Ciência para que te quero?

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Uma pesquisa que eu questiono em parte, realizada pelo Pew Research Center, dos EUA, em vinte países antes da pandemia do novo coronavírus e divulgada no dia 29/9/2020, mostra que 36% dos brasileiros não acreditam na ciência, nos cientistas e muito menos no potencial científico do país. Segundo a pesquisa, isto não se reflete em todos os países, onde os cientistas e a ciência são mais valorizados, mas eu entendo que mesmo por aqui, esse percentual está muito alto e penso ser menor. Mesmo não concordando com os números colocados para o Brasil, isso pode ajudar a entender em parte por que o discurso negacionista e anticiência ganhou tanto espaço no Brasil, principalmente, nos grupos que defendem o atual governo, que desprezam totalmente a ciência. E com tantos cortes em verbas e apoio para a ciência e tecnologia e educação e saúde em todos os níveis, esses governantes estão buscando o que lhes interessa: a destruição das instituições públicas de ensino e pesquisa brasileiras. Mas fato é que eu aposto que a percepção pública da ciência está melhorando, principalmente após essa pandemia.

Um outro artigo publicado no dia 8/7/2020 na revista PLOS ONE mostra que as ações de divulgação de ciência para o público no Brasil, mesmo antes da pandemia de Covid-19, são mais intensas que a média internacional. Estamos percebendo um grande envolvimento das universidades e instituições de pesquisa brasileiras, no sentido de contribuir de forma importante e decisiva para a melhorar a conscientização de parte da sociedade sobre a importância da ciência, tecnologia e educação para o desenvolvimento econômico e social do país. Estas ações de comunicação com a sociedade são de fundamental importância para divulgar os resultados das pesquisas relevantes do ponto de vista social e para obter apoio e respaldo da sociedade para essas atividades.

Será mesmo um kit milagroso?

Segundo a equipe médica do Hospital Militar Walter Reed, que acompanha o presidente americano Donald Trump, infectado com Covid-19, ele iniciou tratamento com dexametasona, indicada para casos mais graves da doença. Ele também utilizou o remdesivir, antiviral criado para combater o ebola e autorizado para uso emergencial em pacientes infectados pelo novo coronavírus, além do coquetel REGN-COV2, uma combinação de dois anticorpos sintéticos, que se ligam ao Sars-CoV-2 e estimulam o sistema imunológico a combater o vírus. Curioso que Trump, que mandou desovar para o Brasil o estoque americano de hidroxicloroquina, se livrando de um medicamento que não tem eficácia comprovada contra a Covid-19, após a infecção, aparentemente não usou nenhum componente dos kits milagrosos contendo ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina, que por aqui, políticos populistas de olho em votos e que defendem o obscurantismo e o negacionismo da ciência distribuíram para as populações desavisadas e desprevenidas. Sim, até o antibiótico azitromicina foi distribuído a rodo como são distribuídos os santinhos de eleição, aqueles impressos com informações com o nome do candidato e seu número. E se esse ano a moda pega e os candidatos distribuírem seus santinhos junto com os kits milagrosos? "Vote em mim e fique livre da Covid-19!"

Aliás, tanto Trump, como o nosso presidente, afirmaram inúmeras vezes, que usaram as cloroquinas como preventivo para não pegar Covid-19, como se fosse uma vacina. Aí chegamos à conclusão, após esse pequeno estudo clínico com dois presidentes, que as cloroquinas não funcionam para evitar a infecção por Covid-19 em presidentes, pois tanto lá como aqui, os dois foram infectados. E Trump, que assim como seus apoiadores não usava máscaras nos comícios, aparentava estar convencido de que o vírus é uma fraude e que o número de mortes foi exagerado pela mídia. Lá como aqui, circulam as muitas teorias da conspiração e já ouvimos aqui comentários homofóbicos do nosso presidente sobre uso de máscara, além de que não protege “bulhufas”.

Às vésperas das eleições americanas no início de novembro, cientistas e especialistas em saúde pública dos EUA temem que o presidente americano ameace passar por cima da Food and Drug Administration (FDA) e libere o uso de candidatas vacinais para Covid-19 através de uma ação de autorização de uso emergencial antes mesmo de aprovação em fase 3. Isso pode significar o caos mais caótico em meio ao caos já muito caótico que foi causado por esta tempestade instalada com a Covid-19. Seria a barbárie lá como é aqui desde o início desta pandemia com todo o negacionismo e ataques à ciência, mas com desdobramentos terríveis em termos de poder prejudicar todas as conquistas para a saúde pública que vieram com as vacinas, que há mais de 220 anos, desde que o médico e cientista inglês Edward Jenner descobriu a vacina para varíola, vem salvando milhões de vidas.

Que Trump se recupere e que aprenda que todos nós seres humanos somos vulneráveis, vivemos no mesmo planeta e dependemos uns dos outros e dos ecossistemas que enquanto sociedade estamos destruindo, desmatando, queimando. E a versão que vamos contar da história para nossos filhos e netos, aqueles que ainda vão nascer, vai depender das nossas ações coletivas e de decisões tomadas hoje.

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Ponto para a ciência: Sars-CoV-2 infecta células de defesa T CD4 

Um estudo muito bacana, realizado por colegas da Unicamp e publicado na plataforma online medRxiv no dia 28/9/2020 mostra que o Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, infecta e se replica no interior de linfócitos T CD4, células de defesa do nosso organismo, de forma semelhante ao que faz o HIV, que causa AIDS. O experimento foi realizado com células isoladas de indivíduos saudáveis e pacientes com casos moderados e graves infectados pelo Sars-CoV-2. Os linfócitos T CD4 são importantes sinalizadores de nosso sistema de defesa e auxiliam os linfócitos B na produção de anticorpos e também os linfócitos T CD8, que destroem as células infectadas pelo Sars-CoV-2. A infecção de linfócitos T CD4 também pode levar à maior produção de interleucina-10 (IL-10), uma baita encrenqueira, pois isso está associado a uma maior carga viral e ao desenvolvimento da forma grave da Covid-19. Aparentemente, o Sars-CoV-2 infecta as células T CD4 através de interação inicial com a proteína CD4 do linfócito e entra na célula após ligação com a enzima ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2), que de fato é a principal porta de entrada do vírus nas células humanas. Esses resultados podem sugerir que essas alterações em linfócitos T podem dificultar a resposta imunológica e ajudar a entender porquê nos casos mais graves de Covid-19, a resposta dos pacientes é mais desregulada.

Queda na cobertura vacinal e movimento antivacinas

Segundo dados preliminares do Programa Nacional de Imunizações (PNI), coletados até o dia 3/10/2020, apenas 54% das crianças brasileiras haviam sido vacinadas em 2020, uma grande redução com relação aos anos anteriores, mostrando uma preocupante tendência na queda de cobertura vacinal, agravada em 2020 com a pandemia da Covid-19. O Brasil vem apresentando aumento no número de casos de sarampo e corremos o risco de, se não atingirmos as metas de cerca de 95% nas coberturas vacinais, termos surtos de meningite e retorno da poliomielite, além de outras doenças.

Para que isto não fique ainda pior em virtude do movimento antivacinas, é preciso garantir que fatos científicos e orientações sobre saúde baseadas em evidências científicas circulem mais rápido que a disseminação de mentiras e fake news sobre vacinas. Temos que fazer com que notícias e informações corretas cheguem para as pessoas em todas as mídias e locais onde elas recebem essas informações. Precisamos construir e conquistar a confiança do público na ciência, na segurança e eficácia das futuras vacinas aprovadas em fase 3 contra a Covid-19.

Pela primeira vez na história de uma pandemia, nós temos a oportunidade de usar a tecnologia e as redes sociais para levar informação em linguagem simples e acessível para que a sociedade possa se sentir segura e bem informada, auxiliando em uma resposta global de vacinação em massa, fundamental no combate à pandemia. E, precisamos lembrar a população que mesmo que tenhamos uma vacina eficaz contra a Covid-19, vamos ter que esperar alguns meses para que nossas vidas voltem ao normal, enquanto não houver distribuição e aplicação ampla para todas as populações. O público precisa se identificar com os cientistas e acreditar que a ciência salva do obscurantismo, mas precisamos todos agir para que o Brasil tenha sucesso em bloquear este criminoso movimento antivacinas.

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A quantas andam os testes das candidatas vacinas  

Sinovac - CoronaVac

A CoronaVac está sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech. O Governo do Estado de São Paulo anunciou o recebimento de 6 milhões de doses da CoronaVac para dezembro de 2020, prevê 60 milhões de doses até fevereiro de 2021 e informou também que vai começar a vacinar os profissionais de saúde em 15 de dezembro, embora os estudos de fase 3 estejam em andamento, sem previsão de conclusão do primeiro desfecho.

Uma boa notícia, a Sinovac divulgou efeitos colaterais adversos em apenas 5,3% de um total de 50.027 mil voluntários testados na China, conforme dados apresentados no dia 23/09/2020, sendo que 94,7% dos voluntários testados não apresentaram qualquer reação adversa ao imunizante. Os efeitos colaterais foram leves, como dor no local da aplicação, cansaço, febre moderada e em menor proporção, perda de apetite e dor de cabeça. Outra boa notícia, a CoronaVac induziu boa resposta imune em pessoas com mais de 60 anos, com anticorpos sendo detectados em cerca de 90% dos voluntários que receberam a formulação vacinal. São dados importantes, mas eficácia em imunizar e proteger a população só a fase 3 dirá, então melhor termos cautela.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o aumento do número de voluntários de 9.000 para 13.060 voluntários e crianças, adolescentes e idosos brasileiros também serão incluídos nos estudos de fase 3. A CoronaVac tem autorização de uso emergencial apenas na China, mas o Governo do Estado de São Paulo enviou dados preliminares de resposta imunológica e os relatórios de segurança da CoronaVac em testes não-clínicos (estudos em laboratório e em animais antes dos ensaios de fase 1-3 em humanos) para a Anvisa, que vai realizar avaliações burocráticas de forma contínua, com o objetivo de agilizar o processo de aprovação.

Oxford – AZD1222

A Anvisa anunciou no dia 01/10/2020, o início das análises não clínicas de forma contínua visando o registro da candidata vacinal desenvolvida em parceria entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. O objetivo é acelerar o processo de aprovação, caso os resultados de fase 3 atestem a segurança, eficácia e qualidade da AZD1222 como vacina. No dia 30/09/2020, a Fiocruz confirmou em audiência na Câmara dos Deputados, o início da produção da vacina contra a Covid-19, em dezembro de 2020, desde que aprovada nos estudos clínicos de fase 3 que envolvem mais de 57 mil voluntários no Brasil, no Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul e Índia. A Fiocruz reafirmou o rigor científico e ético com que todo o trabalho tem sido realizado, salientando aspectos de segurança, eficácia, transparência e qualidade do produto, apesar do contexto de emergência sanitária, que levou ao aceleramento das etapas de produção.

Johnson & Johnson - Ad26.COV2.S

A Johnson & Johnson anunciou no dia 23/09/2020 o início dos testes da Fase 3 de sua candidata vacinal (Ad26.COV2.S) contra a Covid-19 com a participação de 60 mil voluntários em oito países. No Brasil, será testada em sete mil voluntários maiores que 18 anos e alguns acima de 60 anos e com comorbidades, em 7 estados e no DF. Os resultados são esperados até o início de 2021. Os resultados parciais de ensaios de fase 1 e 2 desta candidata vacinal, publicados no dia 25/09/2020 sugerem o uso de apenas uma dose e mostraram a indução de boa resposta imune. Contudo, nem todos os resultados de segurança e imunogenicidade estavam disponíveis para todos os participantes quando o artigo foi publicado. O estudo duplo-cego envolveu 796 voluntários divididos em 3 grupos, sendo dois grupos com voluntários com idades de 18 a 55 anos e um grupo com 394 voluntários com 65 anos de idade ou mais. Cada grupo recebeu a candidata vacinal e um placebo para controle. A produção de anticorpos foi similar em todos os 3 grupos e apenas efeitos adversos leves como febre, fadiga, dor de cabeça e dor no corpo foram observados.

Moderna - mRNA-1273

Os resultados de fase 1 da candidata vacinal desenvolvida pelo laboratório americano Moderna, que usa plataforma baseada em RNA mensageiro (mRNA), mostraram que ela induziu produção de anticorpos neutralizantes em cerca de 40 voluntários acima de 56 anos, conforme publicação do dia 29/09/2020 na revista The New England Journal of Medicine, após o uso de duas doses em cada voluntário, com intervalo de 28 dias. O estudo envolveu 20 voluntários com idade entre 56 e 70 anos e 20 voluntários com 71 anos ou mais. Alguns voluntários relataram efeitos adversos como cansaço, calafrios, inchaço e dor no local da aplicação e dores de cabeça e os resultados são semelhantes aos observados anteriormente para voluntários na faixa de 18-55 anos. Esses voluntários serão acompanhados por aproximadamente um ano para monitorar os efeitos a longo prazo da candidata vacinal.

Pfizer/BioNTech - BNT162

Após solicitação das empresas, a Anvisa autorizou no dia 18/09/2020 a farmacêutica norte-americana Pfizer e a empresa de biotecnologia alemã BioNTech a dobrar o número de voluntários de 1 mil para 2 mil no Brasil, além da ampliação da faixa etária dos participantes, sendo agora a partir de 16 anos.

Novavax - NVX-CoV22373

Outra candidata vacinal, a da empresa farmacêutica Novavax, iniciou fase 3 de estudos clínicos contra a Covid-19 no Reino Unido, envolvendo 10 mil pessoas com idade entre 18 e 84 anos, com ou sem comorbidades. Cerca de 25% dos voluntários tem mais de 65 anos e é um estudo amplo, incluindo minorias raciais e étnicas. O estudo clínico será randomizado, duplo-cego, dividido em dois grupos, um recebendo duas doses intramusculares da NVX-CoV22373 e o adjuvante Matrix-M em intervalo de 21 dias e outro grupo recebendo um placebo.

Observação : Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Unicamp.