemos afirmar que o modo de produção capitalista está superado e com ele a teoria do liberalismo econômico que o ilustrou e dele fez apologia”. [IV] Impregnado dessa retórica pseudo-anticapitalista, Araújo parte de lança em riste contra o moinho de vento do “marxismo cultural”:

“A partir dos anos 90 foi‑se vendo que o niilismo (alimentado pelo marxismo cultural) tinha‑se substituído ao inimigo comunista. Na verdade, pode‑se argumentar que o comunismo soviético era apenas uma entre tantas máscaras desse niilismo fundamental que precede Lênin e Stálin, precede Marx, precede Nietzsche, que vem dos philosophes ateus anticristãos que prepararam a revolução francesa”.

Não apenas Trump veio para salvar o capitalismo de si mesmo, mas Stalin, como todos sabem, é descendente direto de d’Alembert e Diderot, fabricantes daquela maçã do paraíso que causou a queda da humanidade... Araújo é, em suma, apenas uma mistura pretensiosa, mal digerida e regurgitada de Spengler, Mussolini e Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995), fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que tinha na Revolução francesa sua bête noire.


O “marxismo científico”

Ocorre que o “marxismo cultural”, não contente de corroer o Ocidente, parece ter infectado a própria ciência, que se tornou agora vítima de algo que poderíamos chamar, por extensão, de “marxismo científico”. Os ministros de Bolsonaro competem em denúncias de que o marxismo “vampiriza” a ciência. Para Ernesto Araújo, a esquerda “perverteu” a causa ambiental e a transformou na “ideologia da mudança climática”. [V] Na semana passada, ele instruiu os cientistas do mundo todo de que “não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais”. [VI] Demonstrando seu total analfabetismo científico, o ministro confundiu termostato com termômetro, na mesma linha das pérolas “kaftianas” de Abraham Weintraub. Seria ótimo, de resto, se pudéssemos regular a temperatura do planeta através de vários termostatos... Infelizmente, os únicos termostatos de que dispomos são a descontinuação da queima de combustíveis fósseis, o desmatamento zero, o reflorestamento em grande escala e o fim de nossa dieta baseada em carne.

Ricardo de Aquino Salles foi condenado em 19 de dezembro de 2018 por fraudar o processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, em 2016, quando estava à frente da pasta do Meio Ambiente do ex-governador Alckmin. Além disso, de acordo com a promotora de justiça Miriam Borges, Salles é suspeito de participar, nesse período, como interlocutor de interesses de empresas, tendo sido investigado em inquéritos policiais por enriquecimento ilícito e advocacia administrativa. [VII] Um antigo artigo seu na Folha de S. Paulo termina com a seguinte referência: “Ricardo Salles, 36, mestre em direito público pela Universidade Yale”. Só que a University of Yale afirmou, num email enviado a Leandro Demori: “A Faculdade de Direito não conseguiu localizar nenhum registro indicando que Ricardo de Aquino Salles frequentou a Faculdade de Direito de Yale”. [VIII]

Em suma, Ricardo Salles reúne todas as condições para ser ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ministério que ele se encarregou de transformar em força subalterna do agronegócio. O ministro não fica atrás de Araújo em sua galeria de despautérios e de exibições despudoradas da mais crassa ignorância, igualmente insultuosa à inteligência e aos cientistas. Declarou não saber quem era Chico Mendes, figura de renome nacional e internacional, agraciado com o prêmio Global 500, oferecido pela ONU por sua luta em defesa do meio ambiente. E arrematou, em defesa própria: “O fato é que é irrelevante. Que diferença faz quem é Chico Mendes neste momento?”. Tão irrelevante, para ele, quanto as mudanças climáticas, uma vez que as considera um tema “acadêmico” e uma preocupação “para daqui a 500 anos”. [IX] De onde se conclui que a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o IPCC, 50 anos de pesquisas internacionais sobre o aquecimento global, o Acordo de Paris e todos os esforços internacionais, nacionais e subnacionais para conter a aceleração em curso da crise climática são pura perda de tempo. Vamos tratar de coisas mais imediatas e deixar essa questão para 2400... Por essa razão, Salles cancelou o encontro em Salvador da “Semana Climática” América Latina e Caribe, evento da UNFCCC, com a alegação de que este seria apenas uma oportunidade para que os participantes fizessem turismo em Salvador e comessem acarajé. [X] Levou um pito de gente grande e, garoto obediente que é, engoliu o choro e retrocedeu.


Algo mais sério...

Outro ministro, esse de verdade, a detectar essa epidemia de “marxismo científico” foi o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI). Dando sua pequena contribuição ao ódio aos fatos e à evidência científica pelo qual se pauta o governo Bolsonaro, ele atacou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), ligado ao CNPq e, portanto, ao Ministério da Ciência e Tecnologia. O INPE é uma instituição que goza da mais irrestrita credibilidade nacional e internacional e presta uma gama de serviços de inestimável importância ao país, entre os quais o monitoramento por satélites da perda de cobertura florestal, trabalho que seus cientistas desenvolvem há mais de quarenta anos, conforme se lê no histórico da instituição em sua página na internet. [XI]  Todo esse patrimônio nacional acumulado de conhecimento, que envolveu diversas gerações de estudiosos formados com os recursos do povo brasileiro, é desqualificado pelo ministro com a seguinte declaração à GloboNews[XII]

“Esses dados do desmatamento eu coloco muito em dúvida. Se nós somarmos o percentual de desmatamento que anualmente aparece no jornal, o Brasil já estava sem uma árvore. Isso também é muito manipulado”.

Com que autoridade, baseado em que dados, o ministro se permite insultar a ciência brasileira? Eleito à base de fake & hate news, o governo de que o general é peça central nutre um ódio pueril à complexidade do real, baseado na simples e pura negação de tudo o que não couber no vaso de formol em que se conservam suas fobias e suas fixações. Ocorre que os números do INPE são reais. E por serem reais, são trágicos. Quais são os dois números essenciais do INPE sobre as florestas brasileiras, que o general permite-se pôr em dúvida? Todos sabemos quais são, e Carlos Nobre, cientista sênior do próprio INPE, resume o primeiro numa frase: “ A Amazônia já tem 20% de área desmatada, equivalente a 1 milhão de km2.” [XIII] O segundo número diz respeito ao Cerrado, o bioma mais ameaçado do Brasil atualmente: 50% de sua área já foi arrasada pelo agronegócio, segundo o Prodes-Cerrado, também do INPE. Essas duas regiões são as que abrigam os principais mananciais da malha hidrográfica brasileira e ninguém ignora que sem essa vegetação não há chuva, nem lá, nem cá na parte sul do continente. E contudo apenas 8% da área do Cerrado está protegida pela legislação.

Já se aniquilou, repita-se, um quinto da área original da floresta amazônica, “a mais exuberante, colorida e diversa expressão da natureza que encheu de graça a face desse planeta em muitos milhões de anos” (Norman Myers). Apenas nos últimos três anos (2016-2018), o desmatamento da Amazônia supera 20 mil km2, ou seja, os níveis mais altos por triênio do segundo decênio do século, sendo que 95% dessa destruição vem sendo feita ilegalmente pelo agronegócio ou em seu benefício. E aqui estamos falando apenas de desmatamento por corte raso, não de degradação. Já em 2013, mais de um quarto da área de floresta da Amazônia brasileira – cerca de 1,2 milhão de km2 – era então considerado degradado e fragmentado, conforme dados aportados por Antônio Donato Nobre, também do INPE [XIV]:

“Até 2013 a área total degradada pode ter alcançado 1.255.100 km2. Somando com a área mensurada de corte raso, o impacto cumulativo no bioma pela ocupação humana pode ter atingido 2.018.079 km2. Mas a área de impacto no sentido ecológico pode ser ainda maior, porque florestas contíguas a áreas de degradação ou corte raso sofrem indiretamente dos efeitos das mudanças biogeofísicas e biogeoquímicas vizinhas. No processo de degradação, a destruição do dossel, frequentemente superior a 60% da cobertura, muda as características estruturais, ecológicas e fisiológicas da floresta, comprometendo suas capacidades ambientais”.

Os números fornecidos pelo INPE são, segundo o general Heleno, “manipulados”. Quem os manipula? Os cientistas, cujas frágeis mentes terão talvez sido sequestradas pelo “marxismo científico”? Ou estariam eles mancomunados com as potências estrangeiras, tais como a Noruega e a Alemanha, que, em seus malignos desígnios, conspiram para impedir que, através da liquidação final da floresta amazônica e do Cerrado, conquistemos nosso “desenvolvimento”? Não. Os cientistas estão apenas descrevendo a realidade com os seus instrumentos de mensuração. E é isso que apavora, porque, como se sabe, nada há de mais insuportável que a rigorosa descrição da realidade.


Os militares dos EUA e do Brasil

Os Ricardo Salles, os Ernesto Araújo, os Weintraub et caterva são casos perdidos. Mas o alto comando militar não é composto de ignorantes. Ao contrário. Recebem uma educação técnica aprimorada. O que os impede de ver a gravidade extrema das crises climáticas e do colapso da biodiversidade não pode ser, portanto, uma deficiência de formação intelectual. O que os está impedindo de compreender o que está em jogo é o anacronismo dos paradigmas sobre os quais se assenta seu ideário: segurança territorial, percepção dos povos indígenas, sobretudo os de fronteira, como potenciais ameaças a essa segurança e a ideia – a mais equivocada e desastrosa de todas – de que a Amazônia é um espaço desabitado a conquistar. Desmatar é intensificar em todos os sentidos as mudanças climáticas e as mudanças climáticas são uma ameaça existencial gravíssima e iminente ao Brasil e ao mundo. Se os militares duvidam dos cientistas e dos ambientalistas, que ouçam então os militares do Pentágono e do Ministério da Defesa dos EUA, por certo menos influenciados pelo “marxismo científico”...  Leiam o relatório de 13 de outubro de 2014, “Climate Change Adaptation Roadmap”, que afirma logo em sua abertura: [XV]

“As mudanças climáticas afetarão a capacidade do Departamento de Defesa de defender a Nação e coloca riscos imediatos para a segurança dos EUA”.

Os militares norte-americanos não embarcam na estupidez de seu presidente, quando este afirma que as mudanças climáticas são “a hoax” (um embuste), apenas uma ideologia, como repete, entre nós, Ernesto Araújo. Sabem que se trata de um problema de extrema gravidade e imediato, isto é, não para daqui a 500 anos, como afirma Salles, mas para o segundo quarto deste século. O Departamento de Defesa dos EUA afirma estar empenhado em adaptação e mitigação das mudanças climáticas. E as Forças Armadas do Brasil, como estarão elas respondendo a essa ameaça real e iminente ao país? Há vários trabalhos mostrando a vulnerabilidade do Brasil às mudanças climáticas, inclusive de cientistas brasileiros. O mais recente deles é o livro organizado por Carlos Nobre, José A. Marengo e Wagner R. Soares, Climate Change Risks in Brazil, Springer, 2019. No prefácio, esses autores voltam a alertar o que já demonstraram em trabalhos anteriores: “Num cenário de altas emissões de gases de efeito estufa [e esse é precisamente nosso cenário atual], o país tem uma alta probabilidade (acima de 70%) de sofrer um aumento de temperatura maior que 4oC antes do fim do século”.

Juntamente com o Mediterrâneo, os Estados Unidos e o Brasil compõem três das regiões do planeta mais particularmente vulneráveis às mudanças climáticas. Sonia Seneviratne, Professora titular na ETH de Zurique, e colegas publicaram em 2016 um artigo na Nature [XVI] no qual demonstram que: “O limite de 2oC das temperaturas médias em relação ao período pré-industrial pode ser cruzado em 2030 no Mediterrâneo, na região central do Brasil e nos EUA”. Eis, no mapa abaixo, as regiões em questão.

Reprodução
As três regiões que podem sofrer já por volta de 2030 um aquecimento médio anual de 2oC acima do período pré-industrial. Fonte: Sonia Seneviratne et al., “Allowable CO2 emissions based on regional and impact-related climate targets”. Nature, 529, 28/I/2016


No Brasil, a forma mais direta, imediata e eficaz de mitigação e adaptação é reduzir a zero o desmatamento e passar a um reflorestamento com espécies nativas em grande escala. O desmatamento é, no Brasil, como mostra o SEEG, o maior responsável pelas emissões de gases de efeito estufa (GEE). Por causa do desmatamento, o Brasil é o sétimo maior emissor de GEE do mundo. Defender as florestas é o maior serviço que os militares brasileiros podem e têm o dever de prestar ao país, de hoje e de amanhã. Até quando nossos militares se obstinarão em não perceber a importância estratégica, em todos os sentidos, das florestas brasileiras? Até quando persistirão no absurdo preconceito geopolítico oitocentista de que ela é um obstáculo ao desenvolvimento do país? A floresta amazônica é o que o Brasil tem de mais importante! É o que faz do Brasil uma singularidade planetária. Os biólogos e ecologistas consideram a floresta amazônica (mas até quando?) o lar de 10% das espécies conhecidas do planeta[XVII] sendo que 75% das espécies vegetais que aí se encontram são únicas dessa região. A maior floresta tropical do mundo é também, com suas três mil espécies de peixes, o maior viveiro de espécies de peixe de água doce do mundo.


A Amazônia está por um fio

Embora imenso, esse conjunto de ecossistemas é muito vulnerável, pois uma pequena alteração dos parâmetros climáticos e/ou de precipitação na floresta pode representar seu desmantelamento. É o que já está começando a acontecer! Uma equipe de 158 pesquisadores de 21 países, coordenada por Hans ter Steege, publicou uma avaliação dos riscos atuais de extinção dessa floresta: [XVIII]

“Ao menos 36% e até 57% de todas as espécies de árvores da Amazônia devem provavelmente ser consideradas como globalmente ameaçadas segundo os critérios da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). Esses resultados, se confirmados, aumentariam em 22% o número de espécies vegetais ameaçadas no planeta”.

De seu lado, repercutindo o editorial da revista Science Advances, de 28 de Fevereiro de 2018, escrito por Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, o Centro de Ciência do Sistema Terra (CCST) do INPE divulgou uma informação que deve suscitar um sobressalto das consciências: o “desmatamento na Amazônia está prestes a atingir um limite irreversível”: [XIX]

“Nas últimas décadas, outros fatores além do desmatamento começaram a impactar o ciclo hidrológico amazônico, como as mudanças climáticas e o uso indiscriminado do fogo por agropecuaristas durante períodos secos – com o objetivo de eliminar árvores derrubadas e limpar áreas para transformá-las em lavouras ou pastagens. A combinação desses três fatores [desmatamento, mudanças climáticas e incêndios] indica que o novo ponto de inflexão a partir do qual ecossistemas na Amazônia oriental, Sul e Central podem deixar de ser floresta seria atingido se o desmatamento alcançar entre 20% e 25% da floresta original”.

A Amazônia, ou ao menos toda a sua porção sul, central e leste, está quase ultrapassando seu limiar de resiliência, isto é, sua capacidade de resistir ao desmatamento e aos incêndios perpetrados por fazendeiros. As secas de 2005, 2010 e 2015/2016 são sintomas inequívocos dessa crescente desestabilização. Não sabemos quando a grande floresta cruzará esse ponto crítico, além do qual ela transitará, mais ou menos rapidamente (e não se exclui uma transição abrupta) para uma vegetação de savana e em direção a uma sempre maior aridez. De uma coisa, em todo o caso, sabemos: essa é a maior ameaça, real e iminente, à nação, que as Forças Armadas se dizem empenhadas em defender. O Ministro Augusto Heleno deveria ser o primeiro a se preocupar com isso. Mas, como afirma o excelente site ClimaInfo, “frente à febre, o general ataca o termômetro”.

Recapitulemos. A maior ameaça à segurança nacional não são os cientistas. Eles estão cumprindo seu dever de clamar aos quatro ventos que estamos nos aproximando celeremente de um colapso socioambiental. É melhor ouvir a mensagem, por sombria que seja, que atirar no mensageiro.  Tampouco as nações indígenas constituem uma ameaça à segurança nacional. Ao contrário, cientistas e indígenas são parte essencial da solução. A maior ameaça à segurança nacional é o agronegócio brasileiro, peça local da grande engrenagem global corporativa que controla o sistema alimentar e energético. Essa engrenagem global, motor decisivo do desmatamento, inclui as megacorporações agroquímicas, os grandes traders, o sistema financeiro, a especulação com as soft commodities nos mercados futuros, as mineradoras, as empreiteiras e, não por último, os economistas e demais ideólogos do “desenvolvimentismo”, que continuam afirmando que desenvolvimento é um conceito indissociável do crescimento do PIB. A destruição da floresta levada a cabo por essa grande coalizão já tem, e terá cada vez mais, consequências funestas para a sociedade brasileira e para o planeta. No espaço de uma geração, provavelmente menos, ela destruirá os alicerces de nossa agricultura.


A visão da ciência para a Amazônia

Os militares continuam a propor hoje o que propunham nos anos 1960: cegados por um anacrônico conceito de desenvolvimento, propõem, ou toleram como um mal menor, desmatar, queimar, devastar esse conjunto único de ecossistemas. O que propõem, ao contrário, os cientistas? [XX]

“Propomos um novo paradigma de desenvolvimento (...) no qual pesquisamos, desenvolvemos e conferimos escala a uma abordagem de inovação high-tech que vê a Amazônia como um bem público global de ativos biológicos, capacitando a criação de produtos inovadores de alto valor, serviços e plataformas, pela combinação das tecnologias digitais, biológicas e materiais da Quarta Revolução Industrial em curso”.

A proposta dos cientistas representa um passo de gigante na superação do vandalismo ecocida e suicida que caracteriza a atual devastação da cobertura vegetal brasileira pelo agronegócio. Eis sua mensagem essencial: é preciso admitir a premissa de que, mantida a via atual, nosso único destino é o colapso socioambiental. Admitida essa premissa, um futuro diferente de um colapso terminal para a civilização ainda é possível.

 


 

[I] Publicado em Cadernos de Política Exterior, ano III, 6, 2º semestre, 2017.

[II] Cf. Garrett M. Graff, “Trump’s world still faces 16 known criminal probes”. Wired, 30/IV/2019.

[III] Cf. Charles M. Blow, “Trump Isn’t Hitler. But the Lying...”. New York Times, 19/X/2017; Glenn Kessler, Meg Kelly, Nicole Lewis, “President Trump has made 1,628 false or misleading claims over 298 days”. The Washington Post, 14/XI/2017; Bandy X. Lee (org.), The Dangerous Case of Donald Trump: 27 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President, Nova York, Thomas Dunes Books, 2017; Bandy X. Lee, “Psychiatrists Warn About Trump’s Mental State”. New York Times, 30/XI/2017; Ben Kentish, “Donald Trump is a psychopath, suffers psychosis and is an ‘enormous present danger’, says psychiatrist”. The Independent, 30/IX/2017.

[IV] Cf. Benito Mussolini, “Il discorso dello Stato Corporativo”, Il Popolo d’Italia, n. 271, 15/XI/1933. Versão impressa do discurso pronunciado no dia anterior na reunião do Consiglio Nazionale dele Corporazioni: “Oggi possiamo affermare che il modo di produzione capitalistica è superato e con esso la teoria del liberalismo economico che lo ha illustrato ed apologizzato”.

[V] Cf. Raphael Di Cunto, Carla Araújo e Carolina Freitas, “Novo chanceler diz que esquerda criou ‘ideologia da mudança climática'”. Valor, 15/11/2018.

[VI] Cf. Denise Chrispim Marin, “Chanceler atribui aumento da temperatura da Terra a asfalto quente”. Veja, 30/V/2019: Ernesto Araújo questiona aquecimento global: "Não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais".

[VII] “Justiça de SP condena futuro ministro do Meio Ambiente por improbidade administrativa”. G1, 19/XII/2019.

[VIII] Cf. Leandro Demori, “Quem inventou a mentira de que o Ministro Ricardo Salles estudou em Yale?”. The Intercept, 23/II/2019.

[IX] Cf. Claudio Angelo, “A ignorância de Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente, sobre Chico Mendes”. Época, 15/II/2019.

[X] “Em recuo, Ministério do Meio Ambiente confirma reunião da ONU em Salvador”. Folha de São Paulo, 19/V/2019.

[XI] http://www.inpe.br/institucional/sobre_inpe/historia.php>.

[XII] Citado por Bernardo Mello Franco, “Desmatamento sobe e ministro briga com os números”. Globo, 26/V/2019

[XIII] “Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível”. CCST/INPE, 22/II/2018.

Carlos Nobre afirma que 15% dessa área está em recuperação, mas se trata de uma recuperação espontânea, em terras abandonadas, após serem desmatadas e poluídas por agrotóxicos que empobrecem os solos. O Brasil não está honrando seu compromisso de reflorestar 12 milhões de hectares, assumido no Acordo de Paris.

[XIV] Cf. Antônio Donato Nobre, “O futuro climático da Amazônia”. Relatório de Avaliação para a Articulación Regional Amazônica (ARA), 2014, p. 25.

[XV] https://www.acq.osd.mil/eie/downloads/CCARprint_wForward_e.pdf.

[XVI]Sonia Seneviratne et al., “Allowable CO2 emissions based on regional and impact-related climate targets”. Nature, 529, 28/I/2016.

[XVII] Dados de “Amazon deforestation”. WWF.

[XVIII] Cf. Hans ter Steege et al. “Estimating the global conservation status of more than 15,000 Amazonian tree species”. Science Advances, 1, 10, 20/XI/2015.

[XIX] “Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível”. CCST/INPE, 22/II/2018

[XX] Cf. Carlos A. Nobre Gilvan Sampaio Laura S. Borma Juan Carlos Castilla-Rubio José S. Silva, and Manoel Cardoso, Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm”. Proceedings of the National Academy of Sciences, 113, 39, 27 de Setembro de 2016: “We argue for a new development paradigm—away from only attempting to reconcile maximizing conservation versus intensification of traditional agriculture and expansion of hydropower capacity—in which we research, develop, and scale a high-tech innovation approach that sees the Amazon as a global public good of biological assets that can enable the creation of innovative high-value products, services, and platforms through combining advanced digital, biological, and material technologies of the Fourth Industrial Revolution in progress”.