Abandonar a carne ou a esperança

Ilustração LPSEste artigo é o resultado de uma comunicação feita no Fórum Permanente “Terras Indígenas e Interesses Nacionais”, organizado por Camila Loureiro Dias e Artionka Capiberibe, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, em 20 de maio de 2019. Para começar, convido o leitor a respirar fundo e assistir ao vídeo de 2 minutos, documentando o desmatamento ilegal na região de Cachoeira do Aruã a cerca de 100 km de Santarém, no Pará: https://www.youtube.com/watch?v=48eZM5uHkqo

Após a extração seletiva de madeira, vem o fogo no que resta da floresta e procede-se, enfim, ao corte raso para o plantio da soja e, sobretudo, para a abertura de pastos. Estes se degradam ao cabo de 10 a 15 anos e são abandonados, o que leva a novos desmatamentos.

 

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Zona desmatada para a abertura de pasto à beira da terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia | Foto: Gabriel Uchida, publicada por Alexander Zaitchik, “The Rainforest on Fire”. The Intercept, 6/VII/2019.


Incêndios

Os incêndios se alastram na Amazônia, com gigantescas emissões de gases de efeito estufa, perdas não menos gigantescas de biodiversidade e liberação na atmosfera de material particulado terrivelmente prejudicial à saúde pública. “Na população da Amazônia brasileira, mais de 10 milhões de pessoas são diretamente expostas a altos níveis de poluentes resultantes dos incêndios provocados pelo desmatamento e pela agropecuária”. Entre os males causados pela inalação de material particulado (PM10),  contam-se danos ao DNA, morte de células, câncer e prejuízos às células do pulmão etc.[I] Os incêndios florestais são, em geral, o meio mais rápido de “se livrar” da floresta. Ocorre que o fogo torna-se muitas vezes incontrolável dada a maior combustibilidade da floresta, vítima da interação entre desmatamento, temperaturas mais elevadas e secas. Os ecossistemas florestais enfrentam crescente dificuldade para se recuperar de secas e incêndios. Como afirmam Sonia I. Seneviratne e Philippe Ciais, “o tempo necessário aos ecossistemas para se recuperar aumentou durante o século XX. Se a frequência dos eventos de seca aumentar, alguns ecossistemas podem não se recuperar jamais completamente”.[II] É o caso justamente da Amazônia, onde as secas vêm ganhando intensidade e se tornando mais frequentes: 1998, 2005, 2010, 2015-2016...[III] A floresta não tem tempo de se recuperar nem das secas, nem dos incêndios gigantescos causados por ela, porque a Amazônia, não por acaso chamada rainforest, não está adaptada como outras florestas a esses dois fenômenos, de modo que os incêndios destroem 60% a 90% das árvores.

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Fonte: Bernardo M. Flores, Resiliência da Floresta Amazônica. O papel do fogo, inundação e clima, UFSC, 2017

 

Ora, metade das queimadas no Brasil ocorre agora na Amazônia e nesse bioma o número de focos de incêndio dobrou entre 2012 e 2017, atingindo cumulativamente 536.817 focos, conforme a tabela abaixo.

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Fonte: Graça Portela (ICICT/Fiocruz), baseada em dados do Programa Queimadas, Inpe

 


O crescimento do rebanho bovino e das pastagens nas regiões Norte e Centro-Oeste

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), em 2017 a população de bovinos no Brasil atingiu 221,81 milhões de indivíduos, excedendo a população de humanos.[IV] Ela é concentrada cada vez mais na região Norte e no Centro-Oeste, conforme mostra a Figura 1.

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O gráfico acima mostra que o Centro-Oeste, o mais populoso de bovinos já em 1985 (mais de 40 milhões), quase dobra essa população em 2016. Crescimento ainda mais espetacular ocorre na Amazônia, onde o rebanho quase decuplica, passando de cerca de 5 milhões em 1985 para quase 50 milhões em 2016. Juntas, as regiões Norte e Centro-Oeste, isto é, o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia, concentram hoje cerca de 58% do rebanho bovino brasileiro, sendo as únicas regiões que mostram uma tendência a ainda maior crescimento, com crescente substituição das florestas e das formações de savana por pastagens, como mostra a Figura 2

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Figura 2 - Mapas da cobertura vegetal do Brasil em 1985 e em 2017, mostrando as florestas em verde escuro, as formações de savana em verde claro, as pastagens em amarelo e a agricultura perene em rosa. Fonte: Mapbiomas.org (2019) 

 

Segundo o Mapbiomas, a perda florestal na Amazônia no período foi de 555,4 mil km2 (de 4.812.286 km2 em 1985 para 4.256.883 km2 em 2017), sendo que o aumento das áreas de pastagens nesse mesmo período foi de 462,7 mil km2 (de 973.3 mil km2 em 1985 para 1,43 milhão de km2 em 2017).

A quase totalidade do desmatamento na Amazônia e no Cerrado deve-se ao crescimento da dieta carnívora no Brasil e no mundo

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 Cerca de 80% do desmatamento da Amazônia brasileira deve-se à conversão da floresta em pastagens. A destruição do Cerrado, cuja cobertura original caminha hoje para um estado terminal, deve-se também preponderantemente à expansão da pecuária. Segundo estimativas do WWF, “60% da área total do Cerrado é destinada à pecuária e 6% aos grãos, principalmente soja. De fato, cerca de 80% do Cerrado já foi modificado pelo homem por causa da expansão agropecuária, urbana e construção de estradas - aproximadamente 40% conserva parcialmente suas características iniciais e outros 40% já as perderam totalmente. Somente 19,15% corresponde a áreas nas quais a vegetação original ainda está em bom estado”.[V] Em 2015, Veronique De Sy e colegas discriminaram as porcentagens em que se distribuem os diversos fatores de desmatamento em sete países da América do Sul. A Figura 3 sintetiza esses resultados. 

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Figura 1 – Porcentagens em que se distribuem os diversos fatores de desmatamento em sete países da América do Sul entre 1990 e 2005. Fonte: Veronique De Sy et al., “Land use patterns and related carbon losses following deforestation in South America”. Environmental Research Letters, 10, 2015

 

Nesse período (1990-2005), a pecuária foi a causa de cerca de 81% do desmatamento no chamado “arco do desmatamento” brasileiro, incluindo a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal. Pouco mais de 10% do desmatamento deve-se à agricultura, fundamentalmente à soja, a qual destina-se a nutrir, no Brasil e no exterior, sobretudo porcos, frangos e peixes. Portanto, algo próximo de 90% da destruição da cobertura vegetal primária da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal deve-se à dieta carnívora.


O gado bovino brasileiro destina-se sobretudo ao consumo interno

Segundo a ABIEC, em 2017 os frigoríficos brasileiros faturaram com a venda de carne R$ 102,6 bilhões, dos quais nada menos que R$ 83,24 bilhões provieram do mercado interno e apenas R$ 19,39 bilhões foram obtidos pela exportação. Esses valores correspondem aproximadamente à quantidade da carne vendida: “Do total de carne produzida”, afirma o relatório da ABIEC, “20% foi exportada e 80% abasteceu o mercado interno, garantindo um consumo de cerca de 37,5 quilos de carne bovina por habitante em 2017”. Em 2018, o documentário de Marcio Isensee e Sá, “Sob a pata do boi. Como a Amazônia vira pasto”, vencedor do prêmio One Hour do Ministério da Cultura da França, atualiza o dado mais relevante sobre as consequências do carnivorismo brasileiro: 40% da carne bovina que consumimos no Brasil provém da Amazônia, isto é, foi produzida em sua esmagadora maioria com a destruição da floresta amazônica.

De há muito se sabe que a Amazônia e o Cerrado desaparecem um pouco a cada naco de carne que ingerimos. Já em 2003, Sérgio Margulis publicou um estudo para o Banco Mundial, “Causas do Desmatamento da Amazônia Brasileira” no qual se evidencia a responsabilidade maior da pecuária. Em janeiro de 2006, João Meirelles Filho, diretor do Instituto Peabirú, publicou um artigo de imenso impacto: “Você já comeu a Amazônia hoje?”. Passados mais de 13 anos, vale sempre a pena lê-lo e relê-lo. Há cinco anos, Meirelles voltou à carga num artigo igualmente certeiro, publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi (Jan./Abril 2014): “É possível superar a herança da ditadura brasileira (1964-1985) e controlar o desmatamento na Amazônia? Não, enquanto a pecuária bovina prosseguir como principal vetor de desmatamento”. Logo na abertura do artigo de 2006, Meirelles advertia: “Não podemos nos dar ao luxo de esperar que as pessoas se convençam sobre a gravidade da situação da Amazônia. Será tarde demais quando fazendeiros, garimpeiros, madeireiros, funcionários públicos, representantes do poder público e a população em geral, despertarem para o fato.  Teremos perdido a maior parte da Amazônia”. Exato. Caberia apenas acrescentar: “Teremos perdido a maior parte da Amazônia e do Cerrado”. No que se refere ao Cerrado, de resto, essa perda não é mais um pesadelo futuro.


A importância do Greenpeace

O Greenpeace alerta há pelo menos 10 anos sobre a relação de causalidade entre carnivorismo e destruição das florestas. Em 2009, a ONG analisou esse processo no relatório “A farra do boi na Amazônia” e no estudo “O rastro da pecuária na Amazônia. Mato Grosso, o estado da destruição”. Em 2015, o Greenpeace lançou o relatório “Carne ao Molho Madeira”, mostrando que a carne que chega aos pratos do brasileiro tem o gosto amargo da floresta destruída. Em junho de 2017, o Greenpeace denunciou a indiferença dos frigoríficos e supermercados a essa destruição e abandonou, enfim, o Compromisso Público da Pecuária, um compromisso assumido pelos três maiores frigoríficos do país (JBS, Marfrig e Minerva) de controlar a origem da carne, compromisso que praticamente não saiu do papel. Um dos gráficos propostos pelo Greenpeace em 2009 a partir de dados do Imazon, já foi por mim repercutido nesta mesma coluna em 2017,[VI] e vale ser relembrado aqui.

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Figura 4 - Perda florestal na Amazônia ~1960 – 2004 (esquerda) e aumento das cabeças de gado amazônico entre 1990 e 2003 (direita). Fonte: Greenpeace, “O rastro da pecuária na Amazônia”, 2009, a partir de dados do Imazon.

 

Entre 1960 e 1988, mais especificamente entre 1969 e 1988, a ditadura militar e o governo de José Sarney já haviam destruído cerca de 360 mil km2 da floresta amazônica. Apenas em 1988, sob o governo Sarney (1985-1990), foram perdidos 21.050 km2 dessa floresta, convertida em geral em pastagens, pois a Amazônia já contava 22 milhões de cabeças de gado em 1987. A partir de 1990, quando a produção pecuária estoura na Amazônia e quando as duas linhas do gráfico acima começam a subir em paralelo, a quase triplicação das cabeças de gado amazônico entre 1987 e 2003 (de 22 para 64,1 milhões de unidades) implicou a perda de cerca de 250 mil km2 de floresta amazônica, uma área equivalente à do estado de São Paulo! Em apenas 14 anos (1990-2003). Repito, em apenas 14 anos... 

Enquanto isso, os exterminadores do futuro e seus representantes civis e militares têm o cinismo de afirmar que têm muito a ensinar ao mundo em matéria de florestas... Têm de fato: nenhuma sociedade em toda a história da humanidade conseguiu destruir tanto do patrimônio natural de seu povo em tão pouco tempo, para o enriquecimento de tão poucos. Nunca tão poucos infligiram tantas perdas à biodiversidade, tanto sofrimento a tantos e roubaram o futuro de todos, inclusive deles mesmos. É preciso repisar ad nauseam o que todos sabem: no espaço de apenas duas gerações (1969-2019), o agronegócio destruiu completamente, por corte raso, 800 mil km2 da floresta amazônica (20% de sua área original) e mais de 1 milhão de km2 de Cerrado. Esses dois biomas imensos, milagres únicos de deslumbramento e de biodiversidade, e com os quais os homens conviveram de modo produtivo e não destrutivo durante todo o Holoceno (11.700 anos AP – 1950), estão sendo sistematicamente destruídos, sobretudo pela pecuária.


Carne ou esperança

Nenhuma questão hoje é tão importante para o Brasil, para cada um de nós, quanto esta: há ainda esperança de reverter a trajetória atual de destruição da Amazônia e do Cerrado? A mesma pergunta pode ser formulada com outras palavras: há ainda esperança de evitar a ruína final de nossas sociedades, causada pelas consequências dessa destruição: temperaturas mais altas, epidemias, secas, inundações, elevação do nível do mar, quebras de safra crescentes e cada vez maior insegurança alimentar e hídrica? A resposta categórica é NÃO, se não assumirmos, entre outros compromissos políticos, a responsabilidade de reduzir drasticamente ou mesmo abandonar o consumo de carne.

Essa responsabilidade deve ser assumida por nós. Não cabe culpar apenas o mercado internacional pela destruição da manta florestal brasileira, como se fôssemos tão somente espectadores e vítimas indefesas da tragédia. Sim, sem dúvida, o problema é sistêmico e global. E, como tal, requer uma mutação de paradigma civilizacional, não vislumbrável nos limites dos Estados-Nação e, de modo geral, nos marcos do capitalismo em sua fase final de extrema globalização. Sim, sem dúvida também, o crescente consumo de combustíveis fósseis e a conversão da agricultura tropical em máquina excretora de soft commodities para o mercado externo (carne e soja, sobretudo para ração animal: porcos, frangos e peixes) são os dois motores principais do colapso em curso das florestas.

Mas no que se refere à Amazônia e ao Cerrado, nós, brasileiros somos os verdadeiros responsáveis por essa destruição, pois a carne produzida em detrimento desses biomas é preponderantemente consumida por nós. Uma precisão: “nós”, aqui, refere-se à pequena parcela de 10% de brasileiros, que concentramos em nossos bolsos 43,4% da renda nacional, [VII] e temos, portanto, os meios para comer carne frequentemente. Nada é mais incoerente que ambientalistas da classe média, comendo carne entre juras de amor aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e, em particular, às florestas brasileiras. Como afirma a nutricionista Alessandra Luglio, coordenadora do Departamento de Medicina e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira: “O seu bife é o principal devastador da floresta, principalmente pelo fato de que se precisa abrir campos para o gado e plantar alimentos como soja e milho para a pecuária, não só o gado, mas também para o frango, o porco e o peixe, animais de consumo que são criados de uma forma intensiva. Além disso, a produção de carne produz gases de efeito estufa, que estão gerando secas e mudanças climáticas, alteradoras do ecossistema”. [VIII] 


O esforço internacional

O Brasil, país profundamente conservador e imobilista, sempre evoluiu “de fora para dentro”, isto é, por pressão internacional, e o presente caso não é exceção. Em maio de 2017, o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da Repam, Rede Eclesial Pan-amazônica, ressaltou a importância da floresta Amazônica e “a ameaça que ela está sofrendo de destruição, de degradação, de desmatamento, etc.” [IX]. O papa Francisco convocou para outubro de 2019 uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica (nove países), cujo título será "Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e por uma Ecologia Integral". Há poucos dias, declarou que o que predomina na região é “uma mentalidade cega e destruidora que privilegia o lucro sobre a justiça” e que a destruição da Amazônia terá impactos planetários. De seu lado, os cientistas estão se mobilizando. Em 26 de abril de 2019, 602 cientistas europeus, ao lado de dois coletivos indígenas, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), publicaram na revista Science um artigo-manifesto, intitulado “Tornar sustentável o comércio da União Europeia com o Brasil”.

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O artigo mostra que, somente em 2011, a UE importou carne bovina e ração animal associada a mais de 1.000 km2 de desmatamento. E exorta a União Europeia a condicionar as negociações comerciais com o Brasil a três pontos:

(I) defender a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas;

(II) aperfeiçoar os procedimentos para rastrear commodities associadas ao desmatamento e a conflitos em relação aos direitos indígenas; e

(III) consultar e obter o consentimento dos Povos Indígenas e das comunidades locais para definir critérios estritamente sociais e ambientais para as commodities negociadas.

Como se vê, ninguém no mundo, de uma sumidade religiosa como o papa Francisco ao mais ateu dos cientistas, pode ver na obra de destruição perpetrada sobretudo pela pecuária algo diferente de uma asquerosa monstruosidade.


E nós?

O artigo-manifesto publicado na Science em abril suscitou o apoio dos cientistas brasileiros que publicaram uma E-letter na mesma Science, em 25 de junho de 2019, assinada por 56 pesquisadores de grande renome, entre os quais os colegas da Unicamp: Carlos A. Joly, Cristiana Seixas, Gustavo Romero e Thomas Lewinson. O texto afirma, em resumo:

“Contra toda razão, as evidências científicas estão sendo sistematicamente desconsideradas pelo grupo hegemônico no poder no Brasil, com prováveis impactos de longo alcance sobre a biodiversidade e a sociedade. É urgentemente necessária, para o bem da segurança ambiental, uma maior interação entre cientistas e políticos, de modo a demonstrar a função das Reservas Legais na manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais, que beneficiam fazendeiros, a sociedade e a economia do Brasil a longo prazo”. https://science.sciencemag.org/content/364/6438/341.1/tab-e-letters

É uma resposta exemplar, que pode e deve orientar uma reação muito mais ampla da sociedade à destruição em curso de nossas florestas. É claro que o Acordo UE – Mercosul representa mais um revés para a esperança de deter o desmatamento brasileiro e sul-americano, mas eis uma razão a mais para nos associar à luta dos indígenas e dos cientistas europeus e brasileiros contra a ratificação desse Acordo. Quando, em 2006, João Meirelles escreveu “Você já comeu a Amazônia hoje?”, o desmatamento da Amazônia já havia começado a cair a taxas muito significativas: de 27.772 km2 no período agosto de 2003 – julho de 2004 para 14.296 km2 no período agosto 2005 – julho 2006. E o desmatamento continuaria a cair até 2012, para em seguida voltar a crescer, refletindo a aliança espúria de Dilma e do PCdoB com o agronegócio, consubstanciado no novo Código Florestal (Lei 12.651 de 25/V/2012), como mostra a Figura 5.

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Figura 5 – Desmatamento da Floresta Amazônica de 1989 a 2016


 O desmatamento atingiu 7.900 km2 entre agosto de 2017 e julho de 2018, 13,7% a mais que nos dozes meses anteriores (6.947 km2). Isso significa que a Amazônia perdeu, entre a promulgação do novo Código Florestal em 2012 e julho de 2018, 40 mil km2. O desmatamento amazônico que terá ocorrido entre agosto de 2018 e julho de 2019 será com toda a probabilidade maior que o dos 12 meses anteriores, de modo que até 31 de julho de 2019 teremos perdido, em apenas sete anos, uma área de floresta pelo menos equivalente à soma das áreas dos estados de Alagoas e Sergipe (49,6 mil km2).

Evidentemente, esse é o caminho mais curto e mais rápido para o colapso ambiental, e não apenas porque não podemos viver sem florestas, mas também porque os ruminantes são a mais forte fonte de liberação de metano na atmosfera, um gás de efeito estufa com um potencial de aquecimento global (GWP) 86 vezes maior que o do CO2 num horizonte de tempo de 20 anos, segundo os cálculos do IPCC (AR5 2013, p. 737). Ora, as emissões de metano por fermentação entérica do gado bovino no Brasil aumentaram por um fator de 2,5 entre 1970 e 2013, como mostra a Figura 6. 

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Figura 6 - Emissões de metano no Brasil por cultivo de arroz, fermentação entérica, manejo de dejetos animais, queima de resíduos agrícolas e solos agrícolas entre 1970 e 2014 (kg). 1970 = 4.446.659 kg  /  2000 = 9.349.498  /  2014 = 11.292.333  (x 2,5 em relação a 1970) Fonte: SEEG http://plataforma.seeg.eco.br/sectors/agropecuaria


De modo mais geral, a insustentabilidade da dieta carnívora foi bem demonstrada por um grupo de pesquisadores coordenados por Alice Rosa. Eles avaliaram o impacto ambiental em termos de emissões de carbono, de consumo de água e de pegada ecológica de 153 italianos adultos (51 onívoros, 51 ovo-lacto-vegetarianos e 51 veganos), considerando a variabilidade interindividual no interior de cada grupo ao longo de sete dias num contexto de vida cotidiana. O resultado é impressionante: o simples fato de incluir a carne em uma dieta onívora potencia imensamente o impacto ambiental de nossa alimentação, como mostra a Figura 7

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Figura 7 – Comparação entre as dietas omnívora (O), ovo-lacto-vegetariana (VG) e vegana (V), em termos de: (1) emissões de gramas de gases de efeito estufa por dia (CO2-eq); (2) consumo de água por dia e (3) m2 de terra global (pegada ecológica) usados por dia. Os valores são médias +/- o desvio-padrão de 51 medidas independentes para cada grupo dietético.  Fonte: Alice Rosi et al., “Environmental impact of omnivorous, ovo-lacto-vegetarian, and vegan diet”. Scientific Reports, 7, 21/VII/2017

 


Conclusão

Se todos os presidentes do Brasil foram complacentes com o desmatamento, com Bolsonaro a guerra à floresta tornou-se uma promessa de campanha e uma prioridade em sua política de governo.

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Encorajado por essa política, o agronegócio está destruindo agora a uma velocidade sem precedentes o patrimônio natural do país. O INPE detectou aumento de 88% no desmatamento da Amazônia comparando junho de 2019 a junho de 2018, e mais de dois mil alertas ou focos de desmatamento entre janeiro e junho de 2019. Ainda segundo o INPE, mais de 95% foram desmatamentos ilegais. Mas agora está lá o Ricardo Salles, garoto de ouro dos fazendeiros, garantindo, depois de errar em uma continha de criança, que a “Amazônia já tem desmatamento relativo zero”.[X]

Precisamos combater o ecocídio em curso de todas as formas legais possíveis. Mas a forma mais simples e direta de luta é simplesmente parar de comer carne ou reduzir drasticamente seu consumo. Recapitulo: dado que quase 90% do desmatamento da Amazônia e uma porcentagem similar do desmatamento do Cerrado deve-se à pecuária bovina e à soja usada em grande parte para ração animal, e dado que 80% da carne bovina produzida no Brasil é consumida em nossos pratos, segue-se que somos os principais responsáveis pela destruição do patrimônio natural, do clima e da biodiversidade de nosso país. Podemos manter a floresta e tudo o que ela proporciona ou podemos manter a dieta carnívora. Mas não podemos manter os dois. É simples assim. A boa notícia é que somos ainda os protagonistas do drama. Onde não há demanda, não há oferta: não é justamente esse o lado bom de uma economia de mercado? O esforço internacional nesse sentido é crescente. Temos que fazer a nossa parte. Não é fácil “desmamar” da carne, bem sei. Dietas adquiridas na infância enraízam-se em nós.  Mas ajuda bastante saber que a carne que consumimos hoje é cheia de hormônios, antibióticos, conservantes e, sobretudo, é o resultado de inaceitável sofrimento animal. Além disso, segundo a OMS, há evidência limitada de que carne vermelha é cancerígena (grupo 2A) e evidência suficiente (grupo 1) de que carne processada o seja. [XI] Em suma, carne é uma droga pesada. O simples ato de renunciar ao bife nosso de cada dia criará a percepção de estarmos fazendo a coisa certa para nossa saúde, para a conservação das florestas e para criaturas capazes de sofrer como nós, além de uma expectativa muito mais positiva em relação ao nosso futuro e ao de nossos filhos. O tempo para isso é agora. Se adiarmos mais, perderemos de vez as florestas e, então, não haverá dieta alguma, nem mesmo a vegetariana, para nos alimentar.

 


 

[I] Cf. N. de Oliveira Alves et al., “Biomass burning in the Amazon region causes DNA damage and cell death in human lung cells”. Scientific Reports, 7, 7/IX/2017.

[II] Cf. Sonia I Seneviratne e Philippe Ciais, “Environmental science: Trends in ecosystem recovery from drought”. Nature, 548, 10/VIII/2017, pp. 164-165: “the time taken for ecosystems to recover from drought increased during the 20th century. If the frequency of drought events rises, some ecosystems might never have the chance to fully recover”. Veja-se também Christopher R. Schwalm et al., “Global Patterns of drought recovery”. Nature, 548,  10/VIII/2017 , pp. 202-205.

[III] Cf. A. Erfanian, G. Wang, L. Fomenko, “Unprecedented drought over tropical South America in 2016: significantly under-predicted by tropical SST”. Scientific Reports, 19/VII/2017. Veja-se também C. Nobre, J. Marengo, W. R. Soares, Climate Change Risk in Brazil, Springer, 2019, Introdução.

[IV] Cf. Equipe BeefPoint, “Perfil da Pecuária no Brasil”, ABIEC, 26/VII/2018.

[V] Cf. "Ameaças ao Cerrado”. WWF

[VI] Cf. “Último século das florestas tropicais?”, Jornal da Unicamp, 7/VIII/2017.

[VII] Os dados do IBGE de 2017 são claros: 50% dos trabalhadores brasileiros recebiam então por mês, em média, 15% menos que o salário mínimo (R$ 880,00 naquele momento). Cf. Daniel Silveira, “Metade dos trabalhadores brasileiros tem renda menor que o salário mínimo, aponta IBGE”. G1, 29/XI/2017.

[VIII] Cf. Vladimir Platonow, “Produção de carne afeta desmatamento na Amazônia, dizem especialistas”. Agência Brasil, 1/VIII/2018.

[IX] Cf. CNBB, “Papa anuncia um Sínodo para a Pan-amazônia”. POM, 15/X/2017.

[X] Cf. Philippe Watanabe, “Ricardo Salles afirma que Amazônia já tem ‘desmatamento relativo zero’”. Folha de São Paulo, 4/VII/2019.

[XI] Cf. “Q&A on the carcinogenicity of the consumption of red meat and processed meat”. OMS, outubro de 2015 (carne processada = presunto, embutidos, enlatados, molhos à base de carne etc).